O telefone tocou às quatro e quarenta da manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, eu já sabia que algo estava errado. Homens como eu não dormem profundamente. Não depois de anos atravessando florestas alagadas, campos queimados, grotas, lagos congelados e rodovias vazias com um cão farejador ao lado. O sono vem em pedaços. Dez minutos aqui. Trinta ali. Um ouvido sempre aberto, uma parte da mente sempre alerta para o som que significa que alguém se perdeu.
Então, quando o celular vibrou sobre o caixote de madeira ao lado da cama, minha mão já estava a caminho antes do segundo toque.
— Raimundo Farias — atendi, com a voz rouca de quem não fala há horas.
A mulher do outro lado hesitou, como se esperasse outra pessoa.
— Senhor Farias, aqui é a investigadora Daniela Prado, da Delegacia de Montenegro. Desculpe acordá-lo, mas temos uma menina aqui. Foi encontrada andando descalça pela ERS-124, perto do trevo de acesso a Salvador do Sul, pouco antes do amanhecer.
Sentei na escuridão. Meu cão farejador mais velho, Faísca, levantou a cabeça do tapete.
— Uma menina? — perguntei.
— Sim. Aparenta uns seis anos. Está assustada, mas fisicamente bem. Ela nos deu seu número de telefone.
Olhei ao redor da cabana, como se o quarto pudesse me explicar aquela ligação. O fogão a lenha estava apagado. As botas ficavam junto à porta. A chuva fina batia na janela. Nada na minha vida havia mudado nos últimos trinta segundos, e ainda assim eu sentia o chão se movendo sob meus pés.
— Acho que a senhora se enganou de pessoa — falei. — Eu não tenho filha.
Nova pausa.
— Pois é, senhor — disse a investigadora, com uma voz estranhamente suave. — Eu também pensei nisso. Mas ela não para de perguntar por alguém chamado Tatu.
A palavra me atingiu com tanta força que esqueci como se respirava.
Tatu.
Ninguém me chamava assim havia vinte e cinco anos. Nenhuma pessoa viva, pelo menos.
Meu irmão Érico me deu esse apelido quando éramos meninos num abrigo em Caxias do Sul. Eu tinha sete anos e morria de medo de cada corredor escuro em cada casa nova para onde nos mandavam. Ele tinha nove, era magro como um graveto e duas vezes mais corajoso que qualquer adulto que já conheci. Quando eu chorava à noite, ele descia do beliche de cima, colocava a mão no meu peito e sussurrava:
— Tô aqui, Tatu.
Érico estava morto havia quatro anos. A esposa dele, Lisandra, morrera com ele. O bebê que esperavam, uma menina, também.
Pelo menos era o que o mundo me dizia. Era o que constava nas certidões de óbito. Era o que diziam os caixões lacrados. Era o que dizia a lápide no cemitério de Montenegro toda vez que eu ficava diante dela e sentia minha própria vida se apagar um pouco mais.
A voz da investigadora voltou pelo telefone.
— Senhor Farias? O senhor ainda está aí?
Coloquei os pés no chão. Faísca já estava junto à porta, orelhas em pé, o focinho apontado para a janela escura, como se tivesse farejado alguma coisa através da chuva.
— Estou indo — respondi.
Vesti a calça jeans, as botas e a jaqueta velha de busca e resgate. A viagem até a delegacia levou trinta e cinco minutos. Lembro de cada um deles, porque minhas mãos tremeram no volante o tempo inteiro. A estrada de chão batido até o asfalto, depois a serra aparecendo entre a neblina, o cheiro de eucalipto molhado entrando pela fresta da janela.
A delegacia cheirava a café requentado, uniformes úmidos e cera de chão. Uma assistente social me recebeu na porta do corredor. Tinha olhos cansados e a expressão cautelosa de quem já ouvira coisas tristes demais antes do café da manhã.
— Ela está calma agora — disse a mulher. — Tem um cobertor e um suco de caixinha. Disse que está esperando o senhor.
— Eu falei com a investigadora — respondi, sentindo a própria voz sair estranha. — Eu não tenho filho nenhum.
A assistente social apenas acenou com a cabeça. Depois abriu a porta.
A menina estava sentada numa cadeira de plástico, os pés descalços encolhidos sob a barra de uma manta cinza. O cabelo era escuro e embaraçado. As bochechas, pálidas. Havia arranhões nos tornozelos e terra debaixo das unhas. Vestia um casaco de lã de adulto que pendia até os joelhos.
Mas foram os olhos que me pararam. Verdes acinzentados. Os olhos de Érico.
Ela ergueu a cabeça e um alívio tão completo se espalhou pelo rosto que quase recuei um passo.
— Tatu? — sussurrou.
Meu peito apertou.
Ela escorregou da cadeira, arrastando o cobertor.
