A filha que ficou por encontrar

 

Quando a mãe começou a morrer, Manuel passou a dormir numa cadeira ao lado da cama dela.

A casa antiga, numa aldeia perto de Viseu, ficara cheia de silêncios. Dona Emília estava deitada junto à janela, com os olhos postos na figueira do quintal. Às vezes parecia dormir. Outras vezes acordava assustada, como se procurasse alguém no quarto.

Manuel tinha cinquenta e seis anos. Era um homem calado, habituado a trabalhar com as mãos. Mas nada nas suas mãos podia reparar aquilo.

A enfermeira disse-lhe:

— São dias, talvez menos. Se ela quer ficar em casa, fique com ela.

Na última tarde, Emília chamou-o.

— Filho, aproxima-te.

— Estou aqui, mãe.

— Tens uma irmã.

Manuel pensou que a febre lhe tinha levado o juízo.

— Uma irmã?

Emília começou a contar. Quarenta anos antes, depois da morte do marido numa obra, ficara sozinha com Manuel, então com dezasseis anos, e uma bebé de um ano chamada Ana. Manuel estava em formação no Porto e quase não vinha a casa. Ela não tinha dinheiro, leite, ajuda.

— Levei-a para uma instituição em Coimbra — disse. — Disse a mim mesma que era por pouco tempo. Que a ia buscar quando arranjasse trabalho. Depois tive vergonha. Depois medo. Depois já tinham mudado o nome dela.

— Porque nunca me disseste?

— Porque cada ano de silêncio fez de mim mais cobarde.

Agarrou-lhe a mão.

— Procura-a. Não por mim. Eu já não mereço nada. Procura-a para que ela saiba que não veio do nada.

Manuel prometeu.

Emília morreu antes da noite cair.

No funeral, todos diziam que ela fora uma mulher de coragem. Manuel escutava e sentia a palavra coragem bater contra uma verdade escondida.

Depois, numa caixa de lata guardada no roupeiro, encontrou um papel antigo da instituição. Nome: Ana. Data. Número de processo.

A busca levou-o a arquivos, conservatórias, assistentes sociais, portas fechadas. Ao fim de meses, uma antiga funcionária recordou-se.

— Foi adotada por um casal de Aveiro. Chamaram-lhe Teresa.

Teresa Martins era professora primária.

Manuel escreveu-lhe uma carta. Não tentou enfeitar nada. Disse apenas que talvez fosse seu irmão, que a mãe tinha morrido e que a última vontade dela fora encontrá-la.

Teresa respondeu por telefone.

— E eu sou obrigada a querer saber?

— Não, disse Manuel. Mas eu era obrigado a procurar.

Encontraram-se num café perto da estação. Teresa tinha quarenta e um anos, olhos escuros e uma postura firme.

— Tive bons pais — disse ela. — Mas isso não apaga a pergunta: porque é que a outra não voltou?

Manuel baixou a cabeça.

— Porque foi fraca.

— Pelo menos não a defendes.

— Não posso.

Ele entregou-lhe uma fotografia antiga. Emília jovem, com uma bebé ao colo. No verso: „Ana, verão.”

Teresa tocou na imagem com cuidado.

— Ela guardou isto?

— Até morrer.

— Guardar não é voltar.

— Eu sei.

Só no mês seguinte Teresa aceitou ir ao cemitério. Ficou diante da campa, muito quieta. Depois deixou uma flor.

— Não sei se perdoo — disse. — Mas quero parar de imaginar rostos no vazio.

Manuel não respondeu. Apenas ficou ao lado dela.

A relação deles cresceu devagar. Telefonemas curtos. Um almoço. Uma ida à velha casa. Teresa entrou na cozinha e olhou em redor.

— Então este era o lugar onde eu faltava.

Manuel abriu a janela.

— Agora pode ser o lugar onde entras quando quiseres.

Nem todas as histórias acabam com perdão.

Algumas acabam com uma porta aberta e duas pessoas a aprenderem que ainda podem escolher não ser estranhas.

 

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Odissea
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