Eu não queria ir naquela festa. Já tinha avisado a Regina que ia chegar atrasado, que o sábado tava corrido, que o carro tava fazendo um barulho estranho. Nada colava. Regina é minha irmã mais velha, e quando ela decide uma coisa, nem trator tira da cabeça.
— Você vem e pronto. A festa é da minha nora, a Camila. Faz quarenta anos. Quarenta, entendeu? Não é brincadeira.
— Eu sei o que é quarenta, Regina.
— Então para de arrumar desculpa e vem.
A gente mora em Curitiba, ela no Portão, eu no Água Verde. Dez minutos de carro. Não era distância o problema. O problema é que a Camila e eu nunca nos demos bem. Desde o começo. Ela me olha como quem confere o troco na padaria: desconfiada, contando cada moeda. E eu, bom, eu também não faço questão de ser simpático.
Mas a Regina me criou. Depois que nossa mãe morreu, ela que segurava a minha mão pra atravessar a rua, que ia na reunião de pai no colégio, que esquentava a janta quando eu chegava da faculdade. Então quando ela pede, eu vou. Mesmo sendo aniversário da Camila.
O convite chegou pelo WhatsApp. Um card digital, todo dourado, com foto da Camila segurando uma taça de vinho. Embaixo, escrito com letra caprichada: *"Traga um presente que comece com a primeira letra do seu nome."*
Eu li três vezes. Depois ri. Depois mostrei pra minha esposa, a Marta.
— Que ideia é essa?
A Marta deu de ombros, sem tirar o olho da novela.
— Moda nova. Vi no Instagram. Cada convidado leva uma coisa com a letra do nome. Dizem que fica divertido.
— Divertido uma ova. Isso é coisa de gente que quer controlar até o presente que ganha.
A Marta pausou a novela e me encarou.
— Roberto, você não vai arrumar confusão. É só uma brincadeira. Leva um relógio, um rádio, uma roupa. Com a sua letra é fácil.
— Minha letra é R.
— Então leva um relógio. Pronto.
— A Camila não usa relógio. Ela vive de celular na mão.
— Leva um roupão.
— Ela morre de calor. Não usa roupão nem em julho.
A Marta suspirou e voltou pra novela.
— Então se vira. Mas não chega lá de mão vazia que a Regina me enche o saco depois.
Fiquei remoendo aquilo a semana inteira. R de Roberto. R de… o quê? O que você dá de presente pra uma mulher de quarenta anos que você não suporta e que, sinceramente, também não suporta você? R de raiva? R de rancor? R de ridículo?
No sábado de manhã, fui no shopping Mueller. Andei, olhei vitrine, entrei em três lojas. Nada. Nada que tivesse a ver com ela. Porque, pensando bem, eu não sabia do que a Camila gostava. Não sabia se ela lia, se ela cozinhava, se ela plantava orquídea. A gente se via em aniversário de família, Natal, essas coisas. Ela falava comigo o mínimo. E eu, por birra, falava menos ainda.
De repente, numa loja de utilidades, vi. Uma réplica antiga de um rádio. Pequena, de madeira, com botão de girar. Funcionava com bluetooth, dava pra ligar no celular. Custo: duzentos e quarenta reais.
R de rádio.
Comprei. Mandei embrulhar num papel verde-escuro, com fita dourada. Enquanto a moça da loja fazia o laço, eu pensei: pronto, ninguém vai poder falar que eu fui de mão vazia.
A festa era num salão de festas do prédio da Regina. Cheguei pelas oito e meia. A Marta já tava lá, ajudando a irmã com as bandejas. Salgado pra cá, bolo encomendado da Sodiê pra lá. A Camila tava no meio do salão, de vestido vermelho, rindo alto, cumprimentando todo mundo com aquele jeito ensaiado de anfitriã.
Deixei o presente na mesa, junto com os outros. Tinha de tudo: vinho, vela, vaso, coisa cara, coisa barata. Uma mulher de uns cinquenta anos, que eu não conhecia, veio puxar conversa.
— O que você trouxe?
— Um rádio.
— Ah, que legal. Meu nome é Vera, trouxe um vaso. Foi difícil, viu? V de vaso é fácil, mas eu queria uma coisa mais criativa.
— Criativa pra quê? Presente é presente.
Ela riu meio sem graça e foi atrás de um copo d'água.
A noite seguiu. Parabéns, bolo, aquela gritaria. Na hora dos presentes, a Camila abriu um por um, fazendo comentário pra cada coisa. Quando chegou no meu, ela levantou o pacote e leu o cartão.
— Roberto… rádio, né? Deixa eu ver.
Ela rasgou o papel. Abriu a caixa. Tirou o rádio com a ponta dos dedos, como se fosse uma peça de museu.
— Que bonitinho.
Foi só isso. "Que bonitinho." E colocou de volta na caixa, do lado das outras quarenta bugigangas que ela tinha ganhado naquela noite.
Na saída, a Regina me chamou no canto.
— Obrigada por ter vindo.
— Tá bom, Regina. Eu vim, trouxe o presente, comi o bolo. Tá tudo certo.
— Não é isso. Eu sei que você e a Camila… que vocês não se entendem. Mas ela é a esposa do meu filho. Faz parte.
— Faz parte de quê? De fingir que a gente se gosta?
A Regina me olhou com uma paciência que eu conheço desde menino. Aquela que ela usava quando eu chegava da rua com o joelho ralado e não queria botar remédio.
