A casa de Jurandir cheirava a café passado e naftalina. Todos os dias, desde que a esposa partiu, ele acordava às cinco e meia sem despertador. O corpo simplesmente sabia. Café com pão e manteiga às sete em ponto — a manteiga tinha que ser a com sal, de um pote de vidro que ele comprava na vendinha da esquina, na Rua dos Funcionários. Caminhada de quarenta minutos pelo Parque Barigui, o mesmo trajeto, o mesmo banco de cimento perto do lago, o mesmo pipoqueiro que o cumprimentava com a cabeça. Jornal “Gazeta do Povo” às dez. Sopa de feijão ao meio-dia. Sesta às duas.
Era a única coisa que ancora ele na vida depois que a dona Aparecida se foi. Aos oitenta e dois anos, Jurandir entendia que a ordem mantém a forma onde nada mais mantém. Sem a rotina, talvez ele se desmanchasse no ar como fumaça de churrasqueira.
A neta Beatriz apareceu num sábado de manhã — bronzeada, barulhenta, arrastando uma caixa de transporte que resmungava sozinha.
— Vô — ela disse já da porta, largando a bolsa no chão —, esse é o Amendoim. Ele é um amor de pessoa.
Jurandir olhou para a caixa. Depois para a neta.
— Que pessoa? É um cachorro.
— Dachshund. Sabe, salsichinha. Só que miniatura.
— Tô vendo que não é um dinossauro. E por que trouxe?
— Vô, eu não tenho com quem deixar ele. É só uns dias, a Cláudia ia ficar, mas a mãe dela adoeceu em Londrina, a senhora lembra da Cláudia, né?
— Não.
— Vô…
— Na área de serviço — ele cortou, apontando com o queixo. — Bota lá. E assunto encerrado.
Beatriz abriu a boca. Pesou alguma coisa na cabeça.
— Tá. Na área. Por enquanto.
Eram duas palavras. Mas ninguém prestou atenção nelas.
Amendoim era um bicho comprido, marrom, com orelhas que arrastavam no chão e um olhar fixo e paciente, como se já soubesse o desfecho de cada história antes mesmo de ela começar. Jurandir abriu a porta da área de serviço e fez um gesto.
— Entra.
O cachorro não entrou. Farejou o batente da porta, depois a perna da mesa de jantar, depois o tapete da sala. Caminhava metódico, profissional.
— Área — repetiu Jurandir, mais firme.
Amendoim passou por ele como se fosse um poste. Parou bem no meio do tapete, sob o lustre antigo que a Aparecida escolhera numa loja do centro há quarenta anos. Sentou. E encarou Jurandir com uma expressão que não era de desafio — era de conversa.
— Eu falei: área.
O cachorro bocejou. Um bocejo escandaloso, com um barulhinho no final.
Jurandir foi até ele. Não fugiu. Simplesmente se levantou, deu meia-volta e se enfiou debaixo do sofá.
Ele ficou parado no centro da própria sala, olhando o vão entre o sofá e o assoalho de tábua corrida. Quarenta e dois anos comandando equipe na antiga companhia de energia. E ali estava. Parado. Diante de um cachorro salsicha.
Na segunda semana, Amendoim já não irritava. Virava parte do cenário, como o relógio de parede ou o porta-guardanapos de crochê. E observava Jurandir o tempo inteiro. Sentava ao lado dele e ficava ali — orelhas atentas, cabeça levemente inclinada, como quem escuta uma conversa importante.
Numa terça, Jurandir lia no jornal sobre o aumento da tarifa do ônibus na Rodoferroviária e soltou, sem pensar:
— Absurdo.
Amendoim latiu. Uma vez. Curto.
Jurandir baixou o jornal.
— Concorda?
O cachorro piscou.
— Claro — murmurou ele. — Absurdo, né.
Foi a primeira conversa dos dois.
Três dias depois, Jurandir entrou numa agropecuária no bairro Juvevê. Pegou a ração mais barata — a mesma que a Beatriz trouxera. Colocou no cesto. Olhou para a prateleira do lado. Havia outra. Cara. No pacote: “Pequenas raças ativas — cordeiro selecionado”.
