Setembro de 2003, na Rua Alfredo Pachá, num sobrado de dois andares alugado, com aquele cheiro de mofo que a umidade da serra deixa em toda casa velha. Rosinha tinha sete anos e uma birra que fazia tremer os vidros.
— Mãe, deixa a Bel em casa. Não quero ela na minha festa.
— Que isso, Rosinha? A Isabel é sua irmã.
— Não é! — a menina bateu o pé no tapete da sala. — Ela fica grudada em mim o tempo todo, em tudo que é lugar, e eu odeio!
A menina mais velha, magrinha, com uma trancinha mal feita, estava sentada perto da janela com o vestido de festa todo alisadinho nas dobras. Fingia olhar a rua, mas escutava cada palavra.
— Para de gritar — a mãe, Conceição, sacudiu Rosinha pelo braço. — Quantas vezes eu já falei isso pra você?
Rosinha engasgou de tanto chorar. Isabel se levantou devagar, foi até a cozinha, encheu um copo d'água na filtro de barro que ficava em cima da pia e trouxe pra irmã. Rosinha empurrou o copo com força. A água molhou o tapete, o copo rolou até debaixo do sofá, e o berreiro dobrou de volume.
Foi aí que dona Zuleide, avó materna, entrou pela porta da cozinha com uma sacola de pão de queijo ainda quente.
— Que zoada é essa? Quem tá fazendo minha netinha chorar?
— Vó! — Rosinha correu pros braços dela, soluçando.
— Mãe, não se mete — Conceição levou a mão à testa. — Eu já pedi mil vezes.
— Não me meto? Uma criança dessas, roxa de tanto chorar, e a mãe fica parada? — dona Zuleide arrastou Conceição pela varanda e baixou a voz, mas não baixou o suficiente. — Você perdeu o juízo, Ceição? Prefere essa menina de fora à sua própria filha de sangue?
— Mãe, chega. Eu já falei pra senhora não meter a colher nisso.
— Filha o quê, essa aí nem é sua.
— O pai dela é meu marido. Nós somos uma família, mãe, entendeu ou não?
Enquanto isso, na sala, o soluço de Rosinha virou soluço de verdade, daqueles que travam a respiração. Isabel, sentada quietinha na cadeira de balanço, olhava pro chão sem dizer nada. Passou o resto da tarde assim, calada, com o vestido de renda que a tia tinha comprado ainda dobrado em cima da cama, sem estrear.
Ela chegara ali há três meses. A mãe dela, Neuza, tinha casado de novo com um comerciante de Teresópolis que não queria saber de filha enteada dentro de casa. Neuza telefonou pro ex-marido, Roberto, e falou sem rodeio: ou ele ficava com a menina, ou ela colocava no abrigo. Isabel não acreditou. A própria mãe, que até pouco tempo antes cortava a casca do pão pra ela porque Isabel não gostava, virou de repente uma estranha. Isabel chorou, se agarrou na saia da mãe, mas Neuza descolou as mãozinhas dela com um gesto seco e entrou no Corolla prata do novo marido. Foi embora pra vida nova.
Isabel ficou na casa da tia Marisa, irmã do pai, até Roberto vir buscar. No carro, o pai não disse quase nada no caminho todo — só o rádio ligado baixinho numa rádio de sertanejo.
— Pai, o senhor vai me deixar no abrigo?
— Não, filha, de onde você tirou isso?
Isabel calou e ficou olhando os postes passando pela janela.
Conceição, a nova esposa de Roberto, tratava bem a menina, e no fundo Isabel a chamava de mãe, só pra si mesma, sem dizer em voz alta. Rosinha, no começo, até gostou de ter companhia pra brincar. Mas quando entendeu que Isabel ia morar ali pra sempre — e ainda por cima no quarto dela, e que agora tudo ia ser dividido, e que o pai chamava a menina de "filha" na frente de todo mundo — Rosinha desandou.
