A música que lhe devolveu o nome

Sofia leu a mensagem no grupo do trabalho e sorriu.

„Sábado, 18h, Café Hortelã. Bolo, música, karaoke. Sem desculpas!”

Tinha trinta e um anos, dois filhos, um divórcio e uma rotina que a deixava mais velha do que o bilhete de identidade dizia. A filha, Inês, queria tranças de princesa. O pequeno Tomás escondia sapatos nos momentos mais urgentes. O ex-marido, Miguel, aparecia aos fins de semana como se fazer o mínimo fosse favor.

— Vais, sim? — insistiu a colega Rita. — E não digas „os miúdos”. Tu também existes.

Sofia foi. Quase desistiu, porque Miguel se atrasou duas horas e a mãe dela resmungou ao ficar com as crianças. Mas foi.

No café havia música, gargalhadas e copos a brindar. Um cantor chamado Tiago começou uma canção antiga, daquelas que Sofia ouvia na universidade, antes de aprender que promessas também se cansam.

Ela chorou.

No dia seguinte, Tiago escreveu-lhe.

„Café? Só porque ontem ouviu a canção como se fosse sua.”

As primeiras semanas foram doces. Tiago esperava-a à saída do trabalho, trazia flores, lembrava-se dos nomes das crianças. Dizia:

— Os teus filhos não são peso. São parte de ti.

Sofia quis acreditar.

A mãe avisou:

— Cuidado. Depois de um divórcio, qualquer homem gentil parece milagre.

Sofia não quis ouvir.

Numa noite, decidiu surpreender Tiago no café. Ele devia estar a cantar.

Não estava.

Estava junto ao balcão com uma mulher elegante, a rir. Pegou-lhe na mão. Entraram juntos pela porta de serviço.

Sofia saiu sem perguntar.

À porta do prédio estava Miguel. Cansado, irritado, com olheiras.

— Onde estiveste?

— Isso já não é contigo.

— É comigo quando os miúdos perguntam se a mãe também vai embora.

Sofia encarou-o.

— Tu foste embora muitas vezes antes de sair de casa.

Miguel engoliu em seco.

— Hoje percebi que não sei adormecer o Tomás. Não sei que história a Inês gosta. Fui pai por calendário.

Ela não respondeu. Subiu. As crianças dormiam. Inês segurava o casaco dela. Tomás tinha um sapato na cama. Sofia chorou sentada no corredor. Não por Tiago. Pela vontade enorme de ser amada que a fazia confundir atenção com abrigo.

De manhã, Tiago explicou. A mulher era dona do café. Falavam de contrato. Talvez fosse verdade.

Sofia encontrou-se com ele.

— Eu gosto de ti. Mas não posso usar-te como fuga.

— E o que queres?

— Voltar para mim antes de ir para alguém.

Miguel começou a assumir mais. Aos poucos. Com erros. Mas presente. Sofia inscreveu-se numa aula de dança. Primeiro foi estranho. Depois libertador.

Porque ela não precisava de uma música para existir.

Só precisava voltar a ouvir-se.

 

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Odissea
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