Felicidade Pura: os 300 mil que Renata tentou herdar de um pai vivo

Eu ouvi minha mulher dizer que meu sogro tinha morrido enquanto ele estava sentado dois metros atrás de mim, mexendo café. Vou contar como isso aconteceu, porque quem só ouviu a versão da Renata acha que eu sou um monstro — e a coisa foi bem diferente do que ela andou espalhando pra tia dela em Curitiba.

Meu nome é Diego Fontoura, tenho quarenta e um anos, sou corretor de imóveis em Florianópolis. Casado com a Renata há treze anos. O pai dela, seu Osvaldo, tinha uma oficina de motos ali no Estreito, perto do terminal, funcionando desde 1994. Uma quinta-feira de julho, seis e quarenta da manhã, frio de arrepiar — desses que só acontecem na Ilha, com neblina grudada no asfalto —, minha cunhada Débora ligou pra Renata. Eu estava na cozinha, de cueca e camiseta, esquentando pão de queijo congelado, ouvindo tudo porque Renata sempre atende no viva-voz enquanto escova o cabelo.

— Nosso pai morreu de madrugada — disse Débora, sem chorar, sem gaguejar. Falou do jeito que se fala "acabou o leite".

Eu larguei o pote de café. No fundão do corredor, seu Osvaldo — que estava hospedado com a gente havia dois dias, porque tinha feito uma cirurgia de catarata e não podia ficar sozinho — tossiu. Ele estava vivo. Bem vivo. Comendo o pão de queijo que eu tinha acabado de tirar do micro-ondas, na verdade, roubando da minha xícara.

Preciso explicar uma coisa antes de continuar: seu Osvaldo tinha um sócio antigo, o Nivaldo Preta, dono de um despachante que ficava três portas abaixo da oficina. Os dois se conheciam desde os tempos de Exército. Foi o Nivaldo quem, dias antes, tinha ligado avisando que ia "regularizar uns papéis" da oficina — e foi essa informação truncada que virou, na boca de Débora e do marido dela, a desculpa perfeita pra história.

Renata continuou no telefone, séria.

— Como assim morreu? — perguntei, baixinho, puxando a manga da camiseta dela.

Ela tampou o microfone com a mão.

— Fica quieto, Diego.

Voltou pra ligação:

— Débora, o que aconteceu?

— Ele passou mal de madrugada. O Nivaldo achou ele. — A voz dela era plana, sem emoção nenhuma, do jeito que a gente fala quando está mentindo e treinou a frase.

Do outro lado, ouvi uma risada. Era o Ronaldo, marido da Débora — cunhado que eu nunca engoli, corretor de seguros fracassado que vivia pedindo emprestado. Ele riu alto, satisfeito, do tipo de riso que a gente dá quando ganhou na loteria.

Seu Osvaldo parou de mastigar. Olhou pra mim. Eu olhei pra ele. Nenhum dos dois disse nada, porque ainda estávamos tentando entender por que a filha dele estava anunciando a morte dele por telefone enquanto ele passava manteiga no segundo pão de queijo.

— A gente já resolveu tudo com a corretora de imóveis — continuou Débora. — Vocês nem precisam vir na oficina.

Seu Osvaldo empurrou o prato pro lado, devagar.

— Vamos trocar a fechadura da oficina hoje de manhã — ela disse. — E já fui no cartório ontem à tarde com uma procuração, tá tudo registrado.

Silêncio na cozinha. Só o ronco da geladeira.

— Por que trocar fechadura, Débora? — Renata perguntou, com a voz meio embargada agora, apertando a franja do avental.

— Porque achamos os documentos do papai. Ele deixou a oficina pra gente. A conta poupança também. O Honda Civic. Tudo.

Seu Osvaldo cravou os olhos na parede.

— E você — Débora falou — ficou de fora. Foi expressamente excluída.

Ronaldo gritou de fundo, quase cantarolando:

— Fala pra ela que finalmente a família se livrou do peso morto!

Aquilo doeu mais do que eu esperava — não em mim, em Renata. Fazia anos que Débora contava pra família inteira que a irmã "sumiu depois que casou", como se ligar todo domingo, levar o pai no oftalmologista em Palhoça, pagar a cirurgia de catarata do próprio bolso — quatro mil e duzentos reais, parcelados em seis vezes no cartão — não contasse pra nada.

Renata não retrucou. Só olhou pra mim, e eu olhei pro sogro, e o sogro olhou pro celular em cima da mesa, do lado do açucareiro de vidro que a falecida esposa dele tinha comprado numa loja de louças no centro, décadas atrás.

Seu Osvaldo pegou a xícara. Bebeu um gole. Pousou de volta na mesa — um clique seco, quase silencioso, que ninguém do outro lado da linha ouviria, mas que fez um arrepio subir minha nuca. Eu conhecia aquele homem havia treze anos. Ele gritava raro. Quando ficava mudo desse jeito, era pior.

— A gente já chamou um avaliador pra ver o valor da oficina — Débora prosseguiu, animada. — E amanhã vamos no banco resolver a poupança.

— E a casa dele? — Renata perguntou, engolindo em seco.

— Também é nossa agora. Aliás — a voz de Débora ficou quase alegre — deve ter umas coisas suas ainda no quarto de hóspede. Vou botar numa caixa e deixar na garagem.

— Que gentileza — Renata falou, sem nenhum tom de gentileza na voz.

