Eu tinha resolvido tudo antes mesmo de sair de casa. Vi a foto no perfil da ONG "Patinhas de Guarapari" às onze da noite, rolando o feed depois do plantão no consultório — sou dentista, trabalho num prédio perto da orla, e aquela semana tinha sido de canal atrás de canal. O cachorro da foto era um vira-lata caramelo grandão, orelhas em pé, olhar sério. Batizei ele de Trovão ali mesmo, na cama, antes de dormir. No dia seguinte peguei o carro, desci a Rodovia do Sol com a janela aberta, cheiro de maresia misturado com o óleo diesel dos caminhões de peixe, e cheguei ao abrigo com a cabeça já organizada: ele ia me ver, ia vir andando, eu ia levar ele pra minha casa em Setiba e pronto.
A voluntária que abriu o portão se chamava Rosana, avental cheio de pelo grudado, uma caneca de café frio na mão. Ela destrancou o canil e ficou ali, esperando minha reação mais do que a do cachorro. Porque a reação dele foi nenhuma. Trovão nem virou a cabeça direito. Ficou parado no canto do cimento rachado, orelha baixa, olhando pra um ponto qualquer atrás de mim, como se eu fosse móvel.
— Ele é assim mesmo? — perguntei, já sentindo o calor subir no rosto, aquela vergonha boba de quem viajou quarenta minutos pra ser ignorada por um cachorro.
— Com a gente ele é gente boa. Só que… — Rosana deu de ombros e bebeu o resto do café, fazendo careta porque devia estar gelado.
Me abaixei, chamei baixinho, estendi a guia. Ele olhou pra mim de relance e desviou de novo, os olhos fixos num canto do canil coberto por uma manta velha estampada de flor, dessas que sobram de doação. Segui aquele foco. Ali, encolhida, quase grudada na parede, tinha uma cachorrinha pequena, tipo vira-lata caramelo também, mas magrinha, ossuda, tremendo mesmo com aquele calor de outubro capixaba que já dava vinte e oito graus às nove da manhã. Ela não tirava os olhos do cachorro grande. E ele vigiava ela como se o mundo inteiro dependesse daquilo.
Entendi na hora que não eram dois animais que tinham calhado de dividir espaço. Trovão não latiu, não puxou, não fez cena. Só ficou parado, recusando sair sem ela.
— Rosana — falei, ainda agachada —, dá pra levar os dois?
Ela virou tão rápido que parecia esperar a pergunta desde que eu tinha estacionado.
— Vou ser sincera com você. — Pousou a caneca na mureta. — Já tentamos adotar ele sozinho duas vezes. Voltou as duas. A família ligava dizendo que ele não comia, ficava deitado na porta, arranhando. Devolveram achando que era problema de comportamento. Ninguém pensou em perguntar pela pequena.
— E agora vocês topam liberar os dois pra mim, assim, de cara?
— A diretora da ONG vai querer conversar antes. — Ela torceu a boca. — Dois animais grandes pra uma pessoa só, apartamento ou casa, ela sempre pergunta se dá conta financeiramente. Já teve gente que devolveu os dois juntos por não aguentar o gasto.
Fiquei ali, com a guia ainda na mão, fazendo conta rápida na cabeça — ração dobrada, vacina dobrada, o aluguel do consultório que já apertava no fim do mês. Por um segundo, a dúvida pesou mais que a vontade.
A diretora, dona Marlene, chegou vinte minutos depois, cadastro na mão, óculos na ponta do nariz. Fez as perguntas de praxe, olhou pro quintal murado que eu descrevi, perguntou se eu trabalhava fora o dia inteiro. No fim, assinou o termo, mas avisou:
— Primeira semana eu ligo todo dia. Se um dos dois parar de comer, quero saber na hora.
Levei os dois pra casa naquele mesmo sábado — chamei a pequena de Aurora, porque nasceu, praticamente, ali naquele canto de canil, escondida do mundo. Os primeiros dias em Setiba foram de reconhecimento: ela dormia encostada nas costelas dele, ele não comia sem antes ver se ela já tinha comido. Levei os dois no veterinário da Praia do Morro, gastei setecentos e oitenta reais em vacina, vermífugo e um exame de sangue que a Aurora precisou por causa da anemia — magreza de quem passou fome antes dos quatro meses de vida. O resultado veio alterado, hemoglobina baixa, e o veterinário falou em acompanhamento semanal, talvez transfusão se não melhorasse. Passei um mês pesando ração fortificada em balança de cozinha, anotando cada grama num caderno, ligando pra clínica toda sexta-feira com medo do número no exame.
Foi bem nesse mês, numa noite de setembro, feriado da Independência, que os fogos começaram a estourar na orla mais cedo que o previsto. Eu estava lavando a louça quando ouvi o portão do quintal bater — Aurora, apavorada com o primeiro estampido, tinha se jogado contra a tela e conseguido abrir uma fresta larga o bastante pra passar. Corri lá fora e só vi o rabo dela sumindo na esquina, direção à faixa de areia, e Trovão atrás, disparado, sem latir, como se soubesse exatamente aonde ela ia.
Saí de chinelo mesmo, gritando o nome dos dois num bairro que àquela hora só tinha barulho de rojão e cachorro latindo em quintal alheio. Levei quase quarenta minutos na escuridão da orla, perguntando pra quem cruzava, batendo lanterna de celular em touceira de coqueiro, o coração subindo cada vez que um foguete estourava perto, imaginando ela correndo mais pra longe, atravessando a pista movimentada da Rodovia do Sol. Encontrei os dois enfim atrás de um trailer de coco fechado: Aurora enfiada debaixo da estrutura de madeira, tremendo, e Trovão deitado bem na entrada do vão, corpo inteiro bloqueando a saída dela pra rua, como se tivesse decidido sozinho que dali ninguém passava.
Peguei Aurora no colo, ainda tremendo, sentindo o coraçãozinho dela batendo rápido contra meu braço, e Trovão veio andando do meu lado o caminho inteiro de volta, colado na minha perna, sem soltar os olhos dela nem por um segundo.
Passaram-se onze meses depois daquela noite. Aurora cresceu, ainda pequena perto dele, mas com o corpo redondo agora, pelo brilhando, o exame de sangue normalizado faz tempo. Hoje, quando chego do consultório e abro o portão de casa, é sempre o mesmo quadro: os dois na varanda, encostados, um focinho apoiado no lombo do outro, esperando. Aurora levanta primeiro, sacode o rabo. Trovão só depois, devagar, como quem confere se está tudo certo antes de vir até mim.
