Um gato que sumiu de Piracicaba e voltou 431 dias depois ao som de um assobio

Meu nome é Ricardo Guimarães, tenho 58 anos e moro num sítio na saída de Piracicaba, interior de São Paulo, com minha esposa, Sônia. Durante quase onze anos, um gato ruivo chamado Café foi mais que um bicho de estimação dentro daquela casa. Ele tinha uma mancha branca em formato de meia-lua no peito e uma orelha meio dobrada de nascença, sequela de algum parto difícil que nunca chegamos a saber direito. O lugar dele era em cima do freezer da área de serviço, de onde enxergava o portão. E toda tarde, quando eu voltava da oficina de motos que tenho desde 2003, dava três assobios — dois curtos, um comprido — e ele descia correndo, quase derrubando as vasilhas de ração no caminho.

Numa sexta-feira de julho, um mês antes da Festa do Divino da cidade, ele sumiu.

Eu tinha passado a tarde tirando peças velhas do galpão pra doar pro ferro-velho, com o portão de trás aberto o tempo todo. À noite, Sônia perguntou onde estava o Café. Assobiei. Nada. Sacudi o potinho de petisco que ele adorava. Nada. Viramos a casa, o quintal, o barranco atrás do galinheiro. Nada.

Pela meia-noite já estávamos com lanterna procurando entre os pés de mexerica. De manhã, imprimimos cartaz com a foto dele colado na moldura da mancha do peito, espalhamos em poste de rua, deixamos recado na clínica veterinária da avenida e no grupo de WhatsApp do bairro. E aí começaram os avisos.

"Acho que vi seu gato perto do posto de gasolina." Corri até lá — não era ele. "Tem um ruivo dormindo embaixo da minha varanda." Não era ele. Um vizinho mandou foto de um gato tão parecido que Sônia já estava chorando antes de eu terminar de calçar o chinelo. Não era ele.

Isso foi o mais difícil: nunca teve um ponto final. Só perguntas. Será que ele estava com fome, com frio, escondido em algum bueiro, adotado por alguém do outro lado da cidade? Cada gato ruivo virava uma esperança. E cada um errado doía de novo.

Os meses foram passando. Os cartazes no muro descoloriram com a chuva. As pessoas pararam de perguntar. A casa continuou funcionando — só que nunca mais pareceu inteira. Principalmente aquele canto em cima do freezer, que a gente evitava até de olhar. Nunca combinamos isso; simplesmente aconteceu.

No aniversário de um ano do sumiço, Sônia enfim lavou e guardou a vasilha de água que ficava perto da porta dos fundos. Ficou parada na pia por um tempo, secando as mãos num pano já surrado, e disse baixinho: "Acho que a gente precisa aceitar." Eu balancei a cabeça. Mas por dentro não conseguia — aceitar seria admitir que nunca mais ouviria aquelas patinhas correndo pelo piso frio da cozinha.

Sessenta e seis dias depois, num sábado de manhã, tudo mudou.

Eu tinha saído de bicicleta pra tomar café da manhã na padaria do outro bairro, num daqueles dias secos de agosto em que o vento levanta poeira da terra vermelha da estrada. Não estava procurando gato nenhum, jurava pra mim mesmo isso. Andei uns dez quilômetros até um trecho mais antigo perto da linha do trem. Aí vi um vulto ruivo embaixo de uma caminhonete estacionada.

Quase segui pedalando — em 431 dias já tinha visto gato ruivo demais, e cada vez que o coração disparava, terminava em decepção. Mas alguma coisa me fez parar a bicicleta na sarjeta.

O bicho saiu devagar da sombra. Magro de doer, pelo embolado, o olhar cansado de quem vive na rua há tempo. Fiquei olhando. Ele levantou a cabeça, e ali estava: a mancha branca em meia-lua, meio suja, mas inconfundível.

Desci da bicicleta com as mãos tremendo. Agachei na calçada. Quis gritar o nome dele, mas travei — e se fosse engano de novo? Então fiz os três assobios de sempre.

O gato congelou. As orelhas — uma torta, a outra em pé — se ergueram na hora. Assobiei de novo. Ele soltou um miado rouco, quase sem voz, e veio correndo na minha direção, atravessando a rua sem olhar pro lado.

Peguei ele no colo antes mesmo de conseguir levantar direito. Ele enfiou o focinho debaixo do meu queixo e ronronou tão alto que dava pra sentir vibrando no peito. Sentei na guia da calçada, com o gato agarrado na camisa, e chorei feito criança — pelos 431 dias sem saber, pelas pistas falsas, pelo canto vazio em cima do freezer, por toda vez que Sônia e eu deitávamos perguntando se ele estava sozinho em algum lugar frio.

Liguei pra Sônia direto do celular, quase sem conseguir falar direito. "Vem aqui, rápido." Quando ela chegou de carro, dez minutos depois, eu estava sentado na grama com o bicho enrolado dentro da minha jaqueta. Ela parou, olhou, e a mão foi na boca. "Ricardo?" O gato encarou ela por um segundo — e correu na direção dela. Sônia caiu de joelhos na terra, sem se importar com a calça, e sussurrou o nome que a gente tinha evitado dizer havia mais de um ano.

A veterinária da clínica da avenida constatou desnutrição e cansaço extremo, mas nada que comida, repouso e tempo não resolvessem. Nunca descobrimos onde ele ficou naqueles catorze meses — talvez alguém tenha dado comida de vez em quando, talvez ele dormisse embaixo de varandas, talvez tenha se virado sozinho, dia após dia. Deixei de precisar saber. Ele estava em casa. Só isso importava.

Naquela primeira noite, coloquei um cobertor macio no chão da sala, achando que ele fosse se esconder assustado. Ele ignorou. Andou devagar pela casa, cheirou a vasilha de ração antiga, farejou o sofá, deu uma volta pela cozinha — e pulou em cima do freezer. Girou duas vezes no mesmo lugar e se enrolou ali, exatamente onde ficava antes.

Sônia me olhou com os olhos molhados. "Ele lembra." Eu só confirmei: "Lembra."

Semana passada assinei a papelada de doação de uma parte do ferro-velho que ainda tinha lá parado, um estoque de motor e peças avaliado em quase sete mil reais, guardado havia anos "pra um dia precisar" — o mesmo dia que nunca chegava, o mesmo canto de galpão que eu evitava mexer desde que o Café sumiu, como se aquilo tudo também estivesse esperando alguma coisa voltar. Entreguei pra um rapaz que está montando a primeira oficina dele no bairro Santa Terezinha, sem cobrar nada, só pedindo que ele guardasse a chave do galpão comigo depois, pra eu não precisar mais entrar lá sozinho procurando o que já não fazia falta guardar.

Café dorme em cima do freezer até hoje, do jeito que sempre dormiu, na mesma posição, de olho no portão.

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