Débora não percebeu a ironia.

— Sabia que você ia entender.

Seu Osvaldo moveu os lábios, sem som: "Entender?"

Ronaldo tomou o telefone.

— E outra coisa, Renata: não vem com procurador atrás de herança que não é sua. Débora é a mais velha, ficou perto do pai, cuidou dele. Ela merece.

Seu Osvaldo recostou na cadeira, os braços cruzados.

— Vocês fizeram a escolha de vocês há muito tempo, quando se mudaram pra Ilha — Ronaldo continuou. — O papai de vocês sabia muito bem quem realmente gostava dele.

Foi essa frase — sobre um pai que estava vivo, sentado ali com farelo de pão de queijo grudado no bigode branco — que fez o rosto dele mudar de vez. Não ficou triste. Ficou frio. Eu já tinha visto aquele semblante duas vezes na vida: uma quando um funcionário roubou peças da oficina, outra quando um vizinho tentou construir invadindo o terreno dele. Nas duas vezes, quem provocou aquilo se arrependeu amargamente depois.

Estendi a mão pro celular, pronto pra desligar. Seu Osvaldo me segurou o pulso. Balançou a cabeça. Apontou pro peito.

— Quer falar? — perguntei, baixinho.

Ele assentiu.

Do outro lado, Débora insistia:

— Renata? Ainda tá aí?

— Tô — Renata respondeu, com a voz mais firme do que eu esperava.

— Então entenda de uma vez: papai decidiu. Agora tudo é nosso, meu e do Ronaldo.

Ronaldo riu de novo:

— Finalmente!

Seu Osvaldo levantou da cadeira. Amarrou o cordão do robe azul-marinho que a esposa tinha comprado num camelô da Beira-Mar, ainda em 2009, e contornou a mesa. Débora continuava falando — sobre o inventário, o funeral, o Civic, a conta poupança, tudo que ela achava que tinha herdado de um homem que naquele exato instante estava caminhando descalço pelo piso frio da minha cozinha, na direção do celular.

Ele se inclinou sobre o viva-voz. Ronaldo ainda ria quando seu Osvaldo, com uma calma que eu nunca tinha visto nele, disse:

— Débora, meu bem, é o pai aqui. E eu tenho uma pergunta bem simples: onde você conseguiu essa procuração que você registrou ontem à tarde? Porque eu não assinei nada.

A ligação ficou muda por três segundos inteiros. Só dava pra ouvir o pisca-alerta do carro de Débora, ainda ligado.

— Pai? — a voz dela saiu fininha, quase um pio.

— Sou eu — ele confirmou. — Vivo, tomando café na casa da Renata, onde estou desde terça-feira por causa da cirurgia que você nem perguntou como foi.

Ronaldo tinha parado de rir.

Seu Osvaldo continuou, sem levantar a voz, o que era pior do que gritar:

— Amanhã cedo eu vou pessoalmente na oficina com o Nivaldo, que aliás está me ajudando a formalizar a doação da parte dele pra mim, não o contrário. E vou trazer um advogado. Se vocês trocaram a fechadura da minha oficina com base num documento falsificado, isso não é herança, filha. Isso é estelionato e falsidade ideológica, e eu vou registrar boletim de ocorrência hoje ainda.

Débora começou a chorar — chorar de verdade, agora, coisa que não tinha feito quando "anunciou" a morte dele.

— Pai, a gente só…

— Vocês trocaram fechadura de um estabelecimento que dá emprego pra seis pessoas achando que eu tinha morrido. E o seu marido riu. Eu ouvi. Rir porque achou que se livrou de mim.

Ronaldo tentou emendar alguma coisa, gaguejando, mas seu Osvaldo já tinha esticado o braço e cortado a ligação com o dedo, sem pressa nenhuma.

A cozinha ficou em silêncio. Lá fora, a neblina começava a clarear em cima do canal, e o rádio do vizinho tocava baixinho uma repescagem do Furacão da Copa do Brasil da noite anterior. O cachorro dos vizinhos, um vira-lata chamado Bidu, latiu pra alguma coisa no quintal e parou.

Seu Osvaldo se sentou de volta, serviu mais café pra ele mesmo — e, dessa vez, pra mim também, num gesto quase automático, como se nada tivesse acontecido.

Três semanas depois, ele foi com o advogado — doutor Anselmo, do escritório perto da Catedral Metropolitana — até o cartório de registro de imóveis e revogou formalmente a procuração fraudada, além de registrar boletim de ocorrência contra o genro por falsificação de documento. A oficina, avaliada em trezentos e dez mil reais, ele transferiu por escritura pública direto pro nome do Nivaldo e meu, sócios de fato, deixando por escrito que Débora e o marido dela ficavam de fora de qualquer participação futura. Levou a papelada pessoalmente pra assinar, numa manhã de terça, com a pasta de plástico transparente debaixo do braço e os óculos novos, os que ele tinha acabado de conseguir enxergar direito depois da cirurgia.

Renata nunca mais falou com a irmã. Débora ligou umas quatro vezes nos meses seguintes, sempre caindo na caixa postal. Da última vez, deixou um recado dizendo que "só queria conversar, sem rancor". Seu Osvaldo, quando soube, só balançou a cabeça e voltou a arrumar as ferramentas na bancada da oficina — a mesma bancada que quase virou de outra pessoa, por causa de um papel que ele nunca assinou.

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Odissea
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