A casa virou um campo minado. Rosinha inventava chilique atrás de chilique. Dona Zuleide alimentava o fogo, dizendo baixinho que não entendia por que Conceição tinha aceitado criar "essa aí". Roberto agia como se nada estivesse acontecendo. Conceição vivia entre dois fogos. Isabel foi ficando mais quieta a cada semana.
Um sábado de manhã, o filho mais velho de Conceição, Vinícius, dezessete anos, arrumou a mochila.
— Mãe, vou ficar um tempo lá com meu pai. Preciso estudar pro vestibular e aqui em casa é gritaria o dia inteiro.
— Vinícius!
— A Isabel também é sua filha, mãe, tanto quanto a Rosinha. Só que a Rosinha berra a casa toda como se tivessem enfiado goela abaixo uma coisa que ela não quer. Eu vou.
À noite, o telefone tocou. Era o primeiro marido de Conceição.
— Ceição, o que tá acontecendo? Por que o menino saiu de casa?
— Ele te incomoda? Manda ele voltar pra cá então.
— Não, é só que fiquei curioso.
— Resolve teus próprios problemas.
Vadim — quer dizer, Roberto — ficava calado. Passava a bola sempre pra ela.
— Faz tempo que não vejo o Vinícius.
— Sério? E não é curioso que ele já tá morando um mês na casa do pai dele? Você não vê o que tá acontecendo aqui dentro?
— Não, o que foi?
— Nada. Absolutamente nada. Vai falar com as suas filhas.
— O quê? A Isabel fez alguma coisa?
— Você só tem uma filha, Roberto? E sim, com a Isabel também precisa conversar. Fala pra ela que você gosta dela, que ela não tá sozinha nesse mundo. E a Rosinha berra o dia inteiro que já nem aguento mais.
— Ceição, isso é… coisa de mulher, não é?
— Como assim coisa de mulher? Você trouxe a menina, largou ela aqui e sumiu! Ou você resolve isso, ou eu vou embora, viu bem, eu vou embora dessa casa.
Roberto foi até o quarto de Rosinha. A menina, ao ver o pai, pulou no pescoço dele e, olhando de rabo de olho pra Isabel, mostrou a língua:
— Aí ó, vira-lata, mãe que abandonou. Pai, não gosta da Isabel, não chama ela de filha, só eu sou sua filha.
— Rosinha, que isso, minha filha?
— Ela é ruim, a mãe dela largou ela, ela veio se enfiar aqui, vira-lata, ninguém quer ela.
— Rosinha! Ela é sua irmã!
— Não é! — a menina bateu o pé outra vez, e o choro voltou.
Roberto olhou pra Conceição sem saber o que fazer.
— Viu? — disse Conceição. — Viu como é, todo dia assim? E você fica de boca calada, fingindo que não vê nada.
— Isso é coisa da sua mãe, ela que fica cutucando a Rosinha.
— Sério? Minha mãe? E você, o pai, por que não conversou com nenhuma das duas? Olha pra Isabel, ela tá definhando. Eu não posso nem chegar perto dela que a Rosinha começa a gritar. Faz alguma coisa, Roberto!
Foi Roberto quem ligou pra irmã naquela mesma tarde.
— Alô, Taninha? É o Beto. Escuta, dá pra você ficar com a Isabel um tempo? Não sei… até ela terminar o colégio, talvez.
Ele foi buscar Isabel na casa de Marisa, que na história virou "Taninha" pra irmã caçula dele — Titia Marisa continuava sendo quem cuidava dela nos intervalos. Beijou a testa da filha, enfiou um urso de pelúcia nas mãos dela e voltou correndo pro carro, batendo a porta.
