# Os vinte mil reais que meu genro nunca devolveu

O que vou contar aqui não é uma história bonita. É uma história real, que começou com a melhor das intenções e terminou com um portão fechado na minha cara.

Meu nome é Helena. Tenho sessenta e dois anos, sou viúva, moro em Curitiba, num apartamento de dois quartos no bairro Água Verde, onde vivi com meu marido por vinte e sete anos. Não tive filhos. Mas tive uma irmã mais nova, a Rosana. E foi por causa da Rosana que tudo aconteceu.

Minha irmã Rosana teve dois filhos. O mais velho, o Marcelo, foi embora para Portugal quando tinha vinte e quatro anos e nunca mais voltou. A mais nova, a Bianca, ficou.

Bianca casou cedo, aos vinte e um, com um rapaz chamado Diego. O pai dela, o Sérgio, tinha morrido antes disso, num inverno de muitos remédios e pouca esperança — uma cirurgia de coração que custou caro e que quase não saiu, se não fosse uma ajuda que veio de mim, ainda que ninguém mais falasse nisso depois. Era um assunto que a família enterrou junto com o Sérgio, e eu também deixei enterrado, porque doía menos calado.

Diego era um menino de apartamento, como dizia a Rosana, que nunca tinha consertado uma torneira na vida, mas que sabia fazer conta de cabeça e falava com uma segurança que impressionava. Vendedor nato. Na época do casamento, trabalhava numa concessionária da Volkswagen no Portão, vendendo carros que ele mesmo não podia comprar.

Eu via a Rosana reclamar da Bianca, que sempre pegava dinheiro emprestado e não devolvia. Mas a Rosana reclamava, e ao mesmo tempo pagava. Porque era mãe. E mãe — eu via isso nos outros, não vivi isso na pele — mãe acha que ajudar é sinônimo de amar. Talvez tenha aprendido isso comigo, sem querer. Eu nunca contei para ninguém o que aconteceu entre mim e ela em oitenta e cinco. Só sei que, depois daquilo, a Rosana nunca mais me cobrou nada. E eu também nunca mais toquei no assunto.

Quando a Rosana morreu, em 2019, depois de um câncer que comeu ela em sete meses, a Bianca herdou o apartamento no Bacacheri e um dinheiro que a Rosana tinha juntado a vida inteira. Duzentos e quarenta e cinco mil reais, para ser exata.

Eu não herdei nada. Porque a Rosana e eu tínhamos parado de nos falar havia três anos. Briga de família, uma coisa boba que cresceu como bola de neve, mas que por baixo, eu sei agora, tinha raiz numa dívida antiga que nunca foi cobrada em dinheiro, só em silêncio. O fato é que eu não era mais bem-vinda na casa dela havia três anos. E quando ela morreu, eu nem consegui me despedir direito, porque a Bianca não me avisou. Fiquei sabendo do enterro por uma vizinha, dona Neide, que me ligou no sábado de manhã e perguntou: "Helena, você não vem no velório?"

Cheguei atrasada. O caixão já estava fechado.

Depois da morte da Rosana, eu e a Bianca não nos aproximamos. Cada uma seguiu seu canto. Eu com meu apartamento no Água Verde, ela com o apartamento da mãe no Bacacheri, o marido, o carro novo que trocava todo ano. A gente se via uma vez por ano, no máximo, no Natal, e olhe lá.

Mas a Bianca tinha uma coisa da Rosana. A mesma mania de pedir dinheiro. Não para ela — para o outro. "A senhora sabe, o Diego quer abrir um negócio, uma loja de autopeças, ele já achou o ponto." "A senhora entende, a gente precisa de uma entrada para trocar de carro porque o Diego precisa de carro para trabalhar."

Eu sempre dizia não. Não por maldade, mas porque eu não tinha sobra. Meu salário de professora aposentada não dava para bancar os sonhos dos outros. E, se dava, era à custa da minha segurança. E segurança, para uma mulher da minha idade, sozinha, não é luxo. É o que separa a gente do desamparo.

Foi então que o Diego apareceu aqui em casa. Numa terça-feira, eu lembro, porque tinha acabado de chegar da feira e a alface ainda estava na pia. Ele veio com a Bianca, e os dois sentaram na minha sala, e o Diego ficou girando o molho de chaves do carro no dedo, enrolando e desenrolando o chaveiro de couro, enquanto a Bianca falava.

