A mão quente e úmida de febre da dona Neusa já estava a centímetros do rosto de Miguel, com onze dias de vida, quando a Camila recuou dois passos, apertando o bebê contra o peito como se o mundo fosse desabar. No segundo seguinte, o corredor apertado do apartamento em Santos se encheu de uma tosse seca, daquelas que arranham a garganta e deixam a pessoa dobrada.
A sogra tinha aparecido sem avisar. Pegou um ônibus em Sorocaba às cinco da manhã, atravessou a serra, desceu na rodoviária e tocou a campainha como quem chega para tomar posse de um território. Trouxe uma sacola de laranjas, um bolo de fubá embrulhado em papel alumínio e um resfriado daqueles que fazem os olhos lacrimejarem.
— A senhora tá doente? — Camila falou baixo, segurando o choro do bebê que começava a acordar. — A senhora não pode chegar assim, ele tem onze dias!
Dona Neusa limpou o nariz com um lenço de pano que tirou do sutiã e deu de ombros.
— Minha filha, eu criei quatro filhos no meio de obra, poeira pra todo lado, e nenhum morreu de gripe. Isso é frescura de gente que vive em apartamento com ar-condicionado. Deixa eu pegar meu neto, eu não vim de Sorocaba pra ficar olhando de longe.
O marido da Camila apareceu na porta da cozinha. O Felipe estava com o cabelo todo arrepiado, uma camiseta velha com mancha de leite vomitado e aquela cara de quem não dorme há duas semanas. O Miguel tinha cólica toda noite, das onze às três da manhã, e o casal se revezava em turnos como se estivesse numa fábrica.
— Mãe, por favor, lava a mão e põe a máscara — o Felipe disse, estendendo uma máscara descartável e um frasco de álcool em gel. A voz saiu mais áspera do que ele queria. — A gente combinou de esperar o Miguel ter pelo menos um mês antes de receber visita.
A dona Neusa parou. Olhou para o filho como se tivesse levado um tapa. As bochechas, já vermelhas de febre, tremeram.
— Tá me tratando que nem leprosa? — a voz dela subiu. — Eu me matei de trabalhar pra pagar seu cursinho, seu faculdade, sua formatura. Vendi aliança, vendia marmitex na rua, e agora você me manda pôr máscara na minha cara? Eu te criava com febre, com bronquite, te dava xarope de agrião com mel e você tá aí, forte. Máscara é pra quem tem medo de viver.
A Camila sentiu a raiva subir do estômago. Cesárea de emergência, trinta e seis horas de trabalho de parto, pontos que ainda doíam, peito rachado de amamentar. E ali estava aquela mulher, com o nariz escorrendo, querendo pegar o recém-nascido como se fosse um brinquedo.
— Ou a senhora põe a máscara, lava a mão e senta longe, ou a senhora volta pra Sorocaba agora — a Camila falou firme, se posicionando entre a sogra e o corredor que levava ao quarto do bebê.
Dona Neusa ficou em silêncio por uns três segundos. Depois abriu um sorriso que não tinha nada de calor. Era o sorriso de quem segura uma carta na manga.
Ela enfiou a mão na bolsa de couro surrada, daquelas que têm cheiro de guardado, e tirou uma pasta de plástico azul com elástico em volta.
— Me expulsa. Vai. Mas antes olha aqui — ela falou, balançando a pasta na frente do filho. — Isso aqui, Felipe, é a escritura da casa do seu avô. Aquela lá da rua Quinze de Novembro. Sabe quanto a construtora tá pagando? Oitocentos e vinte mil reais. À vista. Eu vim aqui justamente pra ir com você no cartório amanhã e passar tudo pro teu nome.
A Camila viu o Felipe engolir seco. Oitocentos e vinte mil. A dívida do apartamento deles, o financiamento de trinta anos que comia quarenta por cento da renda do casal, seria paga de uma vez. Ainda sobrava pra trocar o carro, pra montar o quarto do Miguel, pra respirar.
— Mãe, você não precisava vir assim… — o Felipe começou, a voz falhando.
— Se a sua mulher me expulsar, eu vou amanhã no cartório e passo tudo pro seu primo, o Ronaldo. Ele pelo menos não me trata que nem cachorra sarnenta.
O choro do Miguel encheu o apartamento. Aquele choro agudo, de fome ou de dor, que faz a mãe sentir fisgada no estômago.
A Camila olhou para o marido. O Felipe desviou o olhar.
— Camila, deixa ela só dar uma olhada no Miguel — ele murmurou. — Com a mão lavada. Rapidinho.