— Papai mandou eu achar o Tatu — disse. — Papai falou que o Tatu sempre vem.
Ajoelhei antes de perceber que estava me movendo.
— Como é seu nome? — consegui perguntar.
A mãozinha fria escorregou para dentro da minha.
— Clementina — respondeu. — Clementina Farias.
E então, da soleira atrás dela, uma voz de mulher sussurrou:
— Me perdoa, Raimundo.
Ergui os olhos.
Uma mulher estava parada ali, num casaco preto comprido, mais magra do que eu lembrava, o cabelo curto e tingido de escuro. O rosto, mais velho, endurecido pelo medo. Mas eu a reconheci.
Tinha visto aquele rosto nas fotos de casamento. Tinha visto aquele rosto ao lado do meu irmão no cais do Guaíba, em Porto Alegre, quando fui visitá-los num inverno. Tinha visto o caixão com o nome dela descer à terra.
— Lisandra — falei.
Ela me encarou com olhos vazios.
— Você enterrou o Érico — sussurrou. — Não a mim.
A sala inteira pareceu apertar ao meu redor. A assistente social fez menção de se aproximar, mas Lisandra ergueu a mão, um gesto pequeno, e a mulher parou. A menina, Clementina, apertou meus dedos com força, como se eu pudesse evaporar a qualquer momento.
— Como? — perguntei, e a palavra saiu estranha, como se pertencesse a outra pessoa.
Lisandra entrou na sala sem fazer barulho. Os sapatos estavam gastos, as solas finas. Ela fechou a porta atrás de si e ficou parada, as costas contra a madeira.
— Eu não morri naquele acidente — disse ela, com uma calma que não combinava com a situação. — O carro pegou fogo, mas eu fui arremessada para fora antes da colisão. Um motorista de caminhão me encontrou na beira da estrada, desacordada, grávida de sete meses. Ficou com medo de se envolver. Me levou a uma casa de parteira no interior de Dois Irmãos e desapareceu.
Ela respirou fundo. Eu não conseguia desviar o olhar do rosto dela.
— Fiquei semanas entre a vida e a morte. Quando recobrei a consciência, não lembrava nem meu nome. A parteira me acolheu, fez o parto. A Clementina nasceu ali, naquela casa, na madrugada de uma terça-feira.
A menina se encostou no meu braço, o peso pequeno e sólido.
— Eu não queria que acreditassem que eu estava morta — continuou Lisandra. — No começo, juro que não conseguia lembrar de nada. Depois as lembranças voltaram, mas a essa altura eu já tinha ouvido no rádio que o enterro tinha acontecido. Que a família toda me dava como morta. E fiquei com medo. Medo de reaparecer do nada e ter que explicar o que ninguém ia acreditar.
A raiva subiu pela minha garganta como bile.
— Quatro anos — falei. — Quatro anos que eu choro a morte do meu irmão e da família dele. Quatro anos que visito um túmulo com o teu nome numa pedra. E tu me aparece agora, numa delegacia, como quem volta do mercado?
Ela desviou o rosto.
— Eu sei o que você deve estar sentindo.
— Tu não sabes de nada — falei, mas a minha voz não saiu firme. Eu estava com uma menina agarrada no braço e uma ressuscitada na minha frente. Não havia firmeza possível.
Faísca, que tinha ficado na recepção por ordem da investigadora, soltou um latido curto do outro lado da porta. A assistente social abriu uma fresta.
— Está tudo bem aqui?
— Está — respondi, sem saber se era verdade.
Clementina ergueu o rosto para mim. Os olhos do meu irmão, no rosto de uma criança que não devia existir.
— Papai falou que o senhor tinha um cachorro — disse ela. — Falou que o cachorro achava todo mundo que se perdia.
Engoli em seco.
— O teu pai — comecei, e parei. — Como é que a tua mãe sabia que eu te chamava de alguma coisa? Quer dizer… como é que tu sabias do Tatu?
Ela inclinou a cabeça, como se a pergunta fosse óbvia.
— A mamãe falou.
Olhei para Lisandra. Ela sustentou o meu olhar.
— O Érico me contava tudo — disse ela, a voz baixa e cansada. — Nas noites de frio, quando a falta de vocês apertava, ele falava de ti. Contava as histórias do abrigo, do apelido, do medo de escuro. A Clementina cresceu ouvindo falar do tio Tatu. Do tio que achava gente perdida na serra.
Fechei os olhos por um instante. A sala cheirava a chuva, a papinha de criança e a desinfetante barato. Do lado de fora, a manhã começava a nascer sobre a cidade de Montenegro, devagar, como quem pede licença.
— Eu quero um exame de DNA — falei, e as palavras saíram duras. — Antes de qualquer coisa. Antes de conversar, antes de acreditar. Podem fazer isso em Porto Alegre. Eu pago.