O projeto era uma loja de autopeças. Um ponto de cento e vinte metros quadrados na Vila Izabel, perto da concessionária onde ele trabalhava. Ele tinha o conhecimento, tinha os contatos, já tinha até uma lista de fornecedores. Faltava o capital de giro. Faltavam vinte mil reais.

— A gente devolve em seis meses, tia. Com juros de poupança. — Ele apertou a chave na palma da mão, como se estivesse fechando um negócio comigo ali mesmo. — A Bianca assina junto, se a senhora quiser.

Eu olhei para a Bianca. Ela não disse nada. Só ficou lá, mexendo no celular.

Eu pensei: é o filho da Rosana. Não é. Mas é a Bianca, e a Bianca é a filha da minha irmã, e a minha irmã morreu sem eu me despedir, e antes disso me emprestou o que tinha para salvar o marido dela sem nunca cobrar de volta. A culpa, essa danada, mora no corpo da gente e faz a gente fazer esse tipo de coisa. Abrir a boca e dizer:

— Eu empresto. Mas vamos fazer um contrato.

O Diego sorriu. "Claro, tia. A senhora está certíssima."

Peguei o dinheiro da minha poupança. Vinte mil. Quase tudo o que eu tinha guardado. Fomos ao cartório, fizemos um contrato de mútuo, com reconhecimento de firma. Eu não sou boba. Trabalhei trinta e seis anos dando aula de matemática. Sei que entre parentes o que não falta é história de dinheiro que virou mágoa.

O prazo era seis meses. Setembro de 2023.

Passou outubro. Passou novembro. Dezembro. Nada.

Mandei mensagem para a Bianca. Ela respondeu que a loja estava começando, que ainda não tinha dado lucro, que era assim mesmo no começo.

— A senhora não vai se arrepender, tia. O Diego está trabalhando sábado e domingo.

Eu via as fotos dela no Facebook. Praia no verão. Um churrasco na laje. O Diego com óculos escuros, dirigindo uma caminhonete nova. A loja devia estar com o dinheiro todo investido nas paredes, pensei. Acontece.

Em janeiro, passei na frente do ponto da Vila Izabel. Eu sei o endereço, estava no contrato. A loja existia. Mas estava fechada, com uma placa de aluga-se pendurada.

Liguei para a Bianca.

— Ah, tia, aquilo lá não deu certo. O Diego devolveu o ponto. Mas o dinheiro está rendendo em outro lugar.

— Que outro lugar?

— Melhor a gente conversar pessoalmente.

Minha mão gelou. Não era medo. Era uma coisa pior. Era a certeza. A certeza do que ia ouvir.

Mês de março, outono começando, aquela garoazinha fina de Curitiba. A Bianca e o Diego vieram aqui em casa. Ele sentou no mesmo lugar de antes, na poltrona perto da janela, mas dessa vez não tinha chave de carro. Ele apoiava as mãos nos joelhos, e as mãos não paravam.

— Tia, a situação é a seguinte. — O Diego começou falando. — A loja não deu certo, mas eu peguei o dinheiro e investi. Tudo legal. No banco. Só que houve uma oscilação do mercado e… — Ele respirou fundo. — A gente precisa de um tempo. Não vamos conseguir devolver agora.

— Quanto tempo?

— Mais um ano.

A Bianca estava sentada ao lado dele, e aí ela fez uma coisa que não esquecerei. Ela tirou o celular da bolsa e começou a responder mensagem. Enquanto o marido sangrava na minha frente, ela respondia mensagem.

— A senhora assina junto o quê — eu disse para ela. — O contrato é dos dois.

A Bianca levantou o olho por meio segundo.

— Eu sei, tia. A gente não vai sumir com seu dinheiro. A senhora está parecendo que não confia na gente.

Pronto. Aí a coisa virou contra mim. Eu não confiava. Eu, uma velha chata, uma usurária, uma pessoa sem coração que cobrava a filha da própria irmã morta.

Levantei. Fui até o quarto, peguei o contrato, voltei.

— Aqui está tudo. Os valores, o prazo, as assinaturas. Prazo venceu dia quinze de setembro. Hoje é sete de março. A senhora e o Diego me devem vinte mil reais.