Depois disso o telefone tocou de novo, dessa vez era a própria Marisa, ligando pra Conceição:
— Ceição… eu entendo, viu, criar filho dos outros não é fácil. Mas o seu filho de sangue ele criou como se fosse dele. Não sei nem por que liguei. Já falei com meu irmão, agora vou falar com você: vocês dois são covardes. Não quero mais ver vocês. Esqueçam que a gente já teve uma relação boa.
Isabel foi morar na casa da tia Marisa, num bairro perto do Alto da Serra, com o marido dela, seu Nelson, e a prima Carol.
***
Passaram-se onze anos.
Isabel tinha dezoito, estava no último ano do colégio técnico, prestes a prestar vestibular pra Enfermagem. Numa tarde de dezembro, quente e úmida como só em Petrópolis costuma ficar antes de chover, Carol enfiou a cabeça na porta do quarto que as duas dividiam havia mais de uma década.
— Bel, vem brincar… quer dizer, vem ver o resultado com a gente, saiu a nota do Enem.
Isabel ficou sentada, olhando pela janela pro quintal onde o cachorro do vizinho latia pro nada, feito sempre fazia às cinco da tarde.
— Bel, você tá bem? — Marisa se agachou na frente da sobrinha.
— Tia Marisa… eu vou continuar morando aqui, né?
— Vai, sim, meu amor.
— E a Carol não vai ficar brava de eu ficar no quarto dela?
— Carol! Vem cá. Você se importa da Isabel continuar morando no seu quarto?
— Que isso, óbvio que não!
— A gente compra as coisas de vocês duas sempre dividido, tá bom?
— Que ótimo! Assim a gente tem o dobro de brinquedo!
— Como assim o dobro? — Marisa riu.
— Ué, tia, a Bel ganha uma boneca, eu ganho outra. Pra quê duas iguais?
Isabel sorriu também, mas por um segundo lembrou de Rosinha batendo o pé, exigindo a boneca idêntica à dela. Podia ter sido tão simples quanto Carol falava. Uma pena que ninguém tinha pensado assim antes.
O celular de Marisa tocou uma manhã de sábado, quando as duas primas estavam voltando da cozinha com o café.
— Mãe! — Isabel — que agora todo mundo já chamava assim, de tanto uso, mesmo sendo tia de sangue — apareceu na cozinha com o celular na mão, sorrindo. — Mãe, eu passei! Passei em Enfermagem, na UFRJ!
— Ai, minhas filhas, minhas meninas lindas! Nelson, você ouviu?
— Óbvio que ouvi! — o marido de Marisa riu, satisfeito. — Essas duas não pararam de falar a viagem inteira de carro.
O celular de Isabel tocou de novo. Ela atendeu sem olhar o número.
— Alô?
A expressão dela mudou na hora.
— Quem é?… Mãe?… Que mãe? Eu tô olhando pra minha mãe agora, ela se chama Marisa… Ah, é a senhora, a que me deu à luz. O que a senhora quer?
— Bel, quem é? — perguntou Carol.
— Ligaram no número errado.
— É o meu pai — Isabel disse pra tia, cobrindo o microfone com a mão. — Quer dar parabéns. E a Conceição também tá lá, perguntando de mim.
— Pode dar os parabéns então — Isabel deu de ombros, indiferente, e desligou logo depois. — Mãe, eu vou trocar de roupa.
Foi pro quarto que fora dela por onze anos — a cama, o guarda-roupa com adesivo de borboleta desbotado que colara ali aos oito anos, tudo aquilo era seu, era dela. Sentou na beirada da cama e as lágrimas começaram a escorrer, devagar, como as primeiras gotas grossas de chuva numa terra rachada de tanto sol.
Carol espiou pela porta e fechou de novo, com cuidado.
— O que foi? — perguntou Marisa.
— Ela tá chorando, mãe. Vou lá.
— Não, deixa que eu vou.
— Deixa a mãe ir, deixa — Nelson também segurava o choro. Um dia aquela menina o chamou de pai pela primeira vez, sem ninguém pedir.
