O ramo que chegou a tempo

 

No autocarro para a estação de Santa Apolónia havia apenas um lugar livre, junto à janela, ao lado de um homem idoso com um sobretudo gasto. O colarinho estava puído, as mãos eram finas, e no colo levava um ramo de crisântemos brancos preso com um fio simples.

Marta sentou-se ao lado dele. Trazia a mala cheia de documentos, a cabeça cheia de trabalho e aquela vontade de chegar a casa sem falar com ninguém.

Mas o homem olhava para o relógio de minuto a minuto.

Depois ajeitava as flores.

— Vai a uma festa? — perguntou Marta.

Ele sorriu, envergonhado.

— Vou encontrar uma pessoa. Se chegar a tempo.

Chamava-se António. E contou-lhe a história de Teresa.

Tinham crescido na mesma rua, em Santarém. Ela gostava de crisântemos brancos porque dizia que eram flores sérias, flores que não prometiam mais do que podiam dar. Ele oferecia-lhos quando podia. Depois foi para a tropa. Escreveu-lhe cartas durante meses. As dela chegaram no início, depois desapareceram.

António pensou que Teresa se tinha cansado de esperar. Quando voltou, ela já vivia noutra cidade. Disseram-lhe que casara.

Ele também casou. Teve uma vida digna, uma mulher boa, filhos criados. Mas havia nomes que não se deixam de saber só porque a vida continua.

A esposa morreu há cinco anos. E na semana anterior, um antigo colega encontrou-o nas redes sociais.

“Teresa está viúva. A mãe dela escondeu as vossas cartas. Ela pensou que foste tu que a esqueceste.”

António ficou acordado até de manhã.

Teresa passava naquele dia por Lisboa. O comboio parava poucos minutos. Era talvez a única hipótese de não morrerem os dois com uma mentira entre eles.

Então o autocarro parou.

O motorista anunciou um desvio por causa de um acidente. Atraso imprevisível.

António ficou imóvel.

— Não vou chegar.

Marta olhou para ele.

— A que horas parte o comboio?

Ele disse a hora.

Faltavam treze minutos.

Marta levantou-se.

— Venha.

— Não posso correr.

— Então vamos de táxi.

Pediu ao motorista que abrisse a porta. Ele recusou primeiro, preso às regras. Marta apontou para o ramo.

— Há atrasos que custam mais do que uma multa.

O motorista suspirou e abriu.

Ela chamou um táxi pela aplicação e ajudou António a entrar.

— Santa Apolónia. Rápido, por favor.

— Menina, eu pago-lhe — disse António, aflito.

— Pague chegando.

Marta chegou tarde ao escritório. O chefe olhou para ela com desaprovação. Ela pediu desculpa, mas não se sentiu culpada.

À hora de almoço recebeu uma mensagem.

Na fotografia, António estava numa plataforma da estação. Ao lado dele, uma mulher de cabelo branco segurava o ramo de crisântemos. Não sorriam como jovens. Sorriam como pessoas que acabavam de descobrir que a vida ainda lhes devia uma conversa.

A mensagem dizia:

“Cheguei. Teresa disse: ‘Pensei que me tinhas esquecido.’ Eu disse: ‘Pensei o mesmo de ti.’ Ficámos calados e chorámos. Amanhã vamos tomar café. Obrigado, Marta. Hoje não pagou uma viagem. Devolveu-nos a verdade.”

Marta leu aquilo no meio do ruído do escritório.

E pensou que o mundo está cheio de pessoas sentadas ao nosso lado, transportando histórias enormes em silêncio.

Às vezes, para salvar uma delas, basta abrir uma porta e chamar um táxi.

 

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Odissea
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