Boa noite após uma quinta corrida na loja — vou reconstituir essa história inteira do zero: outro casal, outra cidade, outra armadilha, sob o ponto de vista de uma testemunha externa, em português brasileiro. Aqui está o texto completo.

O celular ficou ligado por engano — e foi assim que descobri a farsa da minha melhor cliente

Trabalho havia onze anos na farmácia da esquina da Rua Getúlio Vargas, no Bairro Batel, em Curitiba, e conheço quase todo mundo pelo nome — e pelo remédio que compra todo mês. A Regina era diferente das outras clientes. Vinha sempre de terno bem cortado, direto da loja de material de construção que administrava, e comprava, sem falta, os mesmos comprimidos para pressão alta. Cinquenta e três anos, viúva, e uma língua afiada que sempre me arrancava um sorriso.

Foi numa terça de agosto, com aquele friozinho seco que só Curitiba tem em pleno inverno, que ela entrou apressada, o celular ainda na mão, e pediu para sentar um instante no banquinho perto do balcão de manipulados enquanto esperava a filha vir buscá-la.

— Só um minuto, Vanda, deixa eu terminar essa ligação com meu genro — falou, meio sem fôlego, e voltou a atenção para o aparelho.

Eu estava organizando as caixas de protetor solar na prateleira ao lado — mesmo em agosto, aqui vende o ano inteiro — e não tinha a menor intenção de escutar nada. Mas a voz dela era alta, e a loja estava vazia àquela hora da tarde, só o rádio baixinho tocando uma rádio de sertanejo antigo lá no fundo.

— Marcelo, filho, você precisa entender: sua sogra está desesperada, o negócio quase quebrou. Se a Camila não te ajudar de novo esse mês, eu não sei o que eu faço — dizia ela, com a voz meio embargada.

Achei estranho. A Regina era dona de uma loja de material de construção que, pelo que ela mesma me contava enquanto esperava os remédios ficarem prontos, vendia bem — tinha até comprado um carro novo no ano passado. Não parecia gente quebrada.

A ligação parecia ter terminado — ela tirou o celular do ouvido, resmungou algo sobre "esse aparelho não desliga direito" e guardou na bolsa. Só que a tela continuava acesa. Eu vi de longe, de esguelha, enquanto media um xarope para outro cliente. E foi aí que ouvi uma segunda voz saindo do alto-falante, abafada dentro da bolsa — o genro, aparentemente, ainda achando que a ligação continuava.

— Sogra, relaxa, ela já separou o Pix. Vinte mil, como sempre — disse a voz de homem, satisfeita.

Regina riu baixinho, sem perceber que o celular ainda transmitia. Puxou de novo o aparelho, olhou a tela e, em vez de desligar, encostou de leve no ouvido, curiosa, sem saber que a chamada nunca tinha caído.

— Vinte mil é pouco, Marcelo. Você prometeu que ia pedir mais dessa vez. Fala que a loja tá quase fechando de vez, que eu vou perder tudo, que preciso de cirurgia no joelho.

— Mãe, calma. Ela é boba mas não é trouxa. Se eu pedir demais de uma vez ela desconfia.

Fiquei parada com o frasco de xarope na mão, o cliente na minha frente esperando o troco, e não consegui nem completar a conta de cabeça. Aquilo não era uma ligação qualquer — era uma mãe e um filho combinando um golpe, e do outro lado da linha, sem saber, estava alguém chamado Camila, provavelmente a nora dessa mulher, sentada em algum lugar da cidade confiando cegamente na sogra.

— Sua sogra vive desse jeito, meu filho, com vergonha na cara enquanto essa menina trabalha que nem uma condenada — continuou Regina, satisfeita consigo mesma. — Ela é boazinha demais. Aproveita.

— Aproveitar eu tô aproveitando. Semana que vem vou pedir pra trocar meu carro. Um HB20 não me representa mais, mãe. Quero um Jeep Compass.

