Sem problema

Enviei a mensagem para o grupo da família quando o avião ainda se movia na pista em Lisboa.

„O meu voo aterra às cinco. Alguém me pode ir buscar?”

Eu voltava de enterrar o meu marido em França. Não trazia lembranças de viagem. Trazia duas malas com as roupas do homem com quem tinha partilhado doze anos de vida.

O Miguel morreu em Marselha, de repente. Uma hemorragia no cérebro. Médicos, papéis, consulado, uma cerimónia pequena num cemitério que não dizia nada a nenhum de nós. Eu fiquei ao lado da campa sozinha.

O meu irmão respondeu primeiro.

„Hoje está complicado. Chama um TVDE.”

A minha mãe escreveu logo a seguir:

„Devias ter combinado isso antes. Sabes que às terças temos muita coisa.”

Como se a morte do Miguel tivesse sido uma falta de organização minha.

Respondi:

„Sem problema.”

Na zona das bagagens, uma mala caiu do carrinho e abriu-se. Camisas, gravatas, o casaco cinzento dele, a máquina de barbear. Tudo espalhado no chão. Ajoelhei-me para recolher as coisas, com as mãos a tremer.

Uma funcionária do aeroporto veio ajudar-me.

— Não tenha pressa.

A minha família vivia a quarenta minutos.

Fui para casa de carro, a olhar a chuva nas janelas. O motorista levou as malas até à porta do prédio. Perguntou se eu precisava de ajuda para subir. A pergunta quase me desfez.

O apartamento no Porto estava escuro. Deixei as malas à entrada e sentei-me no cadeirão do Miguel. Não acendi a luz. Queria apenas respirar no lugar onde ele costumava ler.

Não sabia que havia uma fuga de gás no esquentador da cozinha.

A dor de cabeça pareceu normal. O enjoo também. Tinha chorado, voado, passado dias sem dormir. Quando tentei levantar-me, caí.

O alarme que Miguel instalara antes da viagem salvou-me. Estava ligado ao telemóvel da vizinha Dona Teresa, porque ele dizia sempre que „segurança a dobrar nunca fez mal”. Ela recebeu o aviso, chamou os bombeiros e abriu a porta com a chave suplente que eu lhe dera meses antes.

Houve sirenes. Gente no corredor. Uma ambulância. Pela manhã, uma estação local fez reportagem sobre a viúva que regressara sozinha do funeral do marido e fora salva pela vizinha.

Autorizei que mostrassem as mensagens sem nomes.

À noite, a minha família viu no ecrã:

„Alguém me pode ir buscar?”

„Chama um TVDE.”

„Devias ter combinado isso antes.”

A minha mãe telefonou a chorar.

— Não sabíamos que estavas em perigo.

— Sabiam que eu vinha do funeral do Miguel.

O silêncio dela foi a primeira resposta honesta daquele dia.

O meu irmão apareceu no hospital com flores. Pedi-lhe tempo. Não para o castigar, mas porque eu já não conseguia carregar a culpa dele além da minha dor.

Meses depois, vendi o apartamento. Levei comigo os livros do Miguel, a chávena dele e o alarme, que agora está instalado na minha casa nova. Dona Teresa continua com uma chave. A funcionária do aeroporto enviou-me um postal. Guardei-o.

A família pediu desculpa.

Talvez um dia a ferida feche.

Mas nunca mais esqueci que, no pior dia da minha vida, quem apareceu foram pessoas que não tinham obrigação nenhuma.

E talvez seja isso que torna a bondade tão verdadeira.

 

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: