Felicidade pura
Beatriz estava diante da bancada de granito, cortando cebola em cubinhos pequenos, enquanto na sala o marido contava mais uma história sobre o chefe, e todo mundo ria. O apartamento da sogra em Niterói cheirava a carne assada e a Chanel n° 5, o perfume que dona Terezinha usava desde sempre, mesmo tendo insistido, no próprio aniversário, em ficar rodando perto do fogão em vez de deixar a nora se virar sozinha.
— Bia, filha, corta bem miudinho — pediu a sogra, sentando num banco alto e enxugando as mãos no avental estampado de flores. — O Rodrigo não gosta de cebola grande.
Beatriz balançou a cabeça, concordando. Doze anos de casamento tinham sido suficientes para decorar cada detalhe: quem gostava de cebola picadinha, quem não tocava em maionese, quem não podia comer nada apimentado por causa da gastrite. Mas aquela sensação de ser, no fundo, uma visita ali dentro, nunca tinha ido embora de verdade. Talvez porque família mesmo, dela, quase não sobrava nenhuma — só o apartamento da avó, herdado, e a lembrança do cheiro de bolo de fubá saindo daquele forno velho.
— E a Camila, cadê? — perguntou dona Terezinha, apontando com a cabeça pra sala, onde faltava uma cadeira naquela tarde.
— O Rodrigo disse que ela tá resolvendo umas coisas — Beatriz deu de ombros.
Fazia tempo que ela reparava como a cunhada vivia gastando acima do que ganhava: carro novo financiado, reforma em cima de reforma num apartamento que já era bom demais. Mas comentar aquilo com a sogra não valia a pena — trapo sujo de família se lava em casa, e por dentro.
Quando finalmente a mesa ficou pronta, com a toalha branca e os pratos alinhados, todo mundo se acomodou no lugar de sempre: na ponta, seu Waldemar, ao lado a esposa, depois os filhos com as respectivas famílias. Brindaram à aniversariante, e por uns minutos ali reinou aquele clima morno e fácil que só existe entre gente que já convive há anos. Foi aí que o cunhado, Marcelo, perguntou o que sempre se pergunta em toda reunião de família:
— E a Camila, hein? Cadê ela?
Um milhão e duzentos mil de sobremesa
— Não vai poder vir — respondeu Rodrigo, se servindo de salada. — Deu um perrengue de última hora, como sempre.
— Quebrou uma unha? — ironizou Fernanda, esposa de Marcelo.
— Ela tá com problema financeiro sério — cortou Rodrigo, e Beatriz reparou como as costas dele ficaram tensas.
— De novo? — suspirou seu Waldemar, sem grande surpresa, como quem já ouviu aquilo várias vezes.
Rodrigo largou o garfo no prato. Beatriz conhecia bem aquele gesto — o marido estava prestes a soltar algo importante, e depois disso a conversa costumava ficar pesada.
— Na verdade, pai, era exatamente sobre isso que eu queria falar — começou ele. — A Camila tá encrencada com uns credores. Já apareceu gente de cobrança lá na porta do apartamento dela.
— Quanto ela deve dessa vez? — o pai perguntou, calmo.
— Um milhão e duzentos mil.
Fez-se um silêncio na mesa, tão fundo que dava pra ouvir o pêndulo do relógio de parede tiquetaqueando no corredor.
— Ela pegou um empréstimo pra abrir aquele salão de estética, o negócio não deu certo — continuou Rodrigo. — O banco tá cobrando com juros e multa, e ela não tem como pagar.
— E o que isso tem a ver com você? — o sogro franziu a testa, já meio adivinhando o final.
— Eu fui fiador dela. Se ela não pagar, cai tudo em cima de mim.
Beatriz sentiu um arrepio subir pela espinha. Ela não sabia de nenhuma fiança. O marido nunca tinha comentado uma palavra sobre isso.
— E de onde a gente vai tirar um milhão e duzentos mil? — perguntou ela, virando pra Rodrigo.
— Tem um jeito — ele tomou um gole grande de vinho, se preparando. — Decidi vender o apartamento.
— Qual apartamento?
— O seu.
O que sobrou pra mim
O silêncio que caiu depois dessa palavra era outro — mais denso, mais alto, quase zumbindo nos ouvidos. Beatriz demorou pra entender que ele falava sério. Aquele apartamento. O da avó, em Vila Isabel. Onde ela tinha crescido, onde as begônias ainda floresciam no parapeito da cozinha, onde ela mesma, recém-casada, tinha decidido não vender e sim alugar, pra ajudar a quitar mais rápido o financiamento do apartamento em que morava com Rodrigo, ali na Tijuca. Era a última coisa que a ligava à própria família.
— Você enlouqueceu? — a voz dela saiu baixa.
— Bia, eu já pensei em tudo — o marido falou rápido, atropelando as palavras, como quem tem medo de ser interrompido. — O mercado imobiliário tá bom agora. A gente vende, quita a dívida da Camila, e o que sobrar a gente investe em ações. Em um ano, dois no máximo, recupera tudo com juro e correção.
— Um ano, dois? — a voz dela tremeu. — Rodrigo, esse apartamento é meu. Nem é bem comum entre a gente.
— Eu sei, amor — ele tentou pegar a mão dela, mas Beatriz puxou de volta, seca. — Mas você não mora lá. A gente só aluga. E a Camila é minha irmã, precisa de ajuda.
— Sua irmã? — um nó subiu na garganta dela. — E eu, sou o quê pra você? Sou sua esposa. E você quer tirar de mim a última coisa que me resta da minha família?
