Acordei naquele sábado com o estômago embrulhado antes mesmo de abrir os olhos. Sessenta anos da minha sogra. Sessenta. E eu sabia exatamente o que me esperava na cozinha.
O relógio marcava sete e meia quando o Toinho me cutucou.
— Levanta, Neide. Minha mãe já tá de pé desde as seis. Você sabe como ela fica.
Fiquei mais um minuto olhando pro teto, pro ventilador de teto que range desde que me mudei pra essa casa, há nove anos. Aquele ranger. Todo santo dia. Como a voz da dona Yara — constante, presente, dizendo onde cada coisa deveria estar.
Na cozinha, ela já estava posta. Vestido azul-marinho, cabelo armado, o batom vermelho que só usava em data especial. Sessenta anos bem vividos, como ela mesma dizia. E bem comandados.
— Bom dia, minha filha — ela falou sem tirar os olhos do caderno de capa dura que estava aberto em cima da mesa. — O Toinho te acordou? Falei pra deixar você descansar.
Menti com um sorriso curto. Fui até a pia, enchi a chaleira. O gás acendeu com aquele estalo seco. Dona Yara continuou passando o dedo pela lista, conferindo alguma coisa.
— Sessenta anos, Neide. Precisa ser perfeito. Chamei a família toda. A tia Zilda vem de Jundiaí. O pessoal da igreja confirmou. Ah, e o padre Roberto.
Coloquei o pó de café no coador e esperei a água chiar. Toinho entrou na cozinha descalço, cabelo molhado, abotoando a camisa. Beijou a mãe no topo da cabeça.
— Parabéns, mãe. Sessentinha, hein? Tá nova.
Ela deu um tapinha na mão dele, mas não sorriu de verdade. Os olhos continuavam na lista.
— Senta aqui, meu filho. Deixa eu te mostrar o que planejei.
Toinho se sentou. Eu continuei de pé, encostada no balcão, esperando o café. Já sabia o que vinha.
— Olha, eu dividi tudo por horário — ela abriu o caderno na nossa frente. A letra dela, redonda e apertada, cobria cada linha sem deixar um centímetro. — Às nove, montar as mesas. Às dez, receber as flores. Ao meio-dia, almoço leve pra família próxima. Às três, começar a organizar a cozinha. Às cinco, os convidados começam a chegar.
Ela fez uma pausa. Fechou o caderno e olhou pra mim.
— Você fica responsável pela cozinha, minha filha. Eu não vou passar o dia inteiro na frente do fogão no dia do meu aniversário, né? Tá aqui o menu.
Estendeu uma folha dobrada. Peguei sem olhar. Já sentia o papel entre os dedos, fino, quase transparente de tão amassado de tanto ser aberto e fechado.
— Mãe, a Neide também tem que se arrumar, né — Toinho tentou, com a voz baixa, aquele tom de quem já sabe que vai perder.
Dona Yara levantou a sobrancelha. Só isso. Uma sobrancelha.
— Meu filho, eu passei a vida inteira cozinhando pra essa família. Vocês vão me dizer que eu não mereço um dia de descanso? Sessenta anos. Sessenta, Toinho. Não é todo dia.
Toinho olhou pra mim. Aquele olhar que dizia "depois a gente conversa, por favor, não briga agora". Eu conhecia bem. Nove anos daquele olhar.
O café passou. Enchi duas xícaras, a dela e a minha. Dona Yara aceitou a dela sem agradecer, como se fosse o mínimo. Como se fosse o natural.
Abri a folha. Primeira linha: "Salgadinhos variados — 200 unidades, coxinha, bolinha de queijo, quibe." Segunda: "Torta de frango — 2." Terceira: "Torta de palmito — 1." E ia descendo. Farofa, arroz branco, maionese de batata, pernil assado, frango ao molho. Doze itens. Doze.
— Tá tudo aí — dona Yara deu um gole no café. — Comprei as coisas ontem, tá na geladeira e na despensa. Agora é só executar.
Só executar. Como se fosse só.
— Dona Yara — comecei, dobrando a folha de volta ao meio — a senhora me desculpa, mas a senhora tem noção do trabalho que dá dar conta disso tudo sozinha? Enquanto a senhora recebe os convidados, eu fico trancada na cozinha?
Ela parou o café no meio do gole. A casa ficou quieta. Só o ventilador rangendo.
— Sozinha? Que sozinha, minha filha? A Cleusa chega às duas.
A Cleusa. A diarista que dona Yara chamava uma vez por mês pra "ajudar na manutenção". Setenta reais a diária. Eu sabia porque era eu quem pagava, e dona Yara achava caro, e mesmo assim era eu quem passava a manhã inteira atrás da mulher pra confirmar se ela vinha ou não.
— Mãe — Toinho tentou de novo, mexendo a xícara sem erguer os olhos — a gente podia chamar a Déia, aquela moça que faz salgados lá da rua de cima. Ela entrega tudo pronto, vem embrulhadinho. A gente só esquenta e serve.