Silêncio.

O Diego comprimiu os lábios. A Bianca guardou o celular.

— A senhora quer mesmo que a gente pague? — ele perguntou.

— Sim.

— E se a gente não tiver o dinheiro?

— Isso é um problema de vocês. Eu emprestei. Agora quero de volta.

A Bianca levantou de repente.

— Sabe o que foi, tia? A senhora nunca fez nada por mim. Nunca. A minha mãe morreu e a senhora não deu um real. Eu tive que me virar. Agora que eu encontrei um homem que quer trabalhar, que quer crescer, a senhora fica aí com essa conta na mão, cobrando. Parece que está esperando a gente se ferrar para ter razão.

Eu não acreditei no que ouvi.

A Bianca pegou a bolsa.

— Vamos, Diego. Não vou ficar aqui ouvindo isso. Minha mãe morreu e a senhora nem foi no enterro.

— Eu fui. Cheguei atrasada porque você não me avisou.

Ela me olhou com um desprezo tão puro que doía.

— Era a sua obrigação ter estado lá.

E os dois saíram.

O molho de chaves do Diego ficou em cima da mesa. Ele esqueceu. Peguei as chaves. Fui até a janela. Eles estavam entrando num carro. A caminhonete nova.

Olhei para a mesa. Ao lado do molho de chaves, estava o contrato. Vinte mil reais. Assinatura da Bianca. Assinatura do Diego.

Peguei o molho. Desci. Não me perguntem por que, eu não sabia o que ia fazer. Talvez devolver as chaves. Talvez dizer mais alguma coisa.

Na garagem, a caminhonete já estava de ré. O vidro aberto.

— Bianca! — eu gritei. — As chaves!

Ela parou. O Diego desceu do carro. Veio até mim. E, quando chegou perto, disse baixo, no tom de quem fala com uma criança:

— A senhora é uma infeliz, dona Helena. A senhora não tem ninguém. A senhora fica aí contando dinheiro para quê? Para morrer e deixar para o Estado?

Dei as chaves na mão dele. Ele entrou no carro. A Bianca nem olhou para mim.

A caminhonete dobrou a esquina.

Eu fiquei na calçada. A garoa tinha engrossado. Uma poça de água suja refletia a luz amarela do poste. A grama do vizinho estava escura de água.

Subi. Fechei a porta. Apaguei a luz da sala.

Procurei um advogado. O doutor Rafael, indicado por uma colega do antigo colégio. Mostrei o contrato, contei a história.

— Dona Helena, a senhora tem um caso ganho. Mútuo com dia de vencimento, assinatura de ambos, reconhecimento de firma. Mas a senhora precisa decidir até onde vai.

— Como assim?

— Isso pode levar dois, três, quatro anos. E, se eles não tiverem bens no nome, a senhora não recebe nem o principal. Fora as custas.

— Eles têm um apartamento. No Bacacheri.

— De herança?

— Sim.

— Herança, se já foi partilhada, é bem deles. Pode pedir penhora. Mas, dona Helena… — ele tirou os óculos. — A senhora tem ideia do que é penhorar o apartamento da sua sobrinha? A filha da sua irmã? A senhora vai virar a vilã da família.

— A família sou eu.

Ele suspirou.

— Vamos entrar com a ação. Mas eu quero que a senhora me diga uma coisa. A senhora quer o dinheiro ou quer que eles aprendam?

Eu fiquei olhando para a estante. Para o retrato do meu marido, sentado na praia de Caiobá, com o chapéu de palha que ele tanto gostava.

— Quero as duas coisas — eu disse.

A ação correu. Citação, audiência de conciliação, defesa. O Diego alegou que o negócio "não se realizou por culpa exclusiva do mercado". A Bianca alegou que nunca recebeu o dinheiro — que a assinatura era "mera formalidade".

A juíza não fez cerimônia.

Em abril de 2024, saiu a sentença.

Procedente.

Vinte mil reais. Correção. Juros. Custas. Honorários.

O advogado deles recorreu. Eu recorri também, para que os honorários fossem pagos independentemente de eles recorrerem. Ficou para o Tribunal de Justiça.