Lisandra acenou com a cabeça.
— É justo.
— E tu não vais a lugar nenhum até o resultado — acrescentei. — Nem com essa menina.
Ela parou diante de mim, dura e frágil ao mesmo tempo.
— A gente não tem para onde ir, Raimundo. Eu pedi à investigadora para te chamar porque não tinha mais ninguém. A parteira morreu no inverno passado. A casa foi vendida para pagar dívidas que ficaram. Eu dormi com a criança numa rodoviária nos últimos três dias.
Senti o maxilar travar. Eu não queria sentir pena. A pena atrapalha o que precisa ser feito.
— Espera aqui — falei.
Saí da sala e fui até o balcão da delegacia. A investigadora Daniela Prado me olhava por cima de uma pilha de papéis.
— A senhora já checou a história? — perguntei.
— Ela apresentou documentos emitidos em Dois Irmãos. Certidão de nascimento da menina no nome dela e do Érico Farias. O nosso sistema não achou nada contra. Mas, obviamente, se a senhora é a pessoa que constava como falecida, isso precisa ser verificado com calma.
— Eu levo elas para casa — falei, e as palavras saíram antes de eu decidir. — Vou fazer o exame. Se não for elas, entrego na justiça no mesmo dia. Se for…
Parei. A investigadora me encarou.
— Se for, senhor Farias?
— Se for, o que eu faço não é problema da polícia.
A cabana não era grande. Um quarto, uma cozinha com fogão a lenha, um banheiro pequeno. O canil ficava num puxado atrás, onde três cães revezavam sono e espera. Eu morava ali havia onze anos, desde que deixei o quartel e fui para as buscas civis. Nunca tinha levado ninguém. Nunca.
Lisandra parou na entrada, a menina segurando a barra do casaco dela.
— Fica à vontade — falei, por dizer. — A cama do quarto dá para as duas. Eu durmo no sofá.
Ela acenou com a cabeça, num gesto pequeno. Clementina soltou a mão da mãe e andou até o Faísca, que farejou a barra do casaco dela com o rabo batendo no chão.
— Ele é o que acha gente? — perguntou.
— É — respondi. — Achou mais de trinta pessoas. Vivas e infelizmente mortas.
Ela se agachou e passou a mão na cabeça do cão com uma naturalidade que doeu. O mesmo jeito do Érico com os bichos. Ele criava um vira-lata no pátio da casa em Canoas. Chamava o cachorro de Radar.
Preparei café e botei pão na chapa. Lisandra comeu devagar, com uma fome contida, doendo. Clementina molhou o pão no leite e olhava tudo, os potes na prateleira, a corda pendurada atrás da porta, as capas de chuva no cabide.
Eu não consegui comer. Fiquei sentado, as mãos em volta da caneca, o café esfriando.
— Preciso saber — falei, olhando direto para ela. — Preciso saber o que houve na estrada naquela noite. Não a versão do laudo. A tua.
Lisandra ajeitou o cobertor no colo. Os dedos, compridos e magros, alisavam o tecido como se procurassem uma dobra errada.
— O Érico vinha dirigindo — começou. — Nós tínhamos brigado naquela noite. Coisa boba. Por causa do nome da menina. Ele queria o nome de flor, hortênsia, azaleia. Eu queria um nome forte, de avó. Clementina.
Ela deu um sorriso pequeno, torto, e os olhos umedeceram.
— A gente não viu o óleo na pista. A camionete rodou e bateu no barranco. Lembro de um barulho, só isso. Depois, nada. Acordei na beira da estrada, sem saber onde estava. Alguém gritava. Era o caminhoneiro. Ele me pôs na cabine e falou: "Fica calma, dona, fica calma". Depois desmaiou de medo quando eu perdi as forças. Acho que achou que eu morri ali. No caminho, me viu respirando e me deixou na casa da parteira. Foi a única coisa que fez de bom.
Ela fez uma pausa.
— Eu quebrei a coluna, a bacia, tive hemorragia. A parteira não tinha hospital por perto. Quando finalmente chamaram um médico de Novo Hamburgo, já era tarde para avisar a família. Pelo menos era o que pensavam. Era o que eu acreditava.
A caneca esfriou de vez. Do lado de fora, a chuva tinha parado e o sol abria uma fresta entre as nuvens.
— Tu não ligaste para ninguém? — perguntei, e minha voz saiu baixa demais.
— Eu tentei — disse ela, e a primeira lágrima desceu. — Um ano depois, quando a Clementina já engatinhava, eu arrumei uma carona até um telefone público. Liguei para o número antigo da casa do teu irmão. Atendeu uma voz que eu não conheci. Disse que a família tinha se mudado há tempos. Perguntei pelo teu telefone. Ninguém sabia. Tentei a casa da tua mãe. Já era outra família.
