Cinquenta e sete anos de Rosana e o pedido de Ivone: o cão mais velho do Lar dos Bichos

Felicidade pura

Meu nome é Rosana, tenho cinquenta e sete anos e trabalho há onze na recepção do abrigo Lar dos Bichos, na zona norte de Curitiba. Foi lá, numa quinta-feira de julho, com aquele friozinho seco que deixa o chão do canil gelado mesmo debaixo de sol, que eu vi a cena que não saiu mais da minha cabeça.

Eu estava com o caderno de registro aberto na minha frente, terminando de anotar a vacina de um vira-lata que tinha chegado de manhã, quando a mulher entrou. Baixinha, magra, ombros meio caídos pra frente, tipo de gente que carrega peso demais nas costas há muito tempo. Segurava uma sacola de tecido — dessas de feira, com listras vermelhas desbotadas — e usava um casaco verde-musgo puído nas costuras dos ombros.

— Eu preciso de um cachorro bem velho — ela disse, sem rodeios.

Larguei a caneta.

Em onze anos eu já tinha ouvido de tudo ali naquela mesa. Gente que queria filhote porque "cresce apegado". Gente que perguntava se o cão "solta muito pelo". Uma vez um rapaz quis um cachorro "de olho triste, pra postar no Instagram". Mas alguém pedindo o mais velho que houvesse — isso, nunca.

— Quão velho a senhora tá pensando? — perguntei, meio sem jeito.

— O mais velho que tiver. Uns dez, doze anos. Quanto mais velho, melhor.

Reparei nas mãos dela apoiadas na sacola: secas, com as juntas meio grossas, unhas cortadas rente. Mão de quem lava roupa no tanque, de quem cava horta, de quem aplica remédio em bicho que não quer tomar. Ela não sorria, não parecia nervosa também — só tinha aquele jeito de quem já sabe exatamente o que veio buscar e não vai sair sem.

— Peraí que eu vou chamar a doutora Célia — falei, e fui até os fundos, onde ficam as baias.

A Célia, que toca o abrigo desde que o marido dela morreu e deixou o terreno de herança, estava cortando pão amanhecido pra misturar na ração da tarde. A faca batia na tábua num ritmo quase de metrônomo. Do lado, uma panela de arroz com miúdos esfriando e uma pilha de vasilhas de alumínio empilhadas.

— Dona Célia, tem uma senhora aí na frente. Tá pedindo o cachorro mais velho que a gente tiver.

Ela parou a faca no ar.

— Mais velho como assim?

— Ela falou isso mesmo. Quanto mais velho, melhor.

— Estranho. Manda ela entrar.

A mulher se chamava Ivone Bezerra de Assis. Sentou na cadeira de plástico da salinha da Célia, pôs a sacola no colo e entrelaçou os dedos.

— Dona Ivone — Célia começou, meio desconfiada —, a senhora sabe que cachorro idoso dá trabalho, né? Remédio caro, ração especial, geralmente já vem com alguma doença. Problema de rim, de coração, artrose. Não é fácil, nem barato.

— Eu sei.

— Já criou animal antes?

— Já.

— Conta pra mim, se puder.

Ivone ficou calada um instante. Olhou pra janela, de onde dava pra ver a fileira de canis e um pedaço do muro com a tinta verde descascando. Lá longe, passava o barulho de ônibus na BR-116.

— Hoje eu tenho o Duque em casa. Ele tem catorze anos. Vira-lata grande, parece que tem uns pedaço de pastor nele. Peguei ele há dois anos, de um abrigo lá de Ponta Grossa. Iam sacrificar porque ele tem artrose nas patas de trás e ninguém quis. Antes do Duque teve o Zico, cego dos dois olhos, catarata bem avançada. Peguei com onze anos. Viveu comigo um ano e meio. Antes do Zico, a Mel, uma vira-lata velha com problema no quadril. A Mel ficou comigo oito meses.

Ela ia contando baixinho, sem drama, quase como quem lê lista de compra no mercado. Só que em cada nome ela demorava um pouquinho mais que nas outras palavras. Como se desse um segundo a mais de existência pra cada um.

Célia tirou os óculos e pousou a caneta.

— A senhora procura cachorro de idade de propósito, então?

— Procuro.

— Posso perguntar por quê?

Ivone olhou pra ela direto. Os olhos castanho-claros, parados, sem desafio e sem desculpa.

— Porque ninguém mais vai querer. Todo mundo quer filhote. Ou no máximo até uns três anos. E o cachorro velho fica lá na baia esperando. Ele não entende por que tá ali. Passou a vida inteira do lado de alguém, dormindo aos pés da cama, correndo até o portão quando ouvia o carro chegar. Aí, um dia, o dono morre. Ou muda de cidade. Ou simplesmente decide que já chega. E sobra pra ele, talvez, mais um ano. Dois, no máximo. Eu não quero que esse tempo seja passado em cima de chão gelado.

A sala ficou quieta. Do outro lado da parede dava pra ouvir um cachorro latindo — sem raiva, num ritmo triste, quase mecânico.

— Vem — disse Célia, levantando. — Tenho uma coisa pra te mostrar.

