O anjo de três cores

Marcela mal tinha passado pela porta e já ouviu a voz do Ricardo atravessando o corredor.

— Você pirou de vez, mulher? Tira isso daqui! — ele quase derrubou o copo de cerveja em cima da televisão. — Grávida de quase quarenta semanas e pegando bicho na rua? Leu porcaria nenhuma na internet? Pega micose, toxoplasmose… um monte de ose!

Ela nem respondeu. Só chutou a sandália num canto da sala e foi direto pro quarto com o gatinho apertado contra o peito. O bichano era minúsculo, mal cabia na palma da mão. Três cores: branco, laranja e preto. Os olhos ainda meio azulados de filhote.

Ricardo veio atrás. Quando ele entrava naquele modo “provedor indignado”, não tinha trégua.

— Vamos combinar o seguinte: amanhã cedo eu mesmo levo ele de volta. Largo na praça, perto do coreto. Lá sempre tem um pessoal que dá comida. Rato de rua sobrevive, Marcela.

— Não é rato. É gato. E não vai pra praça nenhuma.

— Como assim não vai?

Marcela sentou devagar na cama. A colcha ainda tinha o cheiro de amaciante de lavanda que a tia Fátima usava — a mesma que ela tinha comprado no Mercado Central na semana anterior. Passou o dedo no focinho do gatinho e sentiu a tremedeira voltar. Não era frio. Era o resto do susto que ainda não tinha ido embora.

— Ele salvou a minha vida, Ricardo. E salvou a vida da sua filha também.

Ricardo abriu a boca e fechou. Depois abriu de novo.

— Tá me tirando?

— Senta aqui.

Ele bufou, mas sentou. Na ponta da cama, olhando para o gatinho como se aquilo fosse um inseto venenoso prestes a picar alguém.

Marcela respirou fundo e começou a contar.

Três horas antes, ela estava na casa da tia Fátima, em Várzea Grande. A tia tinha setenta e nove anos e nos últimos tempos vivia com o humor oscilando igual sinal de celular no Pantanal. Às vezes bem, às vezes péssimo. Naquele dia, estava péssimo.

— O Zé Augusto veio me buscar — foi a primeira coisa que a tia disse quando Marcela entrou.

Marcela parou com o bolo de fubá a meio caminho da mesa. O tio Zé Augusto tinha morrido fazia oito anos. Infarto fulminante no banco do carona, voltando de Chapada dos Guimarães. Ela estava no banco de trás e viu tudo. Tinha dezesseis anos.

— Ele veio buscar a senhora como, tia? A senhora está acordada. Isso foi sonho.

— Acordada. Dormindo. Tanto faz como tanto fez. Parecia que eu tava com ele na cozinha, aqui do meu lado. O Zé com aquele chapéu ridículo que ele insistia em usar, sabe qual. Disse que eu já tinha enrolado muito. Falou da pescaria que ele nunca me levou e que agora era a hora.

A tia Fátima olhou para a janela. Do lado de fora, um sol de rachar o asfalto e uma cigarra que não parava de chiar. O relógio de parede fazia tique-taque, tique-taque. O bolo continuava no ar, esquecido.

— Eu disse pra ele que não ia. Que eu ainda tinha um compromisso aqui. Que eu queria ver a menina da Marcela nascer. Queria ver a carinha da bisneta. Sabe o que ele fez?

Marcela balançou a cabeça, muda.

— Virou as costas e foi embora. Mas antes me olhou de um jeito… um jeito que eu conhecia bem. Ele ficava assim quando se ofendia. E o Zé ofendido não desistia, só dava um tempo. — A tia Fátima fungou. — Não vou conhecer a bisneta, Marcela. Não vou.

— Para com isso, tia. A senhora mesma dizia que sonho é só o cérebro varrendo a sujeira do dia. Vai ver a senhora comeu pamonha tarde ontem e fez a cabeça trabalhar à toa.

— E você? Você sonhou com alguma coisa?