Engoli o choro de volta. Minha mãe morrera oito meses depois do enterro do Érico. Eu tinha trocado de número no ano seguinte, depois de perder o celular num resgate na mata.
— E depois? — insisti.
— Depois fiquei com vergonha. Medo. Achei que virar a Lisandra morta era mais fácil que a Lisandra viva. A parteira me acolhia. A menina tinha um teto. Eu trabalhava limpando casas em troca de comida. Aos poucos me acostumei a ser invisível.
Ela enxugou o rosto com a palma da mão. Não quis papel. A menina se levantou e foi até ela, passou os braços na cintura da mãe.
— Mamãe chora — disse Clementina. — Toda noite no ônibus.
Lisandra beijou o alto da cabeça da criança e, pela primeira vez, soltou um suspiro longo, daqueles que saem dos ossos.
Eu vi o que precisava ver.
Na terça-feira, levei as duas ao laboratório de análise clínicas na capital. O exame de DNA sairia em quinze dias úteis. Paguei do meu bolso, quatrocentos e oitenta reais, e não falei no assunto diante da menina. Ela comeu pastel na rodoviária e ficou encantada com o aquário na sala de espera.
Durante as duas semanas, Lisandra não pediu nada. Lavava a louça, varria a área, pendurava roupa. A menina ajudava a dar comida aos cães. Eu continuava saindo cedo para as buscas e voltava à noite. Entre nós, um silêncio carregado, mas não hostil.
Na noite em que o resultado chegou, o sol já tinha se posto fazia tempo. Sentei na cozinha, o envelope nas mãos. Lisandra me encarou do outro lado da mesa, as mãos no colo.
Abri o envelope.
Li.
Depois li de novo, devagar, para dar tempo ao meu corpo de entender.
Clementina Farias, 99,999% de probabilidade de vínculo com Raimundo Farias.
Não disse nada. Dobrei o papel e o enfiei na gaveta.
Levantei. Fui até a menina, que dormia no sofá, enrolada no cobertor que tinha trazido da delegacia. Faísca dormia aos pés dela, o focinho no tapete. Clareei a garganta, que estava doendo.
Na semana seguinte, fui ao cartório de Montenegro com Lisandra e a menina.
Requeria a retificação da certidão de óbito de Lisandra Farias. A anulação do atestado anterior, a atualização do registro civil, a inclusão do nome da menina na família. Tinha os papéis do laboratório, os laudos médicos de Dois Irmãos, as testemunhas da casa da parteira. E tinha o meu nome, que ainda era respeitado na região por causa do trabalho com buscas e resgates.
O funcionário me olhou algumas vezes, incrédulo. Chamou a supervisora. Depois a juíza corregedora do fórum, que despachou no mesmo dia. A papelada era volumosa, carimbos e mais carimbos. Mas o essencial estava lá: uma mulher que não devia existir, e que no entanto respirava, e uma menina que carregava o sangue do meu irmão.
Não houve festa. Não houve abraço.
Houve um alívio esquisito, morno, parecido com o cansaço de terminar uma busca longa demais.
Dois meses depois, Lisandra arrumou trabalho numa padaria em Montenegro, no turno da madrugada. Eu continuei nas buscas. Clementina começou o primeiro ano na escola da cidade, no turno da tarde. Levei a menina no primeiro dia. Ela apertou minha mão no portão e disse:
— Essa não é a primeira vez que o senhor vem me buscar. É, tio?
Meio mundo desabou dentro de mim. Eu só acenei com a cabeça, com Faísca deitado do meu lado, farejando o vento que subia da serra.
Naquela noite, fui ao cemitério.
Fiquei diante do túmulo do Érico. A lápide continuava lá, com o nome dele e as datas. Ao lado, a pedra com o nome da Lisandra agora era um erro, uma cicatriz.
Ajoelhei e passei os dedos pelo nome do meu irmão.
— Tu me mandou uma menina, Érico — falei. — Uma menina que fala do Tatu como se eu fosse o bendito anjo da guarda. Agora me diz o que eu faço com isso.
O vento mexeu nas folhas do ipê. Faísca deitou no chão, o fôlego quente.
Ninguém respondeu, é claro.
Mas eu fiquei ali até a lua subir, ouvindo o que o silêncio da serra sabia e eu não queria admitir.
A Clementina me chamou assim na saída da escola. Sozinhos, ninguém mais. O apelido que só o Érico conhecia, e que devia ter morrido com ele.
Éramos os dois, a menina e o peso do que a gente não pediu. A cidade pequena se agarra na memória dos mortos mais que na vida dos vivos, e eu sempre soube disso.
Mas quando a pequena deslizou a mão na minha e disse, sem pedir:
— Conta a história do papai e do Tatu no beliche.
Eu vi.
Que talvez o Érico não tinha morrido de vez.
Só de lugar.