Marisa entrou e sentou do lado dela.
— Filha…
— Mãe, por que fizeram isso comigo? Não é que fossem gente ruim, sabia? Não bebiam, brigavam pouco, se gostavam. E ela, minha mãe, ela me amava, eu lembro, tirava toda sujeirinha de mim, guardava as melhores coxinhas pra mim quando eu era pequena. E meu pai, vinha me buscar em todo aniversário, trazia presente, me enchia de beijo. Depois? O que aconteceu depois?
— Eu não sei, minha filha, às vezes acontece assim. Seu pai é bom, só que a gente ficou órfão cedo, ele e eu, e ele é só dois anos mais velho que eu, mas sempre me ajudou, sempre foi presente. Só que ele nunca aprendeu a resolver as coisas difíceis. Some, se afasta, quando o assunto complica. E sua mãe… aí eu não entendo mesmo, ela parecia gostar tanto de você. Era ela no telefone?
Isabel confirmou com a cabeça.
— Não vai perdoar ela?
— Ainda não consigo. Talvez mais pra frente.
— Tá certo.
A porta rangeu. Carol entrou também, sem pedir licença, e abraçou as duas. Ficaram um tempo assim, as três, sem dizer nada. Depois Nelson espiou pela porta, junto com o filho mais novo, Gabriel, de treze anos.
— E aí, mulherada, vamos almoçar ou não? Eu e o Gabriel tamo com a barriga roncando que nem cachorro do seu Osvaldo lá do lado.
— Ai, é mesmo — Marisa se levantou na hora, secando as mãos no pano de prato que trazia no ombro. — Já vou fazer.
— Quem chega primeiro no colo do papai? — Nelson abriu os braços, se abaixando um pouco, provocando as meninas.
— Eu! — gritaram as duas ao mesmo tempo, feito quando eram pequenas.
— Nada disso, eu! — Gabriel entrou correndo e pulou no pescoço do pai.
— Ai, seus doidos — Marisa balançou a cabeça, rindo — vão derrubar o coitado do seu pai.
— Quem ama mais a mamãe? — Nelson piscou pras crianças, e todo mundo avançou de boca estalando, fingindo beijo, na direção de Marisa.
— Saiam, seus bobos — Marisa riu de verdade — vamos comer, vai.
— Aeee, comida! Bendita seja a mulher que nos alimenta! — brincaram todos, rindo, indo pra cozinha.
***
Naquela mesma tarde, depois do almoço, Isabel entrou de novo no quarto, dessa vez sozinha. Abriu a gaveta de baixo da cômoda e pegou uma pasta plástica azul, meio surrada, que Marisa tinha organizado desde que ela chegara ali com onze anos: boletim escolar, foto do rosto pra RG, e uma cópia do termo de guarda que Roberto tinha assinado em cartório, cedendo a guarda de fato pra irmã.
Isabel abriu o celular, achou o número de Roberto e escreveu uma mensagem — não ligou, escreveu, porque não queria ouvir a voz dele fingindo surpresa.
"Pai, obrigada pelos parabéns. Vou usar a bolsa de moradia estudantil da UFRJ e ficar registrada com endereço da tia Marisa, oficialmente, pra tudo — escola, médico, documento. Ela é quem cuidou de mim, é justo que conste assim no papel também. Não precisa se preocupar com pensão nenhuma a partir de agora, eu me viro. Boa tarde."
Mandou. Guardou a pasta de volta na gaveta.
Do outro lado da cidade, em Teresópolis, Roberto leu a mensagem sentado na varanda, o telefone brilhando na penumbra do fim de tarde. Ficou olhando pra tela um bom tempo, sem saber o que responder. Rosinha, agora com dezoito anos também, entrou na sala e viu o pai calado, olhando pro nada.
— Pai, o que foi?
Ele não respondeu na hora. Só desligou a tela do celular e ficou olhando o quintal escurecer.
