A mesa junto à janela

Quinze dias depois do divórcio, Rosa recebeu uma reserva feita em seu nome numa pequena pensão de Coimbra.

Uma noite, quarto individual, pequeno-almoço incluído.

No campo das observações estava escrito:

“Falar com o senhor Augusto antes de ir embora.”

Augusto era o antigo sogro.

Rosa quase cancelou. Durante vinte e um anos de casamento, ele nunca se metera nas decisões do filho. Quando Nuno a deixou por uma colega da empresa de seguros, Augusto limitou-se a dizer:

— Lamento que tenha acabado assim.

Rosa tinha cinquenta e oito anos e trabalhava numa lavandaria hospitalar. O apartamento onde vivia pertencia à família de Nuno. Depois da separação, mudou-se para o sofá da filha mais velha, onde dormia ao lado de caixas de brinquedos dos netos.

Foi à pensão porque precisava de uma noite sem ouvir ninguém perguntar quando encontraria casa.

Augusto esperava na sala de pequeno-almoço, sentado junto à janela. Sobre a mesa havia um dossier.

— Esta pensão era da minha irmã — explicou. — Ela vai reformar-se e quer arrendá-la.

Rosa folheou os papéis sem perceber.

— E o que tenho eu a ver com isso?

Durante anos, Rosa organizara excursões para o grupo recreativo da freguesia. Reservava autocarros, quartos, refeições e visitas. Fazia tudo de graça porque Nuno dizia que aquilo não passava de um passatempo.

A irmã de Augusto participara em duas dessas viagens e lembrava-se da forma como Rosa resolvia problemas.

— Precisamos de alguém para gerir a casa — disse Augusto. — Não para comprar. Para trabalhar.

Rosa riu-se.

— Nunca geri uma pensão.

— Já geriu quarenta pessoas num autocarro avariado em Salamanca.

Ela lembrava-se bem. Nuno passara a viagem inteira a reclamar, enquanto Rosa encontrou outro transporte, negociou quartos e ainda conseguiu servir o jantar a tempo.

Augusto oferecia salário, alojamento num pequeno quarto e contrato formal. Nada ficaria dependente da boa vontade da família.

Rosa desconfiou.

— Por que não fez isto antes?

Augusto demorou a responder.

— Porque o meu filho dizia que a senhora não queria responsabilidades.

Rosa fechou o dossier.

Nuno sempre apresentara as escolhas dela como limitações pessoais. Dizia aos outros que Rosa preferia trabalhos simples, que não gostava de estudar e que ficava nervosa com mudanças.

Na verdade, sempre que aparecia uma oportunidade, ele lembrava-lhe quem cuidaria da casa, da mãe dele e dos filhos.

— E acreditou?

— Era mais cómodo acreditar.

Rosa levantou-se.

— Então esta noite é para aliviar a sua consciência?

— Talvez em parte. Mas o trabalho existe mesmo.

Ela passou a noite acordada. De manhã observou a funcionária preparar o pequeno-almoço, receber hóspedes e atender um fornecedor. Não parecia fácil. Parecia real.

Aceitou um período experimental de três meses.

No início cometeu erros. Esqueceu uma fatura, confundiu duas reservas e demorou a aprender o sistema informático. Mas sabia falar com pessoas. Sabia reconhecer quando um hóspede queria conversa e quando precisava apenas de silêncio.

Nuno apareceu no fim do verão.

— O meu pai está a tentar compensar-te.

— Ele paga-me por um trabalho.

— Sempre disseste que estavas cansada.

— Estava cansada de viver a tua vida.

Nuno olhou para o quarto pequeno onde ela morava.

— Trocaste um apartamento por isto?

Rosa abriu a porta da sala. As mesas estavam postas, a luz entrava pelas janelas e dois hóspedes idosos riam junto ao café.

— Não troquei um apartamento. Troquei uma casa onde não decidia nada por um lugar onde confiam nas minhas decisões.

Ao fim de um ano, a irmã de Augusto vendeu a pensão a um casal jovem. Eles pediram que Rosa continuasse como gerente.

Ela alugou um apartamento modesto perto do rio e deixou o quarto da pensão para uma nova funcionária.

Augusto visitava-a às vezes. Nunca pediu perdão de forma solene. Um dia disse apenas:

— O Nuno parecia sempre tão seguro.

Rosa respondeu:

— As pessoas seguras também mentem.

Depois serviu-lhe café.

Na mesa junto à janela, onde tudo começara, já não estava uma mulher abandonada. Estava alguém que finalmente podia apresentar-se sem acrescentar o nome do marido.

 

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: