O Dia em que Parei de Acreditar no Que Ele Dizia Sobre Mim

Eu tinha vinte e quatro anos quando falei da carteira de motorista pela última vez antes de desistir. O Mário riu por cima do jornal, nem tirou os pés do banquinho da varanda. Disse que eu era nervosa demais, que ia gastar dinheiro à toa, que ele me levava onde fosse preciso. E levava. Levava quando dava, quando queria, quando o serviço deixava. A gente morava em Curitiba, perto do terminal do Portão, e a minha irmã ficava em Ponta Grossa, a cento e dez quilômetros. Se ele não podia, eu pegava dois ônibus e ainda pedia carona do ponto até a casa dela. Quatro horas para ver a minha irmã.

Com o tempo, parei de tocar no assunto. Ele sempre tinha um motivo: eu era distraída, o trânsito estava violento, mulher sofre mais atrás do volante. Eu ouvia e guardava. Aos quarenta e nove, acreditei de vez. Se passei a vida inteira ouvindo que não servia, devia ser verdade.

O Mário gostava de ser necessário. Nunca foi um homem ruim de tudo, mas dormia melhor sabendo que qualquer saída minha dependia da boa vontade dele. Eu pedia. Ele resolvia quando bem entendia. E a minha vida ia ficando do tamanho do bairro.

Aos setenta e cinco, ele começou a enxergar mal à noite. Uma tarde, saiu da vaga do supermercado e raspou a lateral do carro no poste de concreto. O médico do posto mandou fazer exames, pediu para ele não dirigir até sair o resultado. O Mário achou um absurdo. Deixou o carro parado na garagem e passou a culpar a idade, o posto, a Prefeitura, o trânsito, a chuva. Menos ele. E, de repente, a culpa caiu em mim.

"Você devia ter tirado a carta quando era nova", disse numa terça-feira à noite, enquanto eu lavava a louça e ele trocava de canal. Falei que ele tinha passado quarenta e poucos anos me dizendo o contrário. Ele respondeu sem olhar na minha direção: "Eu estava te protegendo, mas você também não insistiu."

Naquela noite, deitei e fiquei olhando para o teto do quarto. A lâmpada do corredor piscava do mesmo jeito há três meses. Às duas da manhã, levantei para beber água e me vi no espelho da pia. Setenta e três anos. A mão esquerda ainda firme. A direita, aquela que eu usava para segurar o volante imaginário todo dia no ônibus, também.

Na quinta-feira, fui até a autoescola da Avenida República Argentina. Não pedi opinião. Não avisei. Paguei a matrícula com o cartão da feira, duzentos e oitenta reais, e saí de lá com um manual de trânsito dentro da bolsa, escondido debaixo do casaco.

A instrutora, dona Fátima, uma mulher de sessenta e poucos anos, me olhou com calma e disse que já tinha ensinado gente com mais idade que eu. As primeiras aulas foram um desastre. Confundia placa de pare com dê a preferência, calçava o freio com força, suava frio nas rotatórias. Chegava em casa com a blusa molhada e a cabeça doendo. O Mário via o manual na mesa e soltava uma risadinha pelo nariz.

"Tá jogando dinheiro no lixo."

Eu não respondia. Só puxava uma cadeira e estudava embaixo da lâmpada da cozinha. A vizinha do 307, dona Neusa, achou graça um dia: "A senhora estuda mais que menino de cursinho." Eu ri, mas continuei. A prova teórica caiu numa quinta de manhã. Errei duas questões a mais do que podia. Os quarenta e dois anos de "você não consegue" subiram pela garganta de uma vez, e eu chorei sentada no vaso do banheiro da autoescola, com o papel higiênico amassado na mão. Quase desisti. Mas a dona Fátima bateu na porta e falou por cima: "Dona Odete, a senhora não vai parar agora. A senhora já chegou até aqui."

Tentei de novo vinte e dois dias depois. Passei.

As aulas práticas foram piores. O Palio da autoescola rangia a cada arrancada minha. Na primeira ida à Rua Chile, um motoboy berrou "vai de táxi, vó". Minhas mãos tremiam no câmbio. Mas fui e voltei. Aprendi a baliza em duas semanas, coisa que eu nunca tinha feito na vida. Subia e descia a rua do Portão como se estivesse decorando cada buraco.

O Mário continuava sem acreditar, mas parou de debochar quando viu que eu saía todo dia às sete e meia da manhã, chovesse ou fizesse sol. Eu não pedia carona. Não avisava a hora que voltava. Pela primeira vez em cinco décadas, ele não sabia direito onde eu estava.

O exame prático caiu numa sexta-feira fria. O fiscal era um homem calado, de colete azul, que ficou olhando para frente o tempo inteiro. Eu mudei de faixa devagar, dei seta, parei na faixa. Quando ele disse "aprovada", segurei o volante com as duas mãos e fiquei respirando com a testa encostada no plástico. Ele pediu para eu assinar e descer. Eu assinei com a mão tremendo, mas assinei.

Cheguei em casa às onze e meia. O Mário estava no sofá, com o chinelo torto no pé esquerdo. Deixei a CNH provisória em cima da mesa da sala, perto do controle da TV. Ele olhou para o documento, depois para mim.

"Amanhã vou levar o carro no Seu Ari para revisar", eu disse.

Ele não respondeu. Só voltou a trocar de canal.

Na primeira semana, fui sozinha ao supermercado. Depois, levei a dona Neusa ao posto de saúde. Na terceira, fui buscar a minha irmã em Ponta Grossa. Ela chorou no portão. Disse que nunca pensou que eu fosse entrar na casa dela dirigindo. Eu fiquei com a mão no volante e senti o cheiro de grama molhada do quintal dela entrando pela janela.

Com o Mário, a história foi outra. Num dia de exame dele, me pediu para levá-lo ao oftalmologista. Fui. Ele passou o caminho inteiro dizendo onde frear, que faixa pegar, que o carro da frente estava perto. Eu aguentei até a metade do caminho. Parei o carro num posto de gasolina, desliguei o motor e me virei para ele.

"Você pode me ajudar se eu pedir. Mas não vai mais me chamar de incapaz."

Ele não disse mais nada. Só mexeu no relógio, com o pulsar da mão direita batendo no joelho. O resto da viagem foi em silêncio. Quando desci para pegar a cadeira de rodas na portaria, ouvi ele dizer baixinho para o rapaz do estacionamento: "É a minha esposa que dirige agora."

Demorou, mas aceitou. Não pediu desculpa. Não precisava. Eu também não precisava mais que ele acreditasse em mim. Eu já tinha ido longe demais para voltar.

Na última quarta-feira do mês, fui buscar o bolo de aniversário da dona Neusa na padaria da Rua Pará. Na volta, passei devagar pela rua de casa. O Mário estava parado no portão, com a chave do portão na mão, esperando. Ele viu o carro, levantou o queixo.

Eu acenei da janela.

Ele abriu o portão.

E, pela primeira vez em quarenta e sete anos, era ele quem esperava eu chegar.

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: