— Tu não sabias mesmo? — perguntou Marta, baixinho para não acordar as crianças. — Não sabias que a tua mãe ia querer „apanhar ar” e que a tia Lurdes ia levar meia arrecadação para a aldeia? Não sabias que nós também tínhamos planos?
Ricardo ficou parado na cozinha, com as chaves ainda na mão.
Eram quase dez da noite. As crianças dormiam, finalmente. O pequeno Tomás tinha chorado de cansaço no parque. Inês, a mais velha, repetira várias vezes:
— O pai prometeu.
Marta tinha uma dor de cabeça que parecia morar-lhe atrás dos olhos.
O carro comprara-o ela. Um carro pequeno, usado, vermelho, pago com economias e alguma coragem. Durante anos, Marta fizera o caminho para o trabalho de autocarro, metro e mais uma caminhada. Com chuva, calor, compras, mochilas das crianças e a sensação de que o dia já estava gasto antes de começar.
Ricardo apoiou a decisão.
— Vai facilitar-te a vida.
Facilitou.
Durante duas semanas, Marta sentiu-se quase dona do próprio tempo. Deixava Tomás na escola, Inês nas aulas, chegava ao trabalho sem correr e voltava com energia para ouvir os filhos.
Depois a sogra ligou.
— Ricardo, já que agora têm carro, levam a tia Lurdes à aldeia. É só uma coisinha.
A coisinha era um colchão, caixas de frascos, roupas velhas, vasos, uma mesa desmontável e a própria sogra, que resolveu ir „passear”.
Marta lembrou que tinham prometido às crianças uma tarde no parque.
— Vou e volto já — disse Ricardo.
Não voltou.
Enquanto Marta geria filas, birras, gelados derretidos e uma filha magoada, Ricardo descarregava coisas na aldeia. Depois houve café. Depois conversas. Depois a mãe dele disse:
— A Marta está com eles. Que se lembre que é mãe.
Ricardo repetiu a frase em casa, tentando explicar o atraso.
Foi aí que Marta deixou de tentar parecer calma.
— Então para a tua mãe eu sou isto? A pessoa que fica com as crianças enquanto todos fazem o que querem?
— Ela não quis dizer assim.
— Quis. E tu deixaste.
Ele baixou a cabeça.
— Desculpa.
— Eu não quero apenas desculpas. Quero que entendas que o meu carro não é um serviço gratuito para a tua família. Comprei-o porque estava exausta. Porque precisava de tempo. Porque eu também existo.
No dia seguinte, a sogra ligou outra vez.
— No sábado precisamos levar um armário pequeno.
Ricardo atendeu.
— Não podemos, mãe.
— Como não podem?
— Temos planos. E o carro da Marta não é para transportar tudo o que vos apetece.
— Foi ela que te virou contra mim?
Ricardo respirou fundo.
— Não. Fui eu que percebi tarde.
A sogra apareceu naquela tarde, indignada.
— Família ajuda família!
Marta respondeu:
— Família pergunta antes. Família não transforma o descanso de uma mãe em obrigação dos outros.
Ricardo ficou ao lado dela.
— Mãe, eu ajudo quando puder. Mas não vou continuar a falhar aos meus filhos para evitar que fiques ofendida.
A partir daí, as coisas mudaram devagar. Houve comentários, silêncios, queixas. Mas também houve limites. A tia Lurdes arranjou um vizinho com carrinha. A sogra aprendeu que „não” não era falta de amor.
No domingo seguinte, foram à praia. Ricardo preparou as sandes, Marta conduziu, as crianças cantaram desafinadas no banco de trás.
Ao fim da tarde, sentados na areia, Ricardo disse:
— Eu pensava que estava a ser bom filho.
— E estavas a esquecer-te de ser bom marido.
— Não quero esquecer outra vez.
Marta olhou para o carro estacionado ao longe.
Pequeno, riscado, comum.
Mas para ela era enorme.
Porque naquele carro cabia algo que ela quase tinha perdido: o direito de escolher para onde ia o seu tempo.
