Eu tinha enterrado o meu marido há nove dias quando o meu filho deixou três gaiolas ao lado da fotografia dele e disse:
— Mãe, ficas com os animais.
Não perguntou. Não me abraçou. Nem sequer olhou para a vela que ainda ardia junto ao retrato do meu António.
A minha nora, Raquel, entrou atrás dele com pressa. Uma gaiola com dois periquitos, uma caixa com um coelho branco e uma transportadora com um gato assustado. Pousou o saco da comida na poltrona onde António se sentava quando já mal conseguia respirar.
— As instruções estão no saco. Vamos amanhã para a Madeira.
— Enterrei o meu marido há nove dias — murmurei.
Raquel encolheu os ombros.
— Todos temos problemas, Dona Teresa.
O meu filho, Miguel, nem tirou os olhos do telemóvel.
— Vais estar sozinha. Assim tens companhia.
Naquele momento não chorei. Já tinha chorado tudo. O que senti foi uma calma estranha, como se alguém dentro de mim dissesse: basta.
Durante quarenta anos fui a solução de todos. Mãe, avó, cozinheira, enfermeira, banco de emergência. Quando Miguel ficou desempregado, pagámos-lhe a renda. Quando Raquel teve o bebé, dormi dois meses no sofá deles. Quando António adoeceu, vendi as pulseiras da minha mãe para comprar medicamentos.
No funeral, Miguel aproximou-se e perguntou:
— Mãe, já pensaste no que vais fazer com a casa?
A terra do cemitério ainda estava nos meus sapatos.
Por isso sorri quando deixaram as gaiolas.
— Está bem. Deixem.
Eles não sabiam que António e eu já tínhamos assinado os documentos. Nas últimas semanas, ele pediu-me:
— Teresa, promete-me que não ficas aqui à espera que te usem até não sobrares.
Prometi.
A casa de Coimbra seria vendida através do advogado. Parte do dinheiro pagaria dívidas do tratamento. Parte iria para a associação que ajudou António no fim. O resto ficaria para mim: uma pequena casa mais prática e uma viagem longa, a viagem que nunca fizemos juntos.
Às quatro da manhã, a minha vizinha Lurdes chegou com o sobrinho, que trabalhava numa associação de animais. Os periquitos, o coelho e o gato foram bem entregues e pagos.
Na mesa deixei as chaves e um bilhete:
„Miguel, quando encontrares isto, não me ligues a reclamar. Liga ao teu advogado.”
Às cinco e meia eu seguia de táxi para o porto. Levava uma mala azul, o passaporte, três vestidos e o perfume que António me oferecera antes da doença.
O telefone começou a tocar quando o navio se afastou.
Miguel. Raquel. Miguel.
Depois, uma mensagem:
„Mãe, há aqui um homem com documentos. Diz que a casa não é nossa.”
Respondi só ao fim do dia.
— Nunca foi vossa. Era minha e do teu pai. Agora é a minha oportunidade de continuar.
— Abandonaste-nos!
— Não. Vocês abandonaram-me quando trouxeram gaiolas para junto da fotografia do teu pai.
Ele disse que António teria vergonha.
— O teu pai assinou primeiro.
Depois disso, silêncio.
Voltei um ano depois. Mais velha, sim. Mas não mais pequena. Miguel e Raquel tinham arrendado casa. Trabalhavam. Aprenderam tarde, mas aprenderam, que uma mãe não é um seguro contra a vida adulta.
No túmulo de António deixei uma concha apanhada em Creta.
— Fui viver — disse. — Por nós dois.
Às vezes, uma viúva não foge da família.
Apenas deixa de ser o lugar onde todos deixam as suas gaiolas.