Enquanto isso, o apartamento da Rosana continuava invadido. Porque era assim que eu via: eles morando na casa da minha irmã, dormindo na cama onde ela dormiu, usando as panelas onde ela cozinhou, e me devendo o dinheiro que eu tinha juntado com aula de EJA para adulto, de noite, em escola pública.

Entrei no Facebook. As fotos continuavam. Caminhonete, restaurante, uma viagem para o Beto Carrero com as crianças. Crianças? Sim. A Bianca estava grávida.

E eu pensava: essa criança vai herdar essa dívida. Essa criança vai crescer ouvindo que a tia-avó era uma velha ruim que cobrou os pais.

Mas a dívida não era da criança. Era dos pais. E pai e mãe, quando fazem dívida, têm que pagar. Se não fazem isso, não estão ensinando nada a filho nenhum.

Em outubro, o processo chegou ao fim. Trânsito em julgado. O valor atualizado: trinta e três mil e duzentos reais.

Recebi a notificação. A penhora do bem.

O oficial de justiça foi ao apartamento do Bacacheri.

A Bianca me ligou, chorando.

— Tia, por favor, a senhora não vai fazer isso com a gente, com a sua sobrinha, com o seu… O meu filho vai nascer sem ter casa!

— A tua mãe trabalhou a vida inteira por aquele apartamento. Se a senhora tivesse me pago, nada disso estaria acontecendo.

— Mas a senhora não precisa! A senhora não precisa disso! A senhora não tem ninguém para deixar esse dinheiro!

O choro virou raiva. A raiva virou grito.

— A senhora é uma velha egoísta! A senhora nunca amou ninguém! Por isso que ninguém ama a senhora! Por isso que a minha mãe não queria você na casa dela! Até a minha mãe sabia!

Eu desliguei.

Fui até a cozinha. A pia estava limpa. Eu tinha lavado tudo depois do almoço. Mas fui, e lavei de novo. Lavei a pia, o escorredor, o balcão. Esfreguei com a parte verde da esponja, que é a mais áspera. Gastei a esponja.

No espelho da janela, minha cara de sempre. Sessenta e dois anos.

Mas por dentro eu já sabia o que ia fazer com o dinheiro da penhora, mesmo antes de o leilão acontecer. Tinha juntado, ao longo daqueles meses, um dinheiro parado num CDB que o meu marido tinha deixado. Duzentos e cinquenta mil reais, quase intocados desde que ele morreu. Liguei para o doutor Rafael e perguntei se um terceiro podia dar lances no leilão sem que ninguém soubesse quem era.

— Pode, dona Helena. Basta um procurador. Por que a senhora pergunta?

— Porque eu quero arrematar aquele apartamento.

O leilão foi marcado para o dia vinte de novembro.

No dia, choveu. Uma chuva daquelas que alaga a Rua Chile e faz o trânsito parar no centro.

Eu não fui pessoalmente. Mandei meu procurador, um rapaz chamado Anderson, indicado pelo próprio doutor Rafael, com uma ordem clara: dar lances até duzentos e oitenta mil reais, nem um centavo a mais.

Fiquei em casa, com o celular na mão, esperando a ligação.

Às quinze e vinte, o telefone tocou.

— Arrematamos, dona Helena. Duzentos e oitenta mil.

O Juízo descontou os trinta e três mil e duzentos que eu tinha direito pela penhora e me devolveu o resto do que eu tinha depositado como garantia de lance. No fim, o apartamento tinha me custado, de fato, o que sobrou do CDB do meu marido somado ao que eu já tinha direito a receber. Fechei a conta na cabeça, como sempre fiz. Batia.

Liguei para o doutor Rafael.

— Arrematei o apartamento, doutor.

Ele ficou um instante calado.

— A senhora tem certeza do que está fazendo?

— Tenho.

Era uma terça-feira, dia três de dezembro. Eu tinha consulta no Hospital Evangélico, às quatro da tarde. Saí, fui ao centro, entrei numa loja de brinquedos na Rua XV.

Comprei um presente.

Dirigi até o Bacacheri. Estacionei em frente ao prédio da Rosana. O apartamento 52, no quinto andar. A janela da sala estava com a luz acesa.

Subi.

Toquei a campainha.

A Bianca abriu. Atrás dela, o Diego, com uma caixa de papelão na mão. Eles estavam de mudança.

— Oi, Bianca.