— Você e seus gostos caros! Cuidado, hein, não force a barra.

— Relaxa. Ela ainda acha que eu sou o cara mais romântico do mundo. Pedi ela em casamento chorando, lembra? Bom ator eu sou.

A risada dele veio clara pelo alto-falante, e a de Regina junto, as duas se misturando, cúmplices, enquanto eu ali, atrás do balcão, segurava o troco de um cliente que já começava a olhar torto pra minha demora.

Não é da minha conta, pensei. Trabalho numa farmácia, não sou detetive nem assistente social. Mas tinha uma coisa que não me deixava largar o assunto: dias antes, essa tal Camila — porque agora eu tinha certeza de que era o nome da nora — tinha vindo à farmácia, junto com a Regina, comprar um kit de curativos e umas ataduras "para o joelho da sogra". Lembro dela clara: mulher de uns vinte e sete, vinte e oito anos, terninho bem alinhado, jeito apressado de quem tinha voltado correndo do trabalho só para acompanhar a sogra na consulta. Pagou tudo no cartão, sem reclamar, e ainda perguntou à Regina se precisava de mais alguma coisa, se estava com dor.

Regina, terminando finalmente a ligação de verdade dessa vez, guardou o celular e se levantou, ajeitando a bolsa no ombro.

— Desculpa a demora, Vanda. Genro chato, vive ligando.

Sorri de volta, o sorriso mais falso que já dei em onze anos de balcão, e entreguei o remédio dela. Ela pagou, se despediu com o mesmo jeito animado de sempre e saiu.

Fiquei remoendo aquilo a tarde inteira. Não conhecia a Camila pessoalmente, não sabia o sobrenome dela, não tinha telefone, nada. Só sabia que ela vinha à loja de material de construção — vi uma vez uma sacola com a logomarca "Construrama Batel" na mão da Regina. Fui até lá dias depois, com a desculpa de comprar uns parafusos, só para dar uma olhada.

Foi lá que reencontrei a Camila — só que dessa vez sentada numa salinha de vidro ao fundo, óculos na ponta do nariz, conferindo notas fiscais numa pilha alta de papéis, enquanto três funcionários circulavam pela loja. Não parecia dona de negócio falido. Parecia, isso sim, cansada — o tipo de cansaço de quem trabalha demais e ainda carrega o peso de outras pessoas nas costas.

Não fui direto com ela naquele dia. Fiquei observando, comprei meus parafusos, voltei para a farmácia. Mas duas semanas depois ela apareceu de novo no balcão, sozinha dessa vez, comprando um analgésico forte — dor de cabeça, disse, estresse do trabalho. E aí, sem planejar muito, resolvi falar.

— Com licença, moça… você é nora da dona Regina, não é? — perguntei, tentando soar casual.

Ela ergueu os olhos, surpresa. — Sou, sim. Como você sabe?

— Vi vocês juntas aqui outro dia. — Fiz uma pausa, calculando as palavras. — Olha, não é da minha conta, e me desculpa se estou passando dos limites. Mas outro dia, enquanto ela esperava aqui, o celular dela ficou ligado sem querer, depois de uma chamada com o seu marido. E eu… acabei ouvindo umas coisas que acho que você devia saber.

Contei tudo, o mais fiel possível ao que tinha escutado: o combinado do dinheiro, o joelho que não doía tanto assim, o carro que o Marcelo queria trocar, a risada dos dois debochando da "sogra boazinha demais". Fui falando baixo, porque tinha mais um cliente esperando na fila, e via o rosto da Camila mudar de cor a cada frase — primeiro incredulidade, depois um branco duro, quase de pedra.

— Tem certeza do que ouviu? — perguntou, a voz sem firmeza nenhuma.

— Absoluta. Foi bem claro. — Entreguei o remédio dela e completei: — Eu não ia te contar nada, moça. Mas você vem aqui há meses comprando remédio pra sogra, sempre com aquele jeito de quem se preocupa de verdade. Achei que merecia saber.

