**Pato com molho de laranja em Curitiba**

Casamento de cinco anos, uma filha de dois anos que sempre morou com os avós — era isso que eu tinha em mente naquela noite, quando bati na porta.

Meu nome é Marisa Andrade, tenho cinquenta e três anos e há dezessete trabalho como enfermeira na maternidade de um hospital perto da Rua XV de Novembro, em Curitiba. Já vi de tudo na vida — parto no corredor, pai que desmaiou ao ver sangue, sogra que trouxe o carrinho de bebê antes mesmo do neto nascer. Mas aquela quinta-feira de agosto eu guardei de um jeito diferente das outras.

Terminei o plantão às cinco da tarde e ia pegar o ônibus na parada perto da Praça Rui Barbosa quando avistei a vizinha do meu prédio — Camila Ferreira, trinta e dois anos, professora de química num colégio perto da Avenida Batel. Estava parada em frente ao prédio com uma sacola do supermercado, usando o mesmo vestido bordô que tinha vestido no aniversário de casamento no ano anterior. Da sacola saía um maço de salsinha. Perguntei se estava tudo bem. Ela disse que estava fazendo pato com molho de laranja, que eram cinco anos de casamento com o Rodrigo, que queria que a noite fosse especial. Sorriu, mas era daquele jeito que não chega aos olhos — eu já vi centenas de vezes na enfermaria, quando a paciente diz "está tudo bem" segurando a grade da cama com tanta força que os dedos ficam brancos.

Não moro com eles, não sei o que acontecia atrás daquela porta no último ano. Mas o prédio antigo perto da Rua Marechal Deodoro tem paredes finas e um elevador que faz tanto barulho que dá para ouvir em qualquer andar — então, às vezes, à noite, eu escutava vozes alteradas vindas do apartamento 402. Nunca me intrometi. Não era da minha conta.

Naquele dia me ofereci para ajudar a Camila a subir as compras, porque ela ainda carregava uma sacola com suco de laranja concentrado e mostarda — o Rodrigo, ao que parece, adorava molho de laranja com o pato. Subimos juntas de elevador. No corredor tinha cheiro de feijoada vindo dos vizinhos do térreo, alguém no terceiro andar estava com o noticiário ligado, dava para ouvir a voz do apresentador pela porta entreaberta. Camila contava como ia enrolar o cabelo, qual perfume ia usar — aquele de baunilha que o Rodrigo uma vez chamou de "o cheiro que me fez apaixonar". Falou isso e logo se corrigiu: "bom, ele dizia isso antes".

Desci no meu andar, o quarto, ela seguiu subindo. Não sabia, naquela hora, que a veria de novo naquela mesma noite — e que o que eu veria seria completamente diferente do que ela estava preparando.

Às oito e meia liguei o interfone para devolver o cartão do mercado que tinha caído da bolsa dela no corredor. Bati na porta. Quem abriu não foi ela.

Na soleira estava Rodrigo — alto, de terno, como se estivesse voltando de algum jantar importante, e não do escritório de contabilidade perto da Rua Marechal Floriano, onde normalmente ia de camisa social simples. Ao lado dele, segurando seu braço, estava uma moça. Uns vinte e seis anos, cabelo pintado de loiro platinado preso num rabo de cavalo alto, blusa rosa esticada sobre uma barriga enorme — oitavo, talvez nono mês. O perfume adocicado de farmácia era tão forte que senti antes mesmo de conseguir entregar o cartão.

— Ah, dona Marisa! — exclamou Rodrigo, como se aquele fosse o melhor momento para apresentar visitas. — Essa é a Bruna. Vai morar aqui com a gente agora. Está grávida, sabe, no nono mês. Vai me dar um filho homem.

Atrás deles, no fundo do corredor, estava Camila. No mesmo vestido bordô. Segurava um pano de prato na mão, como se tivesse acabado de secar as mãos nele e esquecido de largar. Não gritou, não chorou. Ficou parada, grudada no chão, com aquela expressão que eu vejo em pacientes quando o médico diz algo que elas ainda não conseguem entender.

— Cinco anos esperando ela me dar um filho — disse Rodrigo, alto o suficiente para o corredor inteiro ouvir. — Agora tenho uma mulher de verdade em casa.

Atrás deles, na escada, apareceu a sogra de Camila, dona Terezinha Ferreira. Segurava um buquê de crisântemos brancos e sorria largo, como se tivesse vindo para um batizado, não para uma cena de traição.

— Camila, filha, o que é isso, parada assim? — disse ela, enfiando o buquê nas minhas mãos, embora eu não fosse a destinatária. — Põe a água pra chá de camomila, a Bruna está com azia.

Não fiquei mais tempo. Não era da minha conta, repeti para mim mesma no elevador, descendo. Mas nas três semanas seguintes passei todo dia pela porta do 402, levando o lixo, e todo dia ouvia a mesma coisa: criança chorando no andar de cima, televisão de dona Terezinha, e o silêncio atrás da porta de Camila, que agora dormia, como fiquei sabendo depois, no sofá-cama da sala, enquanto Bruna e Rodrigo ficavam com o quarto.

Encontrei com ela de novo em meados de setembro, no corredor, carregando caixas. Perguntei se estava se mudando. Disse que sim — mas não do jeito que eu imaginava.

Descobri que o apartamento perto da Marechal Deodoro tinha sido comprado inteiramente com o dinheiro da venda de um imóvel da avó dela em Colombo, e formalmente, havia três anos, depois de uma mudança no regime de bens que os dois tinham assinado em cartório perto da Rua Riachuelo, pertencia só a ela. Rodrigo não lembrava disso, ou fingia não lembrar — contava que a esposa, cansada e humilhada, ia simplesmente arrumar as malas e sumir. Em vez disso, Camila foi ao mesmo cartório, pegou a certidão da escritura, chamou um chaveiro de uma loja perto da Marechal Floriano e trocou a fechadura da porta antes de Rodrigo voltar do trabalho. Não gritou com ele pelo telefone. Só deixou um envelope embaixo da porta dos vizinhos, pedindo que entregassem quando ele chegasse — dentro havia um papel com o endereço de um escritório de advocacia perto da Praça Tiradentes e a informação de que ele tinha quatorze dias para retirar as coisas dele, porque o apartamento estava sendo vendido.

Vi ele naquela noite — parado na frente da porta 402 com uma chave que não servia mais na fechadura nova, tocando a campainha e depois batendo com o punho, até que dona Terezinha desceu e disse para ele parar de fazer cena, porque os vizinhos já estavam chamando a polícia. Camila, àquela altura, já não estava mais no apartamento — tinha levado a última caixa no dia anterior, com a ajuda do irmão, e colocado o imóvel à venda por quatrocentos e oitenta mil reais, como fiquei sabendo depois pela corretora que colou o anúncio na portaria.

Não sei onde ela mora agora. Uma vez me passou o endereço novo, algum lugar no Bacacheri, mas não anotei. Só sei que, da última vez que a vi, ela carregava nas mãos não uma caixa, mas uma pasta de documentos — a mesma que antes ficava no cartório e agora era dela. E que não se virou para olhar o corredor quando fechou a porta do táxi atrás de si.

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Odissea
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