A cadela que esperou no cais

O homem estava sentado no cais havia quase três horas, e ninguém se aproximava.

Ao lado da bota dele, deitada no chão frio, estava uma cadela ruiva. Magra, com o pelo aos tufos e as costelas à mostra. Trazia uma coleira azul, velha e desbotada.

Teresa viu-os do pequeno quiosque da estação de Aveiro. Conhecia a cadela. Chamavam-lhe Faísca. Vivia ali há mais de um ano, dormindo debaixo do banco junto à saída e comendo apenas quando Teresa deixava a caixa com comida e se afastava.

O homem era desconhecido.

Tinha mais de cinquenta anos, casaco gasto e mãos rachadas. Abotoava e desabotoava constantemente um botão metálico no bolso. Clique. Clique. A cadela estremecia, mas não fugia.

Teresa levou-lhe água.

— Ela é daqui — disse. — Eu alimento-a.

O homem levantou os olhos.

— Eu sei.

— Sabe?

— É minha.

A resposta ficou no ar.

Faísca continuava a olhar para os carris, como sempre. Teresa pensara que era hábito. Agora percebeu que talvez fosse espera.

Pouco depois chegou Marta, voluntária de uma associação animal. Baixou-se, virou a medalha da coleira e iluminou-a com o telemóvel.

„Faísca“. E um número.

Marta ligou.

O telefone tocou no bolso do homem.

Teresa sentiu a raiva subir.

— Catorze meses. Ela esteve aqui catorze meses.

Ele cobriu o rosto com as mãos.

— Mudámo-nos. A minha mulher disse que no apartamento novo não podia haver cão. Eu pensei que voltava. Na semana seguinte. Depois no mês seguinte. Depois tive vergonha. E transformei a vergonha em desculpa.

— Ela transformou abandono em sobrevivência — disse Marta.

O homem não respondeu.

Tirou do bolso uma pequena bola vermelha, gasta e rasgada pelos dentes. Colocou-a no chão.

Faísca virou a cabeça.

Cheirou o ar. A cauda mexeu-se quase nada. Levantou-se devagar, aproximou-se da bola e tocou-lhe com a pata.

O homem pôs a mão aberta sobre o joelho.

— Se não vieres comigo, eu volto amanhã — disse. — E depois de amanhã.

Faísca cheirou-lhe a mão. Sentou-se ao lado dele, perto o suficiente para lhe tocar na perna.

Marta impôs condições: veterinário, acordo, acompanhamento, visitas diárias. Ele aceitou tudo.

E voltou.

Todos os dias. Primeiro ficou sentado enquanto ela observava. Depois ela comeu perto dele. Depois aceitou a trela. Só ao fim de várias semanas entrou no carro.

Teresa viu-a partir com a velha bola entre as patas.

Meses depois, o homem trouxe uma fotografia. Faísca dormia numa manta, de coleira nova, mais cheia.

— Não sei se ela me perdoou.

Teresa olhou para a imagem.

— Então não desperdice a oportunidade de ser digno dela agora.

Há culpas que não se apagam.

Mas às vezes podem transformar-se em presença, cuidado e na promessa silenciosa de nunca mais deixar alguém à espera no frio.

 

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Odissea
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