Foi como se ele tivesse cuspido no chão.
— Toinho! — a voz dela saiu fina, ofendida. — Você tá me dizendo que a minha nora não vai conseguir cozinhar pro meu aniversário? Salgado comprado? Comida de loja? No meu aniversário?
— Mãe, não é isso…
— É isso sim. Você tá dizendo que a sua mulher não pode fazer o mínimo. Eu não pedi nada demais. Só o que tá na lista. Só uma comidinha feita em casa.
Uma comidinha. E a lista tinha doze pratos pra quarenta pessoas.
Fiquei calada. Toinho me olhou de novo, o mesmo olhar, e desta vez eu não devolvi. Fiquei olhando pro caderno de capa dura fechado na mesa. Embora parecesse parada, minha mente calculava: três quilos de farinha, seis quilos de frango, vinte ovos, quatro horas de forno aceso no calor de fevereiro. Com as janelas da cozinha fechadas porque dona Yara não gostava de corrente de vento.
— Dona Yara — falei depois de um tempo. Minha voz saiu tão calma que até eu me assustei. — A senhora quer que eu cozinhe. Tá bom. Mas a senhora vai me deixar comprar metade pronto.
Ela soltou uma risada curta, como se eu tivesse contado uma anedota.
— Você tá brincando comigo, minha filha. Tá brincando. No dia do meu aniversário, a minha cozinha vai ficar cheirando a salgado de loja? O que vão pensar da minha família?
Toinho se levantou. Pegou a chave do carro do gancho.
— Vou estender as mesas no quintal — disse, fugindo da conversa pela porta dos fundos.
Eu fiquei. Eu e dona Yara. E a lista.
Quando ele saiu, ela se levantou, pegou a xícara, levou até a pia e depositou no escorredor, ao lado da minha. Sem enxaguar.
— Minha filha, eu tive que fazer isso por muitos anos. Muitos. Você acha que eu gostava? Mas quando a sogra da gente pede, a gente faz. A gente dá conta. É assim que funciona.
E saiu da cozinha, arrastando as chinelas pelo piso frio.
Passei a manhã na cozinha. Piquei cebola. Muita cebola. Chorei, e nem deu pra separar o que era da cebola e o que era meu. Toinho voltou pra me ajudar, mas eu mandei ele cuidar das mesas. Não era com raiva. Era com um cansaço tão fundo que eu não queria nem conversa, pra não falar o que não devia.
Às três e meia, com a casa cheirando a alho e frango, a campainha tocou. Dona Yara usou a voz alta, a voz de aniversariante:
— As visitas chegando!
Os convidados vieram em levas. Todos perfumados, sorridentes, dando beijinhos e abraços na aniversariante no corredor da entrada. Eu fiquei na cozinha, recolhendo as formas, queimando as pontas dos dedos em marias-moles que não saíam do papel.
A Cleusa não apareceu.
Não me surpreendeu. No fundo, nunca me surpreendeu.
Às seis, ouvi os primeiros parabéns. O coro, desafinado e caloroso, vinha da sala. Toinho entrou na cozinha, me viu no meio do vapor, com as mãos vermelhas e o cabelo suado.
— Neide…
— Leva a torta — respondi, apontando pra assadeira em cima do pano dobrado. — Completa. Faz um favor e coloca na mesa antes que esfrie de vez.
Ele pegou a assadeira. Ficou parado, sem coragem de falar o resto.
— Vai, Toinho.
Ele foi.
Eu larguei o pano de prato. Minhas pernas doíam. Meus dedos latejavam. Pela porta encostada, fui vendo as fatias de torta sumindo, os corpos passando, as conversas altas, as risadas. O ar condicionado da sala esfriava a festa. A cozinha fervia.
Então eu saí pelo portão lateral. Minha camiseta inteira suada, as marcas de farinha no short. Ninguém me viu. Fui direto pra floricultura da esquina, que fecha às sete.
— Moça, me dá um buquê.
— De quê? — perguntou a balconista, uma menina de cara cansada, guardando as cerâmicas da vitrine.
— De gérbera. Pode ser um maço daqueles ali, de vinte reais.
Peguei o buquê. Amarelo. Voltei pra casa pelo portão da frente. A festa estava no auge, e eu entrei na sala com as flores na mão, suja, com cheiro de fumaça do fogão.
Dona Yara, sentada na cadeira de aniversariante, me viu. O olhar dela passou de mim, para as flores, para a minha roupa. Os convidados foram silenciando, alguns sem entender, outros com aquele sorriso amarelo de quem percebe que tem alguma coisa errada.
— A comida acabou? — perguntou ela, baixando um pouco o tom. Como se fosse a única hipótese possível para eu estar ali.
— Não. As tortas estão na mesa. O pernil tá no forno. A maionese tá na travessa azul. Os doces, em cima da cômoda.
