Eu casei com a Valéria porque amava, e amo até hoje. Ninguém me obrigou, ninguém me arrastou. E se o pessoal da rua acha que eu sou um monstro, tudo bem — cada um enxerga a novela pelo lado que lhe convém. Mas eu, Diego, mecânico em Curitiba, nunca levantei a voz pra minha sogra. Nunca bati a porta na cara dela. Só que existe uma coisa chamada cansaço. E depois de onze anos, o cansaço tem nome, data e endereço.
A dona Neusa sempre achou que eu era “perfeito demais”. Nos primeiros meses de casamento, eu mesmo acreditava nisso. Levava bolo de fubá na casa dela aos domingos, trocava resistência de chuveiro, pendurava quadro torto. A Valéria ria, dizia que a mãe tinha me adotado antes dela. E era verdade — eu não tive pai, minha mãe morreu quando eu tinha quatorze. Então ter uma sogra que me chamava de “meu genro preferido”… aquilo aquecia um lugar vazio que eu nem sabia que existia.
O problema é que a dona Neusa nunca soube largar a Valéria.
A Valéria tem uma dependência emocional da mãe que vem de berço. Quando a gente brigava por qualquer bobagem — horário, dinheiro, tempero de comida —, ela ligava pra mãe antes de falar comigo. E a dona Neusa atendia em dois toques, não importava a hora. Eu ouvia do quarto: “respira, filha, conta pra mãe o que ele fez”. E eu ficava deitado olhando pro teto, com a garganta apertada, pensando no que eu tinha virado naquela casa.
Uns cinco anos atrás, a avó da Valéria — a mãe da dona Neusa — começou a perder as forças. Setenta e nove anos, pressão alta, diabetes. A dona Neusa decidiu trazer a velha pra morar com ela no apartamento de três quartos, aquele que o ex-marido deixou quando foi embora, um ano depois do nascimento da Valéria. Até aí, escolha dela, vida dela. Só que a dona Neusa não sabia dirigir. E o bairro dela, lá no Boqueirão, é longe do centro, longe de tudo: o posto de saúde fica a quarenta minutos de ônibus, e dona Célia — a avó — precisava de consulta quase toda semana.
Adivinha quem tinha carro? Eu.
Eu ia lá em plena terça-feira, atravessava a cidade na chuva, encarava fila de UPA, segurava a velha pelo braço porque ela não enxergava mais direito. Saía do trabalho no meio do turno, engolia desculpa pro patrão. E quando chegava em casa, a Valéria me olhava com uma gratidão esquisita, como se eu fosse um santo. Mas eu não era santo. Eu era alguém que estava se desmanchando em favores, um atrás do outro, e que começava a perceber uma coisa: quanto mais eu fazia, mais a dona Neusa esperava.
Ela nunca pediu pra cuidar da mãe, é verdade. Mas também nunca organizou nada. Nunca contratou uma cuidadora. Nunca aprendeu a usar aplicativo de transporte. Eu virava a muleta. E quando eu falava em dividir as despesas, ela arregalava os olhos como se eu tivesse cuspido no chão.
“Pronto, agora a família é negócio, Diego. Tá virando homem de caderninho.”
A família nunca foi negócio pra mim. O que doía era que, pra dona Neusa, a família era só ela, a mãe e a filha. Eu entrava naquela história como motorista, como marido da filha, como estepe. E estepe a gente só lembra quando o pneu fura.
Dona Célia morreu em março, numa terça-feira de manhã. Quem avisou o hospital fui eu, porque a dona Neusa estava no banho. Quem reconheceu o corpo fui eu. Quem pagou a funerária — a vista, três mil e duzentos reais, que eu anotei no caderninho — fui eu. Na sala velada, a Valéria soluçava no meu pescoço, e a dona Neusa andava de um lado pro outro, cumprimentando os vizinhos, com as mãos trêmulas.
Uma semana depois do enterro, ela me chamou pra conversar. A Valéria estava na cozinha, fazendo café. Eu sentei no sofá da sala. A dona Neusa pegou um envelope amarelo e foi direto:
— A casa da minha mãe, lá em Campo Largo, agora é minha. Mas a Valéria é a única herdeira depois de mim. Quero que vocês assumam isso junto comigo. Você é o homem da família, não é? Então quero que cuide da papelada, do imposto, da reforma. Pra Valéria não se preocupar.
Aquilo me pegou desprevenido. Ela nunca tinha me chamado de “homem da família” em onze anos de convivência. Eu respirei fundo. Pensei na conta de luz que tinha vencido. Pensei na oficina, que estava parada por causa dos meus sumiços. E respondi o que ninguém esperava:
— Não, dona Neusa. A senhora cuida. A casa é sua. A papelada é sua. E o caixão da sua mãe ficou três mil e duzentos. Isso aí eu não cobro. Só não me peça pra carregar mais caixão.