Marcela sentiu um gelinho no estômago. O gatinho. Ela tinha sonhado com ele a noite inteira. O mesmo gatinho tricolor de quando era criança. Todo mês de junho ele aparecia, durante anos. Depois sumiu. E agora, justo naquela noite, tinha voltado. Mas ela não ia contar aquilo. Não ia dar corda para o medo.

— Sonhei que estava atrasada para o dentista. Bobagem.

Tomaram chá mate com o bolo de fubá. Marcela saiu de lá com um abraço mais apertado do que o normal e uma promessa de voltar na quinta.

Na quinta, a tia Fátima amanheceu morta. Dormiu e não acordou mais. A bisneta nasceria dali a duas semanas.

No dia seguinte ao enterro, Marcela não conseguia chorar. Sentia o corpo seco, os olhos ardendo. Ricardo fez o que pôde: esquentou a bolsa térmica, preparou chá de camomila, disse que a tristeza ia passar. Mas Marcela sentia uma coisa diferente. Medo. Medo de que o sonho da tia não tivesse sido só um sonho.

Duas semanas depois, a três dias da cesárea marcada, ela acordou às três e vinte da madrugada com a cara do tio Zé Augusto colada na memória. No sonho, ele caminhava pela Avenida do CPA, debaixo de um sol que parecia de mentira, tudo meio amarelo demais. Olhava pra trás e chamava com a mão. Aquele gesto largo de quem está com pressa. Marcela gritava que não podia, que a menina ia nascer, que a tia Fátima tinha feito a mesma escolha e veja no que deu. O tio Zé Augusto fez bico e bateu o pé no chão como se estivesse chamando uma criança para comer abóbora. Depois levou a mão ao peito e começou a dobrar o corpo.

Ela foi. Deu um passo na direção dele — e foi aí que ouviu o miado. Um som agudo, desesperado, que parecia rasgar o meio da avenida. Um gatinho tricolor no meio da pista. Por trás dele, uma Hilux preta vinha a toda velocidade, sem freio, sem seta, sem nada. O gato e o carro. O tio Zé Augusto e o gato. Marcela ficou paralisada. A Hilux se aproximava e o tio chamava e o gato miava e ela não sabia para onde ir. Foi o miado que decidiu. Ela virou para o lado do bicho — e acordou com o Ricardo sacudindo o ombro dela.

— Você tava gritando, Marcela. Gritando e eu não conseguia te acordar.

Ela demorou dez segundos para entender onde estava. No quarto. Em Cuiabá. Grávida. Viva.

— Meu tio Zé veio me buscar. Igualzinho fez com a tia Fátima. Ricardo, eu tive o sonho. O mesmo sonho.

— Que nada, mulher. Eu li uma vez que sonhar com parente falecido é sinal de vida longa. Tá na internet.

Marcela queria acreditar nisso. Queria mesmo.

De manhã, lembrou que tinha hora marcada no salão. Cabelereiro. Ela queria dar uma ajeitada nas pontas, qualquer coisa que a fizesse sentir-se menos fantasma. O salão era no bairro Goiabeiras, perto de casa. Dava para ir a pé. Ela calçou um tênis e avisou o Ricardo que em uma hora estava de volta.

O sol já estava castigando. Na calçada, uma mangueira velha fazia sombra pela metade. Perto do ponto de ônibus, um carro estacionado tinha um adesivo no vidro: “Deus é fiel”. Ela andou dois quarteirões e foi quando chegou na esquina da Fernando Corrêa. O sinal de pedestre estava verde. Vinte segundos para atravessar. Ela apressou o passo.

E aí ouviu um miado.

Não era um miado qualquer. Era o miado. O mesmo do sonho. O mesmo da infância.

O gatinho estava no cantinho da calçada, atrás de uma lixeira. O tricolor. Branco, laranja e preto. Magrinho, assustado, tremendo. Marcela parou. O sinal ainda estava verde. Quinze segundos. Quatorze. Treze.