Fui me aproximando. O sapato de salto dela estalou no chão quando ela se ajeitou na cadeira, sem entender.
Parei na frente dela.
— Dona Yara. Vim trazer flores pra senhora. Vim parabenizar. Sessenta anos é uma data bonita.
A sala inteira em silêncio.
— A senhora passou os últimos nove anos me dizendo que tudo precisava ser do seu jeito. A casa. A cozinha. O jeito de segurar a colher. A roupa que eu uso. Como eu lavo o banheiro. Como eu arrumo a mesa.
Ela endureceu o queixo.
— Neide, isso não é hora…
— Pois é. Não é. Eu passei o dia inteiro cozinhando pro seu aniversário, e a Cleusa não veio. Não veio, como não vem nunca. E a senhora sabia que ela não vinha. Sabia. Porque toda vez ela falta, e toda vez sobra pra mim, e a senhora acha que tá tudo bem porque eu sou a nora.
Toinho se levantou da cadeira, veio andando com as mãos estendidas.
— Neide, pelo amor de Deus, não faz isso na frente da família…
— Senta, Toinho. A sua mãe tá ouvindo agora, porque depois ela finge que não ouviu.
Ele não sentou. Mas também não me segurou.
Eu estendi as flores. Ela não pegou.
— A senhora não quer comida de loja. Nem as flores da floricultura. Porque acha que só o que é feito em casa presta. Só o que eu me arrebento pra fazer. Pois eu vim avisar uma coisa.
Apóie o maço de gérberas no colo dela. As flores ficaram ali, metidas no azul do vestido, escandalosamente amarelas.
— Amanhã cedo, eu estou saindo dessa casa. Pras minhas irmãs, primeiro. Depois, pra onde for. Não aguento mais ser a que cozinha, a que limpa, a que paga e a que se desculpa. A senhora faz sessenta anos e me deixa a lista como se eu fosse sua empregada. Mas a senhora nunca me pagou salário nenhum.
A tia Zilda cobriu a boca com a mão.
— Então fica com seu aniversário. Fica com seu filho. E eu vou ficar com o que sobrou de mim, que ainda não é pouco.
Virei as costas. Atravessei a sala, os convidados abrindo espaço. Senti os olhares queimando na minha nuca. Ninguém disse uma palavra.
Toinho foi atrás de mim até a garagem.
— Você tá falando sério?
— Tô. Amanhã cedo eu levo minhas coisas.
— E o casamento?
Encarei ele. Toinho, com a camisa meia aberta, o cabelo ainda úmido de manhã, o homem que eu amei uma vida inteira. Capaz de lavar a louça escondido, de me defender quando a mãe não estava olhando. Mas nunca na frente dela. Nunca na hora da decisão.
— O casamento acabou no dia em que sua mãe me deu a lista, e você me pediu com os olhos pra eu aceitar.
Saí pela garagem.
Dei a volta no quarteirão com as pernas bambas. Fui até a praça da matriz. Sentei no banco de cimento, debaixo do ipê roxo, com o cheiro de gordura nos cabelos e uma gérbera solta que escapou do buquê e ficou dentro do meu bolso.
Fiquei lá até escurecer. Os vizinhos passavam, me cumprimentavam sem jeito, desviavam o olhar.
Quando cheguei em casa, a festa estava nos últimos convidados. Dona Yara não trancou o rosto quando entrei. Estava na cozinha, sozinha, guardando os restos dos salgados num pote de vidro. O mesmo pote onde ela guardava feijão.
Não trocamos palavra.
No dia seguinte, domingo, enchi minhas três malas. O buquê de gérberas, murcho, continuava na mesa onde estavam os parabéns. Ninguém teve coragem de jogar fora.
— Se você sair por aquele portão, não precisa mais voltar — disse dona Yara, parada na sala, de roupão.
— Pois era isso que eu ia dizer.
Saí.
Três malas, e a certeza de que nunca, nunca mais, ninguém me daria uma lista. Nem abriria a geladeira na minha casa sem ser convidado.
Dois meses depois, o Toinho me ligou.
— Mãe queria saber se você volta pro almoço do Dia das Mães.
Respirei fundo. Olhei pra minha cozinha nova, pequena, com a janela aberta e o vento entrando, do jeito que dona Yara nunca deixou.
— Não vou, Toinho. Nunca mais. Manda lembrança.
E desliguei.
Na gaveta, guardada debaixo das xícaras, ainda estava a lista. Dobrada duas vezes, com a letra apertada de dona Yara. Peguei o isqueiro da vela de aniversário que sobrou da festa, da caixa que tinha comprado pra cantar parabéns.
Queimei a lista na pia. As cinzas caíram no ralo, pequenas, frias.
Nunca mais me lembrei daquelas doze linhas. Mas o cheiro das gérberas amarelas, aquele, ficou.
