Felicidade pura, mas o quarto do Airbnb do Guarujá é meu, não é da minha sogra

"Já resolvi tudo, nem precisa agradecer" — foi assim que minha sogra anunciou que tinha cancelado nossa reserva sozinha. Uma hora depois, quem teve que resolver tudo de novo foi ela.

Era quinta-feira à noite, eu estava terminando de organizar as fotos do restauro que eu tinha entregue naquela tarde — um álbum de família de 1953, capa de couro, lombada quase se desfazendo — quando o celular vibrou em cima da bancada. Ligação da Rosane, minha sogra.

— Vocês não vão mais pro Guarujá! — ela disparou, com aquele tom de quem acabou de resolver um problema mundial. — No sábado de manhã vocês vão estar na Vila Prudente ajudando a Camila. Já mudei a reserva de vocês, pode ficar tranquila.

Fiquei parada, olhando o pincel de cerdas finas ainda na minha mão, cheirando a cola de metilcelulose.

— Rosane, com que autorização a senhora mexeu numa reserva que eu e o Felipe pagamos?

Enquanto eu falava isso, um aviso de e-mail piscou na tela do notebook, ainda aberto ao lado. "Sua reserva foi alterada." A ficha caiu na hora.

O mecanismo era ridiculamente simples. Meu marido, Felipe, tinha reencaminhado pra mãe o e-mail de confirmação da pousada — só queria mostrar a foto da piscina de borda infinita, aquela vista pra praia da Enseada. Ele não reparou que, lá embaixo do e-mail, tinha um link ativo de gerenciamento da reserva, com o código de acesso exposto. Bastou isso. A tarifa permitia alteração de data sem custo de cancelamento, e Rosane não deixou essa oportunidade passar. Remarcou nossa estadia pra terça e quarta, dali a duas semanas — datas em que, por coincidência, era feriado prolongado e a diária tinha disparado. A diferença ficou pendente no cartão do Felipe. Isso não pareceu incomodá-la nem um pouco. Também não pareceu incomodá-la o fato de que adultos com emprego costumam ter compromisso marcado.

— Que exagero — ela disse, genuinamente surpresa com minha reação. — Pede um dia de folga, paga a diferença, não é o fim do mundo. E olha que bom, esse fim de semana vocês ficam livres!

Ela respirou fundo, como quem guarda o melhor pro final.

— A Camila precisa se mudar. O contrato do apartamento dela na Vila Prudente vence domingo, ela tem que devolver a chave pro dono à noite. Já contratei a van com dois ajudantes. Eles sobem os móveis, o Felipe monta os móveis e fura a parede pros suportes de TV, e você organiza a cozinha e os armários. Está tudo perfeitamente planejado!

Generosidade com dinheiro dos outros sempre parece um gesto nobre — até chegar a conta.

Eu trabalho com restauro de documentos e livros raros num ateliê perto da Barra Funda. Bem naquela terça pra qual ela tinha empurrado nossa viagem, eu tinha a montagem de uma exposição de manuscritos do século XIX no Museu da Língua Portuguesa — um trabalho que eu já vinha preparando havia três meses. E o Felipe, que é técnico de som, tinha ensaio geral e entrega da sonoplastia de uma peça nova no teatro onde trabalha, marcado pro mesmo dia.

— Que planejamento perfeito mesmo — respondi, já com a aba da pousada aberta no notebook. — Só que o Felipe vai montar o guarda-roupa, e quem vai instalar o lustre? Ele mexe com áudio, não é eletricista. Pra cozinha também precisa de um marceneiro de verdade.

Desliguei e liguei direto pra central de atendimento da pousada. Atenderam rápido. Confirmei meu nome como titular, os últimos quatro dígitos do cartão usado no pagamento, e pedi o cancelamento imediato da alteração. As datas originais voltaram no sistema antes que o quarto fosse liberado pra outro hóspede.

À noite o Felipe chegou em casa. Ele tem uma habilidade profissional de separar sinal útil de ruído de fundo — coisa de quem passa o dia mixando áudio — e esse talento funciona muito bem também na vida familiar. Quando soube do que a mãe tinha feito, suspirou, pegou o celular e abriu a conversa fatídica.

— Fui idiota de mandar o e-mail inteiro — admitiu, esfregando os olhos. — Só queria mostrar a vista da piscina, e acabei entregando a chave do nosso fim de semana.

Ligou pra Rosane.

— Mãe, a gente vai pro Guarujá sábado, como estava combinado — falou, num tom firme mas sem gritar. — A Bruna já restaurou a reserva.

Do outro lado, a voz dela subiu de imediato.

— Como assim vão?! A mudança já está toda organizada! A van foi paga só por duas horas, eles vão só descarregar e ir embora pro próximo serviço, montagem não está incluída! A Camila sozinha não vai dar conta, ela nunca fez isso! Vocês precisam pensar nela!