A dona Neusa deu um passo à frente. A tosse voltou, seca, nojenta, e ela não virou o rosto. Não cobriu a boca. A Camila sentiu as gotículas invisíveis atravessando o ar da sala e indo na direção do filho.
Foi aí que ela percebeu que não era sobre dinheiro. Era sobre o resto da vida dela. Sobre cada decisão daqui pra frente. Sobre quem mandava na própria casa.
— Se a senhora der mais um passo, eu chamo a polícia — a Camila disse. Não gritou. Falou tão baixo que o Felipe precisou se inclinar pra ouvir. — E se a senhora não sair agora, eu pego o Miguel, vou pra casa da minha mãe em Santos e dou entrada no divórcio.
O Felipe olhou pra esposa. Depois pra mãe. Depois pro filho.
Ele se moveu.
Pegou a pasta azul das mãos da dona Neusa, com cuidado, como quem desarma uma bomba. Abriu a bolsa surrada, colocou a pasta lá dentro, fechou o zíper.
— Vai embora, mãe — ele disse baixo. — O dinheiro do vô não vale a saúde do meu filho.
A dona Neusa arrancou a bolsa da mão dele com tanta força que o zíper abriu. A pasta azul caiu no chão, os papéis se espalharam pelo corredor. Ela nem olhou. Saiu pisando em cima das folhas, batendo a porta com um estrondo que fez o Miguel dar um pulo e chorar mais alto.
O Felipe ficou parado, encostado na porta, respirando como quem acabou de sair de uma briga. A Camila foi para o quarto, deu de mamar ao Miguel, esperou ele dormir. Depois voltou, se agachou, juntou as folhas da escritura espalhadas pelo chão. Alinhou-as uma por uma, batendo as beiradas contra o piso frio. Colocou tudo de volta na pasta azul. Guardou no fundo da gaveta da cômoda, debaixo das fraldas.
Ela sabia que a sogra voltaria. Gente como a dona Neusa sempre volta. Só não sabia como.
—
Três dias depois, o telefone do Felipe tocou de madrugada. O visor acendeu com o nome: Ronaldo.
— Felipe, sua mãe tá aqui em São Paulo, na minha casa — a voz do primo saía abafada, como se ele estivesse segurando o celular debaixo de um travesseiro. — Ela chegou segunda-feira de manhã, pior do que tava. Tossindo, com falta de ar. Não quis ir pro hospital, falou que era só renite. Ontem a febre passou de quarenta. Levei ela pro Mandaqui à força.
O Felipe sentou na cama. A Camila acordou com o movimento.
— E aí? — ele perguntou.
— Tá entubada. Pneumonia nos dois pulmões. Covid. Eu testei positivo também. Minha esposa tá com medo de mim, dormi na varanda ontem.
O Felipe ficou em silêncio. O relógio marcava 3h47. Lá fora, a rua deserta, só o barulho de uma moto cortando a madrugada.
— E a pasta? — ele perguntou sem querer perguntar.
— Que pasta? — o Ronaldo tossiu. — Ah, a da casa. Ela deixou em cima da geladeira. Eu não quero falar disso agora, cara. Minha pressão tá alta, tô com um gosto de sangue na boca.
Eles desligaram. A Camila segurou a mão do marido. Nenhum dos dois disse nada.
Naquela noite, o Felipe levantou, foi até a cômoda, tirou a pasta azul de debaixo das fraldas e a abriu. Ali estavam os papéis do sobrado de Sorocaba, a escritura amarelada, as assinaturas antigas. Ele passou os dedos por uma foto que caiu de dentro do plástico: o avô, a avó, a mãe dele ainda jovem, todos em pé na frente da casa, num tempo em que ninguém usava máscara e ninguém precisava.
Ele guardou tudo de volta. Fechou a pasta, passou o elástico em volta, e a colocou, sem falar uma palavra, dentro do armário de documentos do casal, atrás da certidão de nascimento do Miguel.
Eram 4h12. Na cozinha, a Camila esquentava uma caneca de leite. O Felipe apareceu na porta, incerto.
— A gente devia ter feito o quê? — ele perguntou.
Ela apontou para o quarto onde o Miguel dormia.
— Exatamente o que a gente fez.
O leiteimprincipiou a ferver. A Camila desligou o fogo antes que derramasse. Serviu em duas canecas. Os dois sentaram no sofá, em silêncio, ouvindo o ressonar leve do bebê vindo do quarto.
A pasta azul continuava no armário.
Intocada.