Ela ficou com a boca aberta. A Valéria largou a bandeja do café em cima da estante com um estrondo. Eu levantei, peguei a chave do carro e fui dormir na oficina.
No dia seguinte, o telefone não parava. Mas eu não atendi. Eu sabia que ia vir “Você não sabe com quem está falando” e “Depois de tudo que eu fiz por vocês”. Só que eu não queria briga. Eu queria um acerto de contas que ela nunca aceitou fazer.
Uma noite dessas, fui lá no apartamento buscar minhas ferramentas. A porta estava entreaberta. A dona Neusa falava com a filha:
— Eu dei minha vida pra você, Valéria. Ele não quer nada. Homem assim não quer nada. Você vai acabar sozinha, cuidando de velha doente, sem ninguém pra trocar uma lâmpada.
Eu fiquei parado no corredor. O cheiro de mofo do prédio subia pela escada junto com o som da TV do vizinho. A Valéria respondeu tão baixo que eu precisei segurar a respiração:
— Mãe, foi o Diego que pagou o enterro da vó.
A dona Neusa riu, aquele riso seco de quem não aceita perder razão:
— E daí? Ele ia deixar a velha na geladeira?
Nessa hora eu empurrei a porta. As duas viraram. A dona Neusa segurava uma xícara de chá com as duas mãos. Eu olhei pra Valéria. Ela estava com os olhos inchados. E eu entendi que a história de nós três tinha chegado num beco.
Peguei minhas ferramentas. Quando passei pela estante, deixei em cima da mesa um caderno de capa preta.
— Anota aí, dona Neusa. Três mil e duzentos do funeral. Mais seiscentos da medicação de janeiro. A senhora sempre esquecia de me pagar, então eu anotava. Tá tudo aí. A senhora decide o que faz.
E fui embora. No estacionamento, sentei no carro e fiquei uns dez minutos com a testa encostada no volante. Um vira-lata deitou do lado do meu pneu e ficou me olhando. O relógio marcava vinte e três e quarenta.
Quinze dias depois, eu estava na oficina, sujo de graxa, montando o cabeçote de um Gol. O celular tocou. Era a Valéria.
— Ela quer falar com você. Vem aqui.
— Agora não dá.
— Diego, ela marcou no cartório. Vai doar a casa da vó pra gente.
Fiquei calado. A válvula que eu segurava escorregou da mão e bateu no chão, fazendo um barulho seco.
— Eu não quero casa, Valéria. Eu quero que a tua mãe me trate como gente. Isso ela não registra em cartório.
Ela desligou. Naquela noite, quando cheguei em casa, encontrei a Valéria sentada na cama, com o caderno preto aberto no colo.
— Mãe chorou hoje, Diego.
Sentei ao lado dela. O abajur piscou duas vezes. A casa tinha aquele cheiro de tempero velho que só existe quando as mulheres passam o dia cozinhando sem fome.
— E você, Valéria? Chorou também?
Ela fechou o caderno. Pegou minha mão encardida de graxa e apertou contra o rosto. Eu senti a pele quente, molhada. Ficamos assim, sem acender a luz do quarto.
A dona Neusa doou a casa pra Valéria. Não me incluiu na escritura. Tudo bem. Eu nunca quis a casa, eu queria sair do papel de “genro perfeito” que ela tinha inventado. Agora, a Valéria vai alugar a casa e usar o dinheiro pra cuidar das próprias contas — e, diz ela, pra me pagar, com juros, cada centavo que eu gastei com a família dela. Anotou tudo no caderno preto, na última página, com letra miúda.
A dona Neusa ficou sozinha no apartamento de três quartos. A Valéria ainda visita, mas não dorme mais lá. E aos domingos, quando a gente passa no Boqueirão, eu fico esperando dentro do carro, enquanto o vira-lata do estacionamento vem correndo, abana o rabo e deita na frente do portão, como se já conhecesse meu itinerário.
Ontem, a Valéria voltou do plantão com um bolo de fubá. Ela não disse nada, só deixou em cima da mesa da cozinha. Eu olhei pro bolo, pro caderno preto encostado na fruteira, e me lembrei da primeira vez que levei um igual pra dona Neusa, onze anos atrás, no domingo em que pedi a Valéria em casamento. Dona Neusa tinha dito naquela época: “Genro que traz bolo de fubá não é genro, é benção”.
Hoje, Velha, a benção sou eu que carrego na caixa de ferramentas. E o caderno preto, que a senhora nunca vai aceitar, é minha única pauta de cobrança.