A voz dela saiu mais alta do que pretendia, e todo mundo na mesa se calou. Dona Terezinha largou o guardanapo. Marcelo e Fernanda trocaram um olhar rápido. Seu Waldemar, na ponta da mesa, ficou observando o filho com uma expressão que Beatriz nunca tinha visto nele — nem raiva, nem surpresa. Só um cansaço antigo, de quem já tinha visto aquele filme antes.
— Rodrigo — o sogro chamou, sem levantar a voz —, esse apartamento é da Beatriz ou não é?
— É dela, mas…
— Não tem "mas". — Seu Waldemar pousou o garfo devagar sobre a toalha branca, e o metal bateu no prato com um som seco. — Você foi fiador da sua irmã sem falar com sua mulher. Isso já foi errado. Agora você quer resolver o erro vendendo um bem que nem é seu, só porque acha que tem o direito de decidir por ela. Isso é roubo, meu filho. Não tem outro nome.
— Pai, é minha irmã!
— E ela é sua esposa — o sogro apontou pra Beatriz com a cabeça. — A Camila fez três negócios errados nos últimos cinco anos, e toda vez alguém paga o pato por ela. Da última vez fui eu que paguei, lembra? Cento e oitenta mil, do meu FGTS. Falei que era a última.
Rodrigo abriu a boca pra rebater, mas não saiu som nenhum.
Beatriz olhou pro sogro, sem entender de onde vinha aquele apoio, tão inesperado quanto necessário. Dona Terezinha, do lado, apertou o braço da nora por baixo da mesa — um gesto pequeno, quase escondido, mas que dizia mais do que qualquer frase.
— Camila precisa aprender a se virar sozinha — continuou seu Waldemar. — E você, Rodrigo, precisa aprender que casamento não é sociedade com sua família de origem. É com sua mulher. Se você vender esse apartamento sem o consentimento dela, considera que perdeu não só a esposa. Perdeu meu respeito também.
O jantar de aniversário terminou mais cedo do que o previsto. Ninguém comeu o bolo de coco que dona Terezinha tinha feito com tanto capricho. Rodrigo saiu da mesa e foi pra varanda, sozinho, com o celular na mão, provavelmente ligando pra irmã pra dar a notícia de que o plano tinha ido por água abaixo.
Beatriz ficou na cozinha ajudando a sogra a guardar as travessas, as mãos ainda meio trêmulas. Lá fora, na rua, um cachorro latia pro nada, e o som de um forró abafado vinha de algum apartamento vizinho, misturado ao barulho de um ônibus passando lá embaixo.
— Ele não vai fazer isso — disse dona Terezinha baixinho, guardando um prato no armário. — Meu marido não vai deixar.
— E se ele fizer assim mesmo? — Beatriz perguntou, sem tirar os olhos da pia. — Se ele mesmo, sem eu saber, tentar mexer em alguma coisa?
Dona Terezinha não respondeu na hora. Só fechou o armário e ficou olhando pra nora por um instante, como quem media o tamanho da pergunta.
Na segunda-feira seguinte, Beatriz não foi trabalhar. Pegou o metrô até Vila Isabel, entrou no apartamento da avó — que continuava alugado pra mesma inquilina havia três anos, uma professora aposentada chamada dona Iracema — e conversou com ela sobre o contrato. Depois seguiu a pé até um cartório na Rua Barão de São Francisco, com a certidão de propriedade dentro de uma pasta azul, a mesma que a avó usava pra guardar documento importante.
Lá, transferiu formalmente o imóvel pro nome dela sozinha, retirando qualquer menção que pudesse, em algum momento, ser interpretada como bem do casal — mesmo sabendo que juridicamente já era só dela, quis deixar por escrito, com firma reconhecida, sem margem pra dúvida. Pagou as custas do cartório com o próprio cartão, trezentos e quarenta reais, e guardou o recibo dentro da mesma pasta.
À noite, quando chegou em casa, Rodrigo estava sentado no sofá, esperando.
— Onde você foi hoje? — ele perguntou, tentando soar casual.
— Resolvi uma pendência no apartamento da vovó — Beatriz respondeu, largando a bolsa numa cadeira. — Já tá tudo formalizado só no meu nome. Fui atrás de advogado também, semana que vem assino um contrato de administração com a imobiliária, pra cuidar do aluguel sem precisar de procuração de ninguém.
Rodrigo ficou pálido.
— Bia, isso não era necessário…
— Era, sim — ela tirou os brincos e colocou em cima da mesinha, um por um, devagar. — Porque na hora em que você achou que podia decidir sozinho o que fazer com a única coisa que restou da minha família, você me mostrou uma coisa que eu precisava ver. Não vou brigar contigo sobre isso, Rodrigo. Só não vou deixar acontecer.
— E a Camila? Os credores já ligaram de novo hoje.
— A Camila que resolva com o pai de vocês, ou com o banco, ou vendendo o carro dela — Beatriz falou, sem alterar o tom. — Esse apartamento pagou o enxoval da vovó, pagou meu ensino médio, e agora paga metade do nosso financiamento. Não vai pagar a dívida de mais ninguém.
O celular dele tocou de novo. Na tela, o nome da irmã piscando, insistente. Rodrigo olhou pro aparelho, depois pra Beatriz, e não atendeu.
Três semanas depois, Camila conseguiu negociar a dívida direto com o banco, parcelando em vinte e quatro vezes, com um aval de seu Waldemar — dessa vez formalizado em cartório, com juros e cláusula de desconto em folha, pra garantir que o pai não fosse pego de surpresa outra vez. Beatriz nunca mais precisou tocar no assunto do apartamento de Vila Isabel. A pasta azul ficou guardada na gaveta do escritório, ao lado da certidão de casamento — as duas coisas, agora, bem separadas uma da outra, cada uma no seu devido lugar.
