# Quatrocentos e trinta e sete shows em quinze anos

O cara que todo mundo conhece por causa de um único papel entrou no palco de um ginásio em Contagem, na Grande BH, numa sexta-feira qualquer, sem nenhum alarde na imprensa. Baixo comum, tênis surrado, camisa xadrez. Ninguém ali tinha recebido convite gravado em relevo com o próprio nome. Entrava quem tivesse carteira de reservista, crachá de bombeiro ou simplesmente uma cicatriz impossível de esconder embaixo da manga.

Conheço esse ginásio de cor. Trabalho lá como técnico de iluminação há nove anos. No sábado a gente ia montar a arquibancada pra um jogo de vôlei, e na sexta-feira estava ali aquele ator que minha mãe diz que a fez chorar no cinema em 1994. Eu só lembro dele por causa de uma cena. Mas naquela noite ninguém falava de cena nenhuma.

O produtor só me disse: "Você ajusta a luz, não fica de boca aberta". Só que como não ficar assim, se na plateia tem gente sem perna, sem braço, sem metade do rosto, cantando "Sweet Home Alabama" junto com ele até o ginásio inteiro tremer. Um cara de cadeira de rodas, que depois eu ainda ajudei a segurar um cabo, pegou o microfone e gritou pros fardados: "Agora eu vou mostrar pra vocês como se dança, rapaziada". Dançou com os braços.

A história começou antes, lá pelos anos oitenta, segundo o material que a produção da turnê nos mandou. Diz que na família dele havia uns veteranos de uma guerra ainda mais antiga, lá na Ásia, e foram eles que ensinaram pra ele que, depois que a gente volta, vem o silêncio. Não aquele bom, mas o que fica zumbindo no ouvido quando você fica sozinho no quarto.

Depois do filme ele podia ter feito qualquer coisa. Hollywood ligava, propostas em cima da mesa, e ele foi lá e comprou um baixo e montou uma banda. O nome da banda é o mesmo do personagem que ele fez. Todo mundo achou que era frescura de ator rico. A turnê ia durar um ano, no máximo dois.

Já são quinze anos, e eu já vi quatrocentos e trinta e sete shows. Nem todos, claro. Vi um naquele ginásio de Contagem e, nos anos seguintes, ficava caçando na internet onde eles iam tocar, porque a curiosidade não me deixava em paz. Quatrocentos e trinta e sete. Esse número me incomodava, porque eu não conseguia comparar com nada. Meu irmão, que é professor, fez vinte e três desfiles de Sete de Setembro na carreira dele e sempre reclamava que era demais.

E lá estava um cara que podia estar numa mansão com piscina, tocando pra duzentas pessoas em Cruz Alta, porque justo lá tem um quartel que ninguém visita.

Depois vi na internet a foto de uma casa. Não a casa dele. Uma casa que ele construiu pra outra pessoa. Soleira baixa, porta larga, pia mais baixa pra quem está numa cadeira de rodas alcançar a panela sozinho. Falam que ele já construiu mais de cem casas assim. Alguém me contou que é sem financiamento, ele simplesmente entrega a chave na mão da pessoa. Eu, pra comprar um apartamento de dois quartos no Barreiro, peguei financiamento de trinta anos. Até hoje tenho cento e oitenta e uma parcela pra pagar.

Perguntei depois pra um amigo que trabalha em set de filmagem em São Paulo se aquilo era verdade. Ele olhou pra mim como se eu fosse bobo e disse: "Mano, ele só aceita cachê pra ter dinheiro de continuar fazendo essas casas".

E foi isso que mais me pegou. Não o número de shows. Não o número de casas construídas. Foi eu perceber que há nove anos fico mexendo nos mesmos refletores no mesmo ginásio e nunca, nem uma vez, pensei que podia fazer alguma coisa que não terminasse na minha própria conta do banco.

Não sou herói nenhum. Nunca servi o Exército. Fui dispensado por causa de uma asma que provavelmente eu mesmo inventei na hora da junta médica. Não tenho trauma nenhum grande pra contar. Mas naquela noite, quando o ator desceu do palco e entregou uma água pro cara da cadeira de rodas — não um veterano famoso de reportagem de TV, um sujeito qualquer de Bagé que tinha perdido as pernas numa missão no Haiti —, alguma coisa em mim mudou de lugar, como se alguém tivesse trocado a direção do refletor que eu passei anos apontando só pra um lado.

Não era inveja de dinheiro nem de fama. Fiquei parado na mesa de luz lembrando de todos os plantões que fiz naquele ginásio — quantas vezes montei os mesmos tripés, quantos dias contei até o pagamento cair. Nunca tinha contado pra quem aquelas luzes serviam além de mim mesmo.

Depois do show fui buscar fita isolante no depósito e vi o ator parado perto da rampa lateral. Ninguém do lado dele. Ele ficava girando entre os dedos o rótulo de papelão de uma garrafa de água, daqueles vermelhos que descolam fácil. Não parecia astro nenhum. Parecia um baixista cansado, tentando pela centésima vez convencer a si mesmo de que ainda tinha força pra continuar tocando.

Eu podia não ter falado nada. Tinha o celular no bolso com o aplicativo do banco aberto. Conferi o saldo. Quatro mil duzentos e trinta reais. Tem quem diga que é pouco. Pra mim eram três meses guardando dinheiro pra trocar de pneu no inverno.

Entrei na salinha do técnico, sentei na mesa velha e escrevi um e-mail curto pro instituto que o ator mantém. Não pedindo ajuda. Perguntando se aceitavam doação de um técnico qualquer de ginásio.

Responderam dois dias depois. Informei o valor. Quatro mil duzentos e trinta reais. Deixei exatos duzentos reais na conta. Que fosse pro pão e pros dois vales-transporte do mês.

Duas semanas depois da minha transferência, apareceu no ginásio um rapaz novo. Disse que tinha se formado técnico, que já tinha montado cenário pra festa junina. Perguntou se podia deixar o currículo. Parecia coisa boba. Mas antes de sair, ele me mostrou uma foto no celular. Ele sentado numa cadeira de rodas na frente de uma casa térrea, e do lado o ator, os dois rindo. "Esse é meu pai", ele disse. E completou: "A casa que eles fizeram tem o interruptor na altura do joelho. Ele acende a luz sozinho".

Peguei o currículo dele, abri a gaveta de cima da mesa e guardei junto com as notas fiscais velhas de lâmpada. Voltando pra salinha, apaguei a luz naquele interruptor que eu alcanço no escuro há nove anos, bem na altura do meu ombro.

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Odissea
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