Era para ser um piquenique simples. Cada morador da Rua das Camélias, em Curitiba, deveria trazer algo cujo nome começasse com a letra inicial do seu próprio nome — uma brincadeira que Rosa Vogel tinha inventado para a festa junina de vizinhança. Seu Baumann traria bolo, dona Ivete traria vinho, a pequena Luiza traria limonada. Uma gracinha, nada mais. Mas para Graça Almeida, cinquenta e três anos, contadora numa transportadora perto do Contorno Sul, aquela brincadeira virou o estopim de uma decisão que ela vinha adiando havia onze anos.
Porque Graça deveria ter trazido um bolo de amendoim. A de amendoim, A de Almeida. Em vez disso, naquela tarde de sábado, ela colocou numa pasta uma papelada organizada e enfiou na bolsa, junto com um molho de três chaves que há onze anos dormia numa gaveta da escrivaninha, debaixo de extratos bancários e uma caneta seca.
É preciso entender como se chegou a isso. O pai de Graça, Osvaldo Almeida, tinha uma pequena oficina mecânica na Avenida Marechal Floriano, trinta e três anos de trabalho, até morrer. No papel, a oficina pertencia metade a Graça, metade ao irmão mais novo, Cláudio. Assim constava no formal de partilha, expedido pela Vara de Sucessões de Curitiba no outono de 2015. Só que Cláudio, que continuou tocando o negócio, tinha explicado a Graça, na época, com voz mansa, que seria mais prático se ele sozinho ficasse registrado como titular no CNPJ — por causa dos empréstimos, do seguro, da burocracia toda. Ela continuaria com sua parte do mesmo jeito, era só uma formalidade.
Graça assinou. Tinha acabado de perder o marido, tinha dois filhos para criar, e Cláudio falava de um jeito tão sensato, tão tranquilizador — afinal, era irmão dela. Ela ainda se lembra do cheiro de café frio no cartório naquele dia, do ronco do ar-condicionado enquanto pegava a caneta.
Desde então Cláudio tinha transformado a oficina num negócio com seis funcionários, andava de carro zero, tinha comprado uma casa em condomínio fechado no bairro Santa Felicidade. No início Graça ainda recebia de vez em quando trezentos reais, "para ajudar em casa", como ele dizia. Depois de três anos, isso parou. Quando ela perguntava, Cláudio dizia que o movimento estava fraco, que as peças tinham encarecido, que o contador levava tudo. Ela acreditava, porque queria acreditar. Porque ele era irmão dela e porque a mãe deles, enquanto viva, sempre repetia: não briguem por dinheiro, vocês só têm um ao outro.
A mãe morreu há dois anos. Desde então Graça não tinha mais notícia de Cláudio, a não ser no Natal, mensagens curtas, sempre com um emoji no final.
O piquenique na Praça do Bosque estava marcado para o domingo ao meio-dia. O sol batia enviesado nos ipês, em algum canto alguém assava linguiça, um cachorro corria latindo entre as toalhas estendidas na grama, e de um rádio vinha abafado o comentário de um jogo do Coritiba. Cláudio também estava lá — morava a duas quadras dali e tinha sido convidado porque, por acaso, era amigo do marido de Rosa Vogel. Ele trouxe, como cabia ao seu nome, coxinha.
Graça sentou-se ao lado dele, na toalha xadrez, colocou a pasta entre os dois e disse apenas: "Hoje eu trouxe uma coisa com A. Advogado."
Cláudio riu, breve, como se ela tivesse feito uma piada, e esticou a mão para pegar a bandeja de coxinhas. Depois olhou melhor para a pasta, viu o adesivo do escritório Reinaldo Reis Advogados Associados, da Rua XV de Novembro, e a mão que ia pegar o garfo desacelerou.
"Que história é essa agora", disse ele, com a boca ainda meio cheia.
