— Senhora, sabe se o autocarro para a aldeia já passou?
Helena Figueiredo ergueu os olhos do banco da paragem. Diante dela estava um homem de mais de cinquenta anos, ofegante, com casaco de trabalho, fato de treino e uma mala velha ao ombro. Tinha bigode e um ar simples demais para o gosto dela.
— Não sei — respondeu.
— Mas está à espera do autocarro?
— Não estou à espera de nada.
A frase saiu seca, mas ficou dentro dela a doer.
Helena morava a dois prédios dali, em Braga. Saíra de casa porque o silêncio se tornara insuportável. Toda a vida vivera sozinha e sempre gostara disso. Trabalhara como contabilista no restaurante „Século Dourado“ durante trinta e dois anos. Casamentos, batizados, aniversários, música, empregados a correr, cheiros de cozinha. Nunca lhe faltara mundo.
Depois veio um novo dono, cheio de palavras modernas, e disse que ela não acompanhava os novos tempos. Reformaram-na antes de ela se sentir velha.
No início pareceu liberdade. Depois pareceu vazio.
O homem sentou-se.
— Perdi-o. Durmo aqui até de manhã.
— Na rua?
— Moro longe. Táxi à noite para lá é uma fortuna.
Abriu a mala.
— Quer uma sandes? Fiambre e queijo. Está fresca.
— Não aceito comida de estranhos.
— Então deixo de ser estranho. Sou Manuel. Trabalho na segurança. Antes era metalúrgico. A fábrica fechou. A minha mãe está velha, precisa de remédios, e eu vou fazendo turnos.
Helena quis manter distância, mas a fome venceu. A sandes era simples e maravilhosa. Manuel serviu chá doce de um termo.
— A senhora chama-se?
— Helena.
— Nome bonito. Nome de quem não devia estar sentada a dizer que não espera nada.
Ela ficou calada.
Falou-lhe do restaurante. Ele falou da mulher que partira, do filho distante, da mãe teimosa. Havia nele uma bondade sem pedido, e isso desarmava.
— Mora longe? — perguntou ele.
— Ali.
— Então vá para casa. Está frio.
Ele preparou-se para ficar na paragem. E foi por isso que ela disse:
— Venha. Tenho um sofá na cozinha. Mas aviso: tranco o quarto e tenho um rolo da massa pesado.
Manuel riu.
— Justo.
De manhã, Helena acordou com barulho. Ele arranjava o autoclismo.
— Pingava. Pode ser que mereça pequeno-almoço.
Helena sorriu.
— Ovos mexidos?
— Com café, é banquete.
Ficou até ao turno seguinte. Depois voltou para arranjar a máquina da roupa. Depois para trazer maçãs da mãe. Depois porque a casa de Helena já não parecia completa sem o som da chave dele.
Ela cozinhava como no restaurante. Manuel beijava-lhe as mãos.
— Heleninha, acho que não perdi o autocarro. Acho que encontrei a paragem certa.
Hoje vivem juntos. Visitam a mãe dele, que disse:
— Finalmente alguém faz o meu Manuel comer como deve ser.
Helena ainda passa por aquela paragem. Às vezes senta-se com Manuel e dividem uma sandes.
Porque há noites em que pensamos que não esperamos nada.
E é precisamente nessas noites que a vida se atrasa de propósito para nos encontrar.
