Uma dessas eu não quero

— Miguel, entra no meu gabinete.

Quando ouviu a voz do chefe pelo intercomunicador, Miguel já sabia. A tarde na fábrica de metalomecânica, nos arredores de Braga, ia terminar com mais uma repreensão.

O senhor Artur estava sentado à secretária, com a folha da encomenda na mão.

— Senta-te, Miguel.

Ele sentou-se.

— Outra vez uma ordem mal preenchida. Outra vez material trocado. Eu avisei-te. Vais levar uma advertência, e a tua bonificação trimestral fica sem efeito.

— Compreendo.

— Não compreendes. — O chefe tirou os óculos. — O teu pai era meu amigo. Prometi-lhe que te dava trabalho e que olhava por ti. Mas tu estás a escorregar, rapaz. Tens quase quarenta anos. Sem família, sem planos, sem vontade. Vais para casa como quem vai para um quarto de hotel vazio. É isto que queres?

Miguel não respondeu.

Apanhou o autocarro cheio para casa. À sua volta, pessoas falavam de jantar, de filhos, de compras, de contas. Um homem dizia ao telefone:

— Estou a chegar, amor. Põe a sopa ao lume.

Miguel sentiu uma inveja absurda daquela frase.

Ninguém punha sopa ao lume por ele.

Durante anos achou isso maravilhoso. Liberdade. Fazer o que queria, sair quando queria, beber com amigos, conhecer mulheres, acordar tarde. Os amigos casaram, tiveram filhos e começaram a falar de fraldas, prestações e reuniões na escola. Miguel chamava-lhes aborrecidos.

Agora, na cara deles, via cansaço.

Mas também via pertença.

A mãe tinha tentado avisá-lo.

— Filho, olha para a Teresa do prédio ao lado. É boa rapariga, está a tirar enfermagem, ajuda a mãe, e gosta de ti. Vê-se de longe.

Miguel ria.

— Mãe, uma dessas eu não quero. É simples demais.

Simples demais.

No autocarro, as palavras envergonharam-no.

Desceu sem prestar atenção e caminhou por ruas antigas. Quando deu por si, estava diante do prédio onde crescera. Subiu as escadas até ao segundo andar, tirou a chave do bolso e tentou abrir a porta.

A chave não entrou.

Antes que pudesse reagir, a porta abriu-se.

A mãe estava ali.

Com o robe florido, as faces coradas e o cheiro de arroz de frango vindo da cozinha.

— Miguel? Vieste sem avisar? Entra, filho. O teu pai está a pôr a mesa.

Miguel ficou sem voz.

— Mãe…

O pai apareceu atrás dela, com a camisola de lã velha.

— Olha quem veio. Pensei que finalmente trazias uma namorada.

Miguel recuou.

— Vocês morreram.

O pai olhou para ele com calma.

— Nós sim. Mas tu ainda não. Embora às vezes pareça que te esqueceste disso.

A mãe tocou-lhe no braço.

— Andas vazio, filho.

— Eu não sei o que fazer.

— Começa por não fugir daquilo que é bom só porque não faz barulho.

— A Teresa?

A mãe sorriu.

— A Teresa tinha um coração bonito. Tu é que naquela altura só vias brilhos.

O pai acrescentou:

— Uma casa não se constrói com vaidade. Constrói-se com alguém que fica quando o entusiasmo passa.

Miguel fechou os olhos.

Quando os abriu, estava no meio de um jardim público.

O prédio tinha desaparecido.

No lugar dele havia bancos, árvores novas e um parque infantil. Claro. O prédio fora demolido há anos. Os pais tinham morrido cinco anos antes. Miguel tratara da venda, das contas, das campas.

Ficou sentado num banco até anoitecer.

Naquela noite não foi ao café. Tomou banho, fez uma sandes, arrumou a cozinha e dormiu pouco.

No dia seguinte, depois do trabalho, foi ao bairro novo para onde tinham sido realojados antigos moradores. Não sabia se Teresa ainda vivia ali. Devia estar casada. Mulheres assim não esperam por homens que as acharam simples demais.

Durante vários dias passou por lá.

No sábado viu-a.

Estava à porta de uma farmácia, despedindo-se de uma amiga.

— Até segunda, Teresa!

Miguel parou.

Ela virou-se. Reconheceu-o devagar.

— Miguel?

— Olá.

— Estás diferente.

— Pior?

— Mais cansado.

Ele riu sem jeito.

— Justo. Eu procurava-te.

— A mim?

— Sim. Queria saber se ainda havia tempo para um café. Se não tiveres marido à espera.

Teresa sorriu.

— Não tenho marido. E tenho tempo para um café.

Sentaram-se numa pastelaria pequena. Ela trabalhava como enfermeira no centro de saúde. Tivera um namoro sério, mas acabara porque percebeu que não queria casar com alguém que a achava conveniente.

Miguel baixou os olhos.

— Eu também te achei conveniente. Ou melhor, achei que eras pouco.

Teresa mexeu o café.

— Eu sei.

— Desculpa.

Ela olhou para ele.

— O pedido de desculpa é um começo. Não é uma porta aberta.

Ele aceitou.

E talvez por isso a porta, mais tarde, se abriu.

Miguel mudou com paciência. Deixou de beber depois do trabalho. Começou a chegar cedo. No emprego, conferia tudo duas vezes. O senhor Artur, meses depois, bateu-lhe no ombro.

— Agora sim. O teu pai ficaria descansado.

Antes do casamento, Miguel levou Teresa ao cemitério. Limparam a pedra dos pais, colocaram flores.

— Mãe, pai, esta é a Teresa. Eu disse um dia que uma dessas eu não queria. Ainda bem que a vida não me levou à letra para sempre.

Teresa sorriu.

— Obrigada por lhe terem dado mais uma oportunidade de perceber.

Quando nasceu o filho deles, Miguel descobriu que a vida comum era tudo menos pequena. Havia noites sem dormir, roupa por lavar, contas, consultas. Mas havia também uma voz a chamar:

— O pai chegou!

E isso valia mais do que todos os brilhos que ele perseguira.

Nunca soube explicar o que aconteceu naquela noite no velho prédio.

Talvez fosse saudade. Talvez cansaço. Talvez um milagre.

Mas aprendeu que, às vezes, os mortos não voltam para assustar.

Voltam por um instante para nos lembrar que ainda estamos vivos — e que ainda há tempo de escolher melhor.

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Odissea
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