Uma vida inteiramente nova em Ribeirão Preto

Eu me chamo Diego, tenho trinta e quatro anos e trabalho como engenheiro na concessionária de energia daqui de Ribeirão Preto. Vou contar como conheci minha esposa, porque sei que muita gente por aí acha que eu fiz alguma sujeira. Não fiz. Só estava no lugar certo, numa hora que não devia ser certa pra ninguém.

Conheci a Fernanda numa pousada em Ilhabela, em janeiro, quando o calor ainda não tinha dado trégua nem à noite. Eu tinha acabado de terminar um namoro de quatro anos — a Camila foi embora pro Rio com um emprego novo e eu fiquei sem estômago pra brigar por aquilo — e resolvi ir pra praia sozinho, só pra não ficar remoendo em casa. Levei um livro que nunca abri e um violão que também não toquei. Fiquei mais era sentado no bar da pousada tomando cerveja Original gelada e ouvindo o barulho do gerador que ligava toda noite porque a energia ali caía direto.

Reparei nela no segundo dia. Magra, morena, sempre com uma mulher mais velha do lado, as duas comendo em silêncio, olhando o prato mais do que olhando uma pra outra. A mulher mais velha usava um colar de contas pretas que eu depois soube que era do filho dela. Fernanda tinha vinte e dois anos, mas parecia carregar coisa de quarenta nas costas. Não ri à toa: reparei que ela nunca terminava o suco, sempre deixava um dedo no fundo do copo.

No terceiro dia ela saiu sozinha de madrugada, foi até a areia molhada olhar o mar. Eu tava lá fora fumando — vício que eu tinha largado e voltei a pegar naquele período. Falei besteira, coisa tipo "bonita e triste ao mesmo tempo, essa combinação". Ela quase me mandou embora com o olhar, mas não mandou. Trocamos duas frases e ela sumiu de novo.

No dia seguinte esbarrei com ela na saída do mercadinho perto da pousada, ela comprando água de coco em caixinha pra dona Sueli — foi assim que fiquei sabendo o nome da mulher mais velha. Chamei pra tomar um café ali mesmo, numa mesinha de plástico na calçada.

Foi aí que ela contou. O nome dele era Rodrigo, filho da dona Sueli, noivo dela desde os dezenove anos. Tinha ido trabalhar numa obra de linha de transmissão lá pro interior de Goiás pra juntar dinheiro pro casamento — pagavam bem, mas era serviço de risco. Levou um choque de descarga em cima do poste. Morreu na hora, segundo falaram pra família. Fazia oito meses.

— E por que ela ainda te segura tanto assim? — perguntei, meio sem pensar. — Normalmente é o contrário, a família do falecido se afasta com o tempo.

Ela deu de ombros, mexendo o resto de espuma no fundo do copinho de café. Trocamos telefone antes dela voltar pro apartamento que tinham alugado ali perto da praia.

Descobri depois, muito depois, que dona Sueli não sabia de mim naquela viagem. Fernanda me contou que na volta a sogra — que já não era mais sogra de fato, só continuava sendo chamada assim — perguntou se ela tava grávida. Fernanda disse que não. E a mulher, sem cerimônia nenhuma, sugeriu que ela ficasse com o cunhado mais novo, o Maurício, que tinha dezenove anos. "Assim a família não se perde", foi a frase que ela usou. Fernanda chorou pela primeira vez desde o enterro, trancada no banheiro daquele apartamento, com a sogra batendo na porta perguntando se ela tava passando mal.

Eu não sabia de nada disso na hora. Só sabia que ela tinha voltado pra Ribeirão Preto — coincidência boa, ela também morava aqui — e que a gente ficou se falando toda semana. Marcávamos café na Praça XV, ela sempre chegando um pouco atrasada porque ainda ia com dona Sueli no cemitério do Jardim da Saudade nos domingos.

Fui percebendo, aos poucos, que aquilo não era luto. Era outra coisa. A mulher tinha perdido o filho e queria, sem admitir pra ela mesma, continuar tendo uma nora, uma neta futura, uma casa cheia. Fernanda era o último fio que prendia ela àquela vida que ela imaginava pro Rodrigo.

Um domingo de agosto, sete meses depois de Ilhabela, encontrei a Fernanda sentada na calçada em frente ao prédio da sogra, no bairro Jardim Botânico, esperando eu chegar de carro. Ela tinha ido devolver a chave do apartamento que o Rodrigo tinha comprado com entrada e financiamento pela Caixa, três anos antes de morrer — o apartamento ainda estava em nome dele, e dona Sueli vinha insistindo que Fernanda continuasse morando lá, pagando as parcelas, "porque era o que o Rodrigo ia querer".

Fernanda não quis mais. Não brigou, não gritou. Só entrou, catou as roupas que ainda tinha lá, e deixou em cima da mesa da cozinha um envelope com a chave, a cópia do contrato de financiamento e um bilhete dizendo que a partir daquele mês ela não pagaria mais as parcelas, que dona Sueli podia assumir o imóvel ou vendê-lo, mas que ela — Fernanda — ia procurar um advogado pra formalizar que abria mão de qualquer direito sobre aquele bem, porque não queria dele nada além da lembrança. Trinta e um mil reais era o saldo devedor que ela deixou de carregar sozinha.

Eu tava esperando ela no carro, motor ligado, quando dona Sueli desceu correndo atrás dela, ainda de chinelo, gritando o nome da Fernanda na calçada, perguntando quem era aquele homem no carro. Fernanda não voltou. Entrou, fechou a porta, e só disse pra mim: "pode ir".

A gente casou um ano e três meses depois disso, num salão simples no bairro Campos Elíseos, com pouco mais de quarenta convidados. Hoje temos um filho, o Théo, de dois anos. Fernanda ainda manda flores pro Jardim da Saudade duas vezes por ano — no aniversário de morte do Rodrigo e no dia dele. Sozinha, sem mim, sem dona Sueli. Isso ela nunca deixou de fazer, e eu nunca pedi pra ela parar.

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Odissea
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