Ele voltou para o calor, não para ela

 

Lá fora, a neve fina batia nos vidros da pequena casa perto da Serra da Estrela. Lá dentro, havia calor. O fogão a lenha estalava, a chaleira fumegava e Clara cortava bolo de maçã enquanto o marido, António, mexia o chá com mel.

— Bebe antes que arrefeça — disse ela.

— Estou a apreciar o momento.

— O momento ou o bolo?

— Não vejo diferença.

Clara sorriu.

A casa deles era simples. Tinha móveis antigos, uma toalha de linho já gasta e uma janela por onde entrava luz fria de inverno. Mas havia paz. E Clara sabia o valor da paz porque vivera anos sem ela.

Foi então que bateram à porta.

António levantou-se. Clara ouviu vozes no corredor. Uma delas fez-lhe a mão parar sobre a faca.

Quando António voltou, vinha com Rui.

O ex-marido dela.

O casaco estava molhado, o cabelo grisalho, a cara abatida. Segurava o gorro nas mãos, como se não soubesse onde pôr o arrependimento.

— Olá, Clara.

— Olá, Rui.

António pôs uma terceira chávena na mesa. Sem espetáculo. Sem ciúme. Apenas com a dignidade de quem confia no lugar que ocupa.

Rui sentou-se e aqueceu as mãos.

— Passei aqui perto. Vi a luz. Pensei em ir embora, mas bati.

Clara lembrava-se de quando aquela luz era dele. Ele chegava e queixava-se da rotina, do jantar, das perguntas dela, da vida que chamava pequena. Depois foi embora com uma mulher mais nova, dizendo que precisava de se encontrar.

Clara demorou anos a perceber que ele nunca se tinha perdido.

Apenas não queria ficar.

— Eu errei — disse Rui. — Perdi a única coisa que era verdadeira. Hoje volto para um apartamento vazio. Ninguém me espera. Ninguém sabe como eu tomo o chá. Ninguém me conhece como tu conhecias.

Olhou para ela com olhos húmidos.

— Perdoa-me. Talvez ainda haja uma hipótese. Talvez possamos tentar outra vez.

Clara pousou a faca.

Durante muito tempo, no passado, sonhara com aquele momento. Imaginava-o de joelhos, arrependido, a pedir para voltar. Mas a vida dera-lhe algo melhor do que vingança: distância.

— Rui, tu não voltaste por amor.

Ele ficou pálido.

— Voltei porque te amo.

— Não. Voltaste porque tens frio.

O silêncio caiu sobre a cozinha.

Clara continuou:

— Sentes falta da casa, do cuidado, da mulher que esperava. Mas eu já não sou uma lareira acesa para quem queimou a própria casa e agora procura abrigo.

Rui baixou os olhos.

Não havia resposta para uma verdade tão limpa.

Levantou-se devagar.

— Desculpa.

— Já desculpei há muito tempo — disse Clara. — Só não abro a porta ao mesmo sofrimento duas vezes.

António acompanhou-o à saída. Quando voltou, Clara estava a olhar para a janela.

— Estás bem?

— Estou. Achei que ia doer mais.

— E doeu?

Ela abanou a cabeça.

— Não. Foi como ouvir uma porta fechar ao longe.

António serviu-lhe chá novo.

Lá fora, a neve apagava as pegadas de Rui no caminho.

Dentro, o bolo continuava morno.

Algumas pessoas voltam porque amam.

Outras voltam porque descobriram que ninguém mais quer aquecer-lhes a solidão.

 

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