Ela levou Ivone até o fundo do terreno, onde ficava a baia 12, separada das outras por uma escolha que ninguém tinha oficializado, mas que todo mundo respeitava: era a baia dos "sem chance". Ali morava o Trovão, um vira-lata de pelo grisalho, treze anos, cego de um olho e com o quadril tão fraco que mal conseguia se levantar sozinho. Tinha chegado dois meses antes, porque o dono, um senhor de oitenta e dois anos, tinha ido pro asilo e a família não quis levar o cachorro junto.

Eu fui atrás delas, fingindo que ia checar a água dos canis, mas na verdade eu queria ver.

Trovão levantou a cabeça quando ouviu passos, mas não veio até a grade — só ficou olhando, cauteloso, como quem já não espera mais nada de gente nova. Ivone se agachou devagar, apoiando uma das mãos no chão molhado, e ficou parada um bom tempo, sem estender a mão, só olhando ele olhar ela.

— Esse aqui — disse Célia. — Trovão. Treze anos. Problema de quadril, catarata no olho direito, e provavelmente vai precisar de remédio de pressão em breve, o veterinário ainda vai confirmar exame de sangue.

— Quanto custa manter ele por mês?

— Uns duzentos e oitenta reais, contando ração de sênior e o básico de remédio. Se precisar de exame ou internação, sobe.

Ivone assentiu — só uma vez, sem hesitar — e abriu a sacola de tecido. Lá dentro tinha um cobertor xadrez dobrado, já usado, cheirando a sabão em barra.

— Trouxe isso pra ele não sentir o carro estranho na volta.

Foi aí que eu entendi que ela já vinha decidida antes mesmo de entrar no portão.

O processo de adoção levou uma semana — visita domiciliar incluída, porque assim é a regra do Lar dos Bichos. Fui eu que fiz a visita, numa terça de manhã, numa casa simples no bairro Uberaba, com quintal pequeno e murado, chão de cimento áspero pra não escorregar e uma rampa de madeira, já gasta de uso, ligando a varanda ao jardim. Dentro da casa, tinha três camas de cachorro velhas, cada uma com o nome bordado a mão: Graf… não, aqui era diferente — bordado dizia "Duque". Do lado, uma estante baixa com potes de remédio etiquetados com fita adesiva e caneta: glicosamina, furosemida, um anti-inflamatório.

Perguntei, só por curiosidade, sobre o marido dela. Ela disse que era viúva há nove anos, que trabalhava como costureira em casa, ajustando bainha e vestido de festa pra uma loja do bairro, e que os dois filhos moravam longe — um em Londrina, outro no Rio Grande do Sul. Ligavam pouco.

— O senhor Duque ainda te faz companhia? — perguntei, quase sem querer.

— Faz. Ele dorme no meu quarto, do lado da cama. Já não sobe mais sozinho, eu ajudo com uma rampinha de madeira que fiz.

Ela mostrou a rampinha — feita à mão, com resto de tábua e pedaço de carpete grudado por cima pra não escorregar. Uma coisa simples, mas certeira, do jeito que só quem já fez isso antes sabe fazer.

Passaram-se sete meses.

Eu soube da notícia porque a Ivone ligou pro abrigo, num sábado de fevereiro, perto do meio-dia. Atendi eu mesma o telefone.

— Aqui é a Ivone. Vim avisar que o Trovão faleceu ontem à noite. Dormindo, do lado da cama dele.

A voz dela não tremia. Só ficou um segundo de silêncio na linha antes da próxima frase.

— Queria perguntar se tem algum outro cachorro de idade aí com vocês. Bem idoso, mesmo.

Passei o telefone pra Célia, que já conhecia o histórico. Ela conversou uns dez minutos, e no fim das contas marcaram visita pra semana seguinte. Tinha chegado uma cadela, a Baleia, doze anos, com um tumor benigno na pata e uma leve insuficiência renal — dessas que ninguém quer nem olhar duas vezes na foto do site.

Foi nesse dia que eu entendi de verdade o que a Célia tinha me dito uma vez, ainda no começo, quando eu perguntei por que a gente insistia tanto em achar lar pros cachorros mais velhos, os que ninguém posta foto bonita: "Porque pra eles, oito meses de cama quente valem mais que dez anos de rua."

Semanas depois, quando fui de novo até a casa dela pra fazer a visita de acompanhamento com a Baleia já instalada, reparei numa coisa que não tinha visto na primeira vez: na estante da sala, ao lado da estante de remédio, tinha três potinhos de vidro pequenos, tipo os de tempero, cada um com uma etiqueta escrita a mão — Mel, Zico, Duque. Dentro, um pouco de terra e uma pena, ou um pedacinho de coleira, ou uma flor seca.

Perguntei o que era.

— É de onde eu enterrei cada um. No fundo do quintal, embaixo do pé de goiaba. Guardo um pouquinho de terra de cada um, num pote, com o nome. Pra não esquecer que eles passaram por aqui.

A Baleia, deitada num canto do sofá com a pata enfaixada, batia o rabo devagar no estofado, sem levantar a cabeça.

Não teve final chorado, nem discurso, nem ninguém me explicando o sentido daquilo tudo. Só teve isso: uma mulher de cinquenta e oito anos, magra, de mãos ásperas, que continua indo até o Lar dos Bichos toda vez que outro cachorro seu morre, sempre perguntando a mesma coisa — se tem algum bem velho, o mais velho que tiver — e um pote de vidro a mais na estante, esperando o nome.

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Odissea
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