Ela não disse mais nada, só pagou e saiu apressada, quase esquecendo o troco no balcão.

Passaram-se quase três semanas até eu ver a Camila de novo. Foi numa sexta à tarde, movimento fraco na farmácia, quando ela entrou com uma pasta azul debaixo do braço — dessas de plástico transparente, com elástico nos cantos — e um jeito diferente no rosto. Não estava mais apressada. Estava com os ombros retos.

— Vim comprar um remédio para insônia — disse, meio sorrindo. — Mas também queria te agradecer.

Contou, ali mesmo, apoiada no balcão enquanto eu separava a caixa, que tinha marcado uma conversa com o marido no fim de semana seguinte à minha revelação, mas antes disso foi até um advogado que conhecia da faculdade, levou os extratos do próprio negócio — porque agora eu sabia: a Camila era dona da Construrama, não Regina, e Marcelo trabalhava como gerente lá, contratado pelo sogro dela anos atrás. E na loja tinha até uma sala reservada para ele, com o nome dele na porta.

No fim de semana, ela convocou o marido e a sogra para uma reunião "de família" no escritório da loja, um sábado de manhã, com a desculpa de conversar sobre a expansão do negócio. Levou também o contador. Colocou na mesa, uma a uma, as transferências dos últimos oito meses: cento e sessenta mil reais no total, todas registradas com a descrição "ajuda mãe Marcelo — tratamento". Perguntou, com toda a calma, qual era o nome do médico que acompanhava a fisioterapia da sogra, o endereço da clínica, os laudos.

Regina gaguejou, disse nomes que não batiam, inventou uma clínica que, quando o contador ligou ali mesmo no viva-voz, disse nunca ter atendido nenhuma senhora Regina. Marcelo tentou desconversar, culpar a mãe, dizer que também tinha sido enganado — até que a Camila, sem levantar a voz, tirou da pasta azul uma folha impressa: o extrato de uma conta conjunta que ela havia aberto com Marcelo no início do casamento, "por confiança", segundo ela mesma explicou, mostrando que o saldo tinha sido esvaziado em pequenas retiradas ao longo do ano — dinheiro que ele dizia usar em "material de trabalho".

Ela não gritou. Não chorou. Disse só uma frase, que a atendente da agência bancária depois comentou comigo, porque a Camila voltou lá naquela mesma tarde: "Vou fechar a conta conjunta e transferir minha parte para uma conta só minha. E o carro, se ele quiser trocar, que troque com o salário dele."

Fechou a conta conjunta — eu soube porque, semanas depois, ela mesma passou na farmácia e comentou, sem drama nenhum, como quem conta o resultado de um exame de rotina. Trocou a fechadura do apartamento onde moravam, que estava no nome dela desde antes do casamento. Pediu demissão do cargo de Marcelo na loja — porque, afinal, quem assinava a folha de pagamento era ela — e cortou de vez a "ajuda mensal" para a sogra.

Não sei o resto em detalhes, porque não é meu direito saber. Sei que Marcelo apareceu na loja umas duas vezes depois disso, tentando falar com ela, e um funcionário me contou que ele ficou parado do lado de fora do escritório de vidro, batendo na porta trancada, enquanto a Camila continuava conferindo notas fiscais sem sequer levantar os olhos.

Da Regina, não soube mais nada. Ela nunca mais voltou à farmácia comprar o remédio para pressão. Achei estranho no começo, depois entendi: provavelmente foi comprar em outro lugar, mais longe, onde ninguém soubesse da história.

Eu continuo aqui, atrás do balcão, na mesma esquina da Getúlio Vargas, medindo xarope e organizando prateleira de protetor solar fora de época. De vez em quando um cliente esquece o celular ligado depois de desligar a chamada, do jeito que a Regina esqueceu naquele dia — e eu sempre penso na mesma coisa: que sorte a gente tem, às vezes, de ouvir o que não devia.

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Odissea
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