Segurou o pacote um tempo. Pesou na mão. Devolveu. Pegou de novo.
O bicho não para quieto. O dia inteiro correndo pela casa. É ativo, sim.
Comprou a cara.
Em casa, colocou a vasilha nova no chão. Amendoim se aproximou, cheirou com desconfiança e começou a comer de imediato. Sem as frescuras de sempre. Jurandir ficou olhando, encostado no balcão da cozinha. Não era orgulho. Nem alegria, propriamente. Um bem-estar simples. O bicho estava comendo.
Na quarta, no parque, seu Romeu o abordou perto do coreto — oitenta e sete anos, sempre de bengala e sempre com um palpite sobre tudo.
— Jurandir! Agora com cachorro?
— Da neta — ele respondeu, como de hábito.
— Bonito ele. Salsicha, né?
— Dachshund miniatura.
— Tive uma pastor alemão que viveu dezessete anos — Romeu se instalou no banco. — Esperta que só. A Marli dizia que ela entendia tudo. Mais que gente.
Jurandir ficou calado. Observava o Amendoim fuçar alguma coisa debaixo de uma palmeira. Trabalho meticuloso.
— Vai ficar com ele? — perguntou Romeu.
— Não. Minha neta busca na sexta.
— Vai sentir falta.
— Não sinto falta de nada — disse Jurandir. — Em casa, tenho ordem.
Era uma resposta seca. Mas alguma coisa dentro dele coçou, como etiqueta de camisa nova.
Amendoim veio correndo disparado e enfiou o focinho no cadarço do sapato dele. A mão desceu automática — coçou atrás da orelha comprida, do lado esquerdo. O cachorro fechou os olhos devagar.
Ordem. Silêncio. Tapete limpo. Quarenta minutos de caminhada. O mesmo trajeto. Café às sete.
E de repente, ali no banco, Jurandir visualizou essa “ordem” com muita nitidez. O apartamento às sete da manhã — imóvel, calado. O café sozinho. O jornal que não se comenta com mais ninguém. A tarde sem nenhum motivo para sair de casa.
Dois anos ele viveu assim. E chamava aquilo de ordem.
Agora a imagem não lembrava ordem. Lembrava deserto.
Na quinta de noite, Beatriz fechava a mochila em cima da cama. Amendoim sentado ao lado, acompanhando tudo com focinho tenso.
Jurandir parou na porta do quarto. Apoiou a mão no batente.
— Deixa o bicho.
Silêncio no quarto. A neta levantou a cabeça devagar.
— Deixa — repetiu ele. — Eu cuido.
Beatriz abriu um sorriso lento. Daqueles de quando alguma coisa volta pro lugar onde nunca deveria ter saído.
— Tá, vô. Deixo.
Amendoim latiu. Uma vez. Seco. Como quem bate ponto.
Na sexta, Beatriz partiu. Jurandir carregou a mochila até o carro, não deixou ela pegar em nada. A neta o abraçou no portão.
— Me liga.
— Ligo. Você também.
— Eu não fico ligando à toa.
— Vô. Me liga.
O carro arrancou. Ele ficou parado um instante na calçada do Juvevê. Um vizinho passou com um pastor alemão e cumprimentou. Jurandir acenou com a cabeça.
Subiu. No hall, o Amendoim esperava sentado.
Jurandir tirou os sapatos — um de cada vez, bem alinhados no cantinho. Pendurou a jaqueta no cabide.
— Agora somos só nós dois — ele disse.
Amendoim latiu de volta, uma vez, sem pressa. Um ponto final.
A ordem permaneceu. Acordar às cinco e meia, café às sete. Passeios três vezes ao dia — agora faziam parte da ordem. Jornal no chão, no canto, perto da poltrona — óbvio, natural, como sempre esteve ali. De manhã, na hora do café, Jurandir lia as notícias em voz alta. Situação política, previsão do tempo, o obituário às vezes. Amendoim se sentava ao