Ela me olhou. O rosto dela inchado, os olhos vermelhos de chorar. A barriga grande, o bebê para nascer.

— Vim trazer um presente. Para o teu filho.

Ela não disse nada.

Estiquei o embrulho. Uma caixa pequena, com laço azul.

Ela pegou.

— O que é?

— Abre.

Ela rasgou o papel.

Dentro, um porta-retrato. Prata. Com uma foto da minha irmã Rosana, aos trinta anos, sentada na praça Zacarias, sorrindo. Atrás da foto, uma etiqueta branca. Escrita à mão, caneta preta:

"Comprei este apartamento no leilão. Duzentos e oitenta mil reais. Deixa o Diego trabalhar. A tia Helena."

A Bianca levantou os olhos. O Diego parou no meio da sala, com a caixa na mão, o rosto pálido.

— A senhora… foi a senhora que arrematou?

— Eu. Através de um procurador. Mas está no meu nome. Durante vinte e cinco anos, vocês vão me pagar aluguel. Todo mês, dia quinze. Trezentos e cinquenta reais, reajustados pelo IGPM. Depois de vinte e cinco anos, o apartamento vai para o nome do teu filho. Se ele for maior de idade. Se ele estiver estudando. Se ele se formar. Se ele tiver juízo.

A Bianca recuou um passo.

— A senhora está me dizendo…

— A senhora sabe o que a tua mãe fez por mim uma vez? Ela tinha vinte e dois anos. Eu tinha vinte e quatro. Ela me emprestou o salário dela inteiro, em janeiro de oitenta e cinco, para eu pagar a cirurgia do teu pai, que na época já não tinha mais nenhuma chance sem aquele dinheiro. Nunca me cobrou de volta. A senhora pode confirmar com a dona Neide. Ela sabe dessa história.

Silêncio na sala. O relógio da parede marcava cinco e quarenta e dois. Em algum ponto do prédio, uma obra fazia barulho de furadeira.

— Eu não quero o teu dinheiro — continuei. — Eu não quero o teu marido. Eu não quero a tua casa. Eu quero uma coisa que a tua mãe me ensinou sem dizer uma palavra: nesta família, dívida se paga. Honra não se pede. Honra se tem.

O Diego deixou a caixa no chão.

— A senhora vai morar aqui? — a voz dele saiu baixa, igual quando me chamou de infeliz na garagem. Mas agora era outra pessoa.

— Não. Vou alugar. Telefone para o Diego, Bianca. Quando vocês quiserem, assinam o contrato. Se não quiserem, o apartamento fica vazio. Eu pago condomínio. Vocês vão procurar outro lugar.

A Bianca caiu no choro. Sentou no sofá. O sofá da Rosana. A capa de crochê que a minha irmã fazia, eu reconheci. A capa branca do encosto.

— Eu não tenho para onde ir — ela disse.

— Tens o carro do teu marido.

O Diego fez menção de falar, mas não falou.

Desci as escadas. O corredor tinha cheiro de bolo assando. A vizinha do 52 Bis devia estar fazendo. Uma coisa boa, de fubá com erva-doce.

Na rua, a chuva tinha parado. A cidade cheirava a asfalto molhado.

Peguei o carro e fui para casa.

No caminho, passei na praça Zacarias. O mesmo lugar da foto. A Rosana, jovem, sentada lá, sorrindo.

Estacionei. Desci. Sentei num banco. O mesmo banco, talvez. Fazia anos que eu não ia lá.

E eu, que nunca tinha chorado na frente de ninguém, chorei ali, sozinha, diante do chafariz, com as mãos apertando a alça da bolsa como se aquilo fosse me segurar em pé.

Em janeiro, a Bianca assinou o contrato de aluguel. O Diego foi junto, carregando a criança no colo. Um menino. Chamaram de Miguel.

O aluguel chega todo dia quinze. Nunca atrasou.

Miguel acaba de completar três meses.

No contrato, a cláusula sexta diz: "Ao atingir a maioridade, caso o locatário esteja em dia com todas as obrigações, o imóvel será transferido ao neto da locadora, através de doação com reserva de usufruto."

Guardei uma cópia dessa cláusula na gaveta da cozinha, junto com a foto da Rosana na praça Zacarias. De vez em quando abro a gaveta, releio as palavras em voz baixa, e fecho de novo.

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