Ela deu um passo para trás e se abaixou.

Foi quando tudo se partiu.

Um estouro, um grito, cheiro de borracha queimada e poeira. Uma Hilux preta passou exatamente onde ela estaria se tivesse continuado andando. Passou em cima da faixa, varou a calçada do outro lado e entrou de frente numa loja de material de construção. A marquise desabou num estrondo que fez até pombo voar do telhado da igreja.

Marcela ficou ali, parada, ajoelhada no chão sujo, com o gatinho tricolor no colo e a vida inteira passando feito um filme mudo. O motorista saiu do carro cambaleando, com cheiro de cachaça e um corte na testa. Uma moça correu para ajudar. Alguém gritou “chama o SAMU”. Mas Marcela não ouvia mais nada. Só sentia o bafinho quente do gatinho no pulso e o coração batendo por dois.

Ela não foi ao salão. Voltou para casa com o bicho enfiado dentro da bolsa de pano, as pernas bambas, os olhos cheios d'água.

— Você agora se chama Milagre — sussurrou para o bichano.

Ricardo ouviu a história inteira calado. Quando Marcela terminou, ele estava mais pálido do que a parede da cozinha. Olhou para o gatinho. Depois para a barriga de Marcela. Depois para o gatinho outra vez.

— Ele salvou mesmo?

— Ele salvou.

— E você acha que foi… sei lá… a tia Fátima que mandou?

— Não sei. Só sei que se eu tivesse ignorado o miado, você estaria agora escolhendo caixão. Meu e da sua filha.

Ricardo engoliu seco. Ficou um minuto em silêncio. Depois se levantou devagar, foi até a geladeira e tirou um pedaço de frango que tinha sobrado do almoço. Picou em pedacinhos bem pequenos e colocou num pires. Voltou para o quarto e deixou o pires na cama, do lado do gatinho.

— Come, bicho. Come à vontade.

O gatinho cheirou, lambeu, depois abocanhou o primeiro pedaço. A barriguinha tremia enquanto ele mastigava.

Foi aí que Marcela arregalou os olhos, levou a mão à barriga e apertou o lençol com força.

— Ricardo.

— O quê?

— Acho que a bolsa estourou.

Quatro dias depois, Marcela voltou para casa. No colo, vinha a Isadora. Dois quilos e oitocentos, a cara amassada e o nariz minúsculo. Enrolada numa manta cor-de-rosa com borda de crochê. O cheiro dela era de leite e talco.

Quando abriu a porta, a primeira coisa que viu foi o tablado que Ricardo tinha improvisado no canto da sala: uma almofada velha em cima de um banco de madeira, um potinho de água do lado. E em cima dele, o Milagre. O gatinho dormia de barriga para cima, as patas encolhidas, o rabo enrolado na própria orelha.

— Eu levei ele no veterinário — Ricardo disse, pegando a bolsa de fraldas do ombro de Marcela. — Comprei ração premium, areia biodegradável, arranhador, potinho antipulgas. Levei na melhor clínica da cidade. A médica falou que ele tem um mês e meio. Desverminou e deu vacina. Taí, seu gato. Seu anjo. Seja lá o que for.

Marcela se aproximou do banquinho. Milagre abriu um olho só, miou baixinho e voltou a dormir. Isadora resmungou no colo e mexeu a mãozinha, como se procurasse alguma coisa no ar.

— Ele salvou vocês duas — Ricardo falou, a voz meio embargada. — Então ele fica.

Marcela sorriu. Um sorriso cansado, daqueles que só aparecem depois que o medo já foi embora.

Naquela noite, enquanto amamentava Isadora na poltrona da sala, Milagre subiu no braço da cadeira e se enroscou numa banda da manta cor-de-rosa. Ficaram os três ali, no escuro, ao som do ventilador. Do lado de fora, a mangueira do quintal balançava as folhas com o ventinho da madrugada. Ninguém teve sonho ruim.

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