— Faz parte de estar junto. Só isso.
Eu não respondi. Beijei a testa dela e fui embora.
No carro, a Marta tava quieta. Só quando a gente virou na Silva Jardim ela falou:
— Você viu que ela nem agradeceu direito?
— Vi.
— E o rádio era tão bonito.
— Era.
— Você tá magoado?
— Não.
Mas a Marta me conhece. Ela não insistiu. Deixou o silêncio entrar pela janela, junto com o vento frio de Curitiba.
Duas semanas depois, a Regina me ligou num domingo de manhã, com aquela voz que ela usa quando tem coisa errada.
— Roberto, você pode vir aqui? A Camila quer falar com você.
— Falar comigo sobre o quê?
— Ela disse que é sobre o presente.
Travei.
— O rádio quebrou? Porque se quebrou, eu troco. Tem garantia na loja.
— Não é isso. Vem logo.
Cheguei no apartamento da Regina em vinte minutos. A Camila tava sentada na sala, com o tal rádio desligado na mesinha de canto. Ela tava diferente. Sem maquiagem, de cabelo preso, com uma caneca de chá entre as mãos. A Regina ficou na cozinha, fingindo que lavava louça, mas eu sei que tava ouvindo tudo.
— Senta, Roberto.
Sentei.
— Aquele dia, na festa… eu não te agradeci direito.
— Não precisa, Camila. Era só um presente.
— Não é isso. Deixa eu terminar.
Ela tomou um gole do chá. Botou a caneca na mesa. E contou.
Que o pai dela tinha um rádio igual àquele. Antigo, de madeira, com botão de girar. Que ele ficava na estante da sala, em Londrina, onde ela cresceu. Que todo domingo de manhã o pai ligava o rádio pra ouvir o programa de música caipira e fazia café com leite pra ela. Que ele morreu faz oito anos, de um infarto fulminante, no dia em que ela estava em São Paulo resolvendo uma pendência na faculdade. Que ela não conseguiu se despedir. Que o rádio, depois da morte dele, desapareceu na mudança, e ela nunca mais achou.
— Quando eu abri o seu presente, Roberto, eu vi meu pai. Entendeu? Eu vi a mão dele girando o botão. Eu não consegui nem falar. Parecia piada. Parecia… não sei. Parecia recado.
Eu não sabia onde botar as mãos. Cruzei os dedos, descrucei. Olhei pra caneca de chá, pra mesinha de canto, pro rádio desligado.
— Eu não sabia disso, Camila. Eu comprei porque era a letra R. Só isso.
— Eu sei. E é isso que me assusta. Você não sabia de nada, e mesmo assim…
Ela parou. Os olhos dela encheram d'água, e ela desviou pro corredor, como se tivesse vergonha.
— Eu vim te agradecer de verdade. E te pedir desculpa. Por todos esses anos. Por ter sido distante. Seca. Grosseira, às vezes. Você é o irmão da Regina, e eu nunca fiz questão de ser sua família.
Fiquei calado um tempo. Depois falei baixinho:
— Eu também nunca fiz questão, Camila.
Ela riu. Um riso curto, meio molhado.
— Pelo menos a gente concorda em alguma coisa.
A Regina apareceu na porta da cozinha, com um pano de prato na mão, fingindo que não tinha ouvido nada.
— Alguém quer café?
Nós três tomamos café naquela sala. A Camila falou do pai, da infância em Londrina, do cheiro de café torrado na cozinha pequena da casa antiga. A Regina contou que eu, quando era menino, desmontava os rádios da vizinhança pra ver como funcionavam por dentro — e que depois não sabia montar. Acabei rindo da própria história.
Na saída, a Camila me esperou no corredor.
— Roberto?
— Fala.
— O rádio… você quer de volta? Porque, pelo valor, era um presente de festa, e a gente nunca foi próximo.
— Não. É seu. Foi seu desde o começo. Eu só não sabia.
Ela ficou parada na porta, com o rádio na mão — tinha ido buscar na sala. A caixinha de madeira, pequena, encaixada entre os braços dela como quem carrega um retrato antigo.
— Então eu vou te convidar pra um café. Sem festa, sem presente, sem letra nenhuma. Pode ser?
— Pode ser.
Ela entrou e fechou a porta devagar.
No estacionamento, fiquei um tempo dentro do carro, com a chave na ignição, sem ligar. Lembrei do dia da festa. Do "que bonitinho". Da mulher do vaso. Do papel verde-escuro no chão do salão.
A gente passa anos inteiros achando que conhece uma pessoa. E descobre que não sabe nem o som da infância dela.
Na semana seguinte, a Camila me mandou uma mensagem: *"Sábado, três da tarde, aqui em casa. Faço bolo de fubá."*
Respondi: *"Vou. Mas sem presente."*
Ela mandou uma carinha rindo.
Fui. Ela tinha feito bolo de fubá de verdade, com goiabada por cima. E posto o rádio na estante da sala, num cantinho, do lado de um porta-retrato antigo com a foto de um homem de cabelo grisalho sorrindo pra câmera.
O pai dela.
— Fica bem aí, né? — ela disse, servindo o café.
— Fica.
— R de rádio. R de Roberto. R de recado.
Ela riu. Eu ri.
E ficou bonito, o rádio ali. Como se sempre tivesse sido daquela casa.