"Eu fui atrás da oficina. Dos livros contábeis. O doutor Reinaldo também foi." Ela nem abriu a pasta, não precisava. "A oficina faturou quatrocentos e vinte mil reais no ano passado. Você anda de carro zero. Você deu entrada à vista naquela casa em Santa Felicidade. E eu não vejo um centavo da minha parte há oito anos."
"Graça, esse não é o lugar—"
"Não existe mais outro lugar, Cláudio. Esperei três anos por uma reunião com você. Você sempre desmarcava."
Ao redor deles, o burburinho baixou. Dona Ivete, que estava servindo vinho, parou com a garrafa no ar. Luiza continuava correndo com sua garrafa de limonada, sem entender nada, enquanto os adultos de repente olhavam todos para a mesma direção. Uma criança gritou atrás da bola que tinha rolado para dentro do mato, e ninguém foi atrás.
Cláudio largou o prato. "Eu construí esse negócio. Eu. Não você."
"Você continuou o negócio. Com a minha parte da herança que o papai deixou pra nós dois como capital inicial. Está tudo no formal de partilha de 2015, o número do processo está aqui." Ela bateu de leve na pasta. "O doutor Reinaldo já preparou uma ação de prestação de contas. Pela condição de sócia que me cabe conforme a herança, mesmo você estando sozinho no CNPJ. Existe uma sociedade de fato entre nós, dá para provar — pelos extratos dos primeiros três anos, quando você ainda me repassava alguma coisa. Isso foi reconhecimento da minha parte, preto no branco."
O rosto de Cláudio ficou pálido, depois vermelho. "Você vai me processar? Pela oficina do papai?"
"Eu quero minha metade. Duzentos e dez mil reais, que é metade do faturamento do ano passado, mais os atrasados dos últimos oito anos, que o advogado está calculando agora. Ou então eu entro como sócia oculta com cinquenta por cento, e você me paga minha parte todo mês. Você escolhe. Tem duas semanas, depois a ação sai."
Seu Baumann, sentado duas toalhas mais adiante e que só queria mesmo ter trazido o bolo, levantou-se e foi com o neto em direção ao parquinho — não por covardia, mas porque sentiu que ali estava terminando algo que não dizia respeito a ele.
Cláudio tentou de novo, mais baixo agora. "Somos irmãos."
"Éramos, enquanto eu deixei que me passassem para trás." Graça se levantou, prendeu a pasta debaixo do braço, mas deixou as três chaves velhas caídas na toalha, bem na frente dele. "Pode ficar com elas. Vou mandar fazer outras, para o caso de eu precisar entrar na oficina de novo como sócia. O doutor Reinaldo entra em contato com você na segunda."
Ela foi embora sem olhar para trás, passando por Rosa Vogel, que pousou a mão no braço dela por um instante, sem dizer nada. O comentário de futebol continuava saindo do rádio, alguém tinha acabado de fazer um gol, e uma toalha mais adiante alguém comemorava, sem saber o que tinha acabado de se romper entre irmãos.
Duas semanas depois, a ação realmente deu entrada na Justiça. Cláudio não ligou. Em vez disso, um mês depois, chegou uma carta do próprio advogado dele, com uma proposta de acordo: pagamentos mensais de mil e oitocentos reais, retroativos limitados a seis anos, além do registro de Graça como sócia oculta. Graça aceitou. Não foi uma vitória com fanfarra, mas foi um começo.
Meio ano depois, Graça descobriu por acaso, num documento fiscal que o doutor Reinaldo tinha solicitado no âmbito da prestação de contas, que Cláudio já tinha pego, em 2019, um empréstimo de oitenta mil reais — dando a oficina inteira como garantia, incluindo a parte dela, sem que ela jamais soubesse ou fosse consultada. Ligou para o advogado e disse apenas uma frase: "Então vamos verificar isso também agora." Naquele Natal, não chegou mensagem nenhuma de Cláudio. Nem com emoji.