— A gente já pensou em nós, quando recuperou o próprio fim de semana — falei, me aproximando do telefone. — Então quem vai ajudar a Camila é a senhora mesma, Rosane. Afinal o plano foi seu.

E foi aí que a voz dela, sempre tão certa de si, ficou atrapalhada:

— Eu não posso! Reservei uma diária de spa pra esses dias! Piscina de água termal, massagem com pedras quentes, tudo pago! Eu pensei que, já que vocês iam mudar a Camila mesmo, eu não precisava ficar no meio do caminho! A tarifa é sem reembolso!

Eu e o Felipe nos entreolhamos. Que jogada impecável. O plano inteiro de sequestrar nossa reserva era só pra nos transformar em mão de obra grátis, enquanto ela ia relaxar numa estância termal em Águas de Lindoia.

— Que pena, mãe — disse o Felipe, sem nenhum resquício de compaixão na voz. — Cancelar a mudança da Camila não dá, ela tem que entregar a chave. Vai ter que abrir mão das pedras quentes. Bom fim de semana entre as caixas.

Desligou.

Nosso fim de semana foi ótimo. O ar do litoral estava limpo, o jantar de frutos do mar numa barraca simples na Enseada foi surpreendente, e o barulho do mar lá embaixo da varanda apagava qualquer pensamento ruim. Andamos pela orla, tomamos água de coco na areia e aproveitamos o fato de não dever satisfação a ninguém. O celular do Felipe, no silencioso, recebia atualizações regulares do desastre alheio. A gente não perguntou nada — as notícias chegavam sozinhas.

Quem teve que reorganizar os próprios planos foi a Rosane. O spa foi embora junto com a tarifa sem reembolso. Como não dava pra deixar a filha na rua com os móveis, no sábado de manhã ela vestiu uma roupa velha e foi encarar o serviço. A van, conforme contratado, descarregou tudo em duas horas — encheu a sala e o corredor de caixas — e foi embora pro próximo cliente. A Camila, acostumada a que tudo se resolvesse com um telefonema da mãe, ficou parada no meio da bagunça sem saber por onde começar.

Como o "montador grátis" não apareceu, Rosane teve que correr atrás de um marceneiro e um eletricista de verdade, pagando o serviço urgente do próprio bolso. No sábado à tarde, mandou um áudio enorme pro Felipe: "Filho! O marceneiro está cobrando extra pelo furo da pia! Onde é que eu acho bucha pra concreto aqui perto?! Por que a fila da loja de material tá desse tamanho?!"

No lugar da massagem, ela passou a tarde tentando montar sozinha uma cômoda de MDF vinda em caixa. O manual de instruções só apareceu no fundo da embalagem depois que ela já tinha encaixado a lateral ao contrário duas vezes.

Domingo à noite, quando já tínhamos voltado pra São Paulo e desfeito a mala, Rosane apareceu no nosso prédio sem avisar. Trazia uma sacola de pastéis da feira e aquela cara de quem quer conversa antes de pedir alguma coisa. Sentou na nossa mesa, comeu um pastel de queijo sem pressa, e só depois falou:

— A Camila me perguntou se vocês não iam mais ajudar com a instalação do ar-condicionado dela. Semana que vem.

Eu já esperava. Fui até a gaveta do armário da sala, peguei a pasta onde guardo os documentos importantes — contrato de aluguel do meu ateliê, recibos, papéis do restauro — e tirei de dentro dela uma folha impressa: o print da conversa com a central da pousada, com data e horário da minha ligação cancelando a alteração feita sem autorização. Coloquei em cima da mesa, ao lado do prato de pastéis.

— Rosane, isso aqui é só pra deixar registrado, caso aconteça de novo: a senhora não tem autorização sobre nenhuma reserva, cartão ou conta que esteja no meu nome ou no do Felipe. Da próxima vez eu vou até a operadora fazer um boletim de ocorrência por uso indevido de dados de pagamento, porque foi exatamente isso que aconteceu. Quanto ao ar-condicionado da Camila, ela pode contratar um técnico — aqui perto, na Vila Prudente, tem uns três anúncios só na porta do mercado. Custa em torno de cento e cinquenta reais a instalação. Ela tem trinta e dois anos, trabalha, ela mesma pode resolver.

Rosane ficou olhando o papel na mesa, depois olhou pro Felipe, esperando que ele suavizasse a fala. Ele só serviu mais café pra si mesmo e não disse nada.

— Vocês estão exagerando — ela tentou, sem muita força na voz dessa vez.

— Não, mãe — respondeu o Felipe, calmo. — A gente só parou de pagar pelo que não devia.

Ela terminou o pastel, guardou a sacola vazia na bolsa e foi embora sem se despedir com o abraço de sempre. Da janela da cozinha, vi o carro dela sair da vaga em frente ao prédio e virar na esquina, na direção certa pra casa dela — não pra da Camila.

Segunda-feira de manhã, no ateliê, terminei de colar a última página do álbum de 1953 e deixei ele prensado sob peso, esperando secar até quarta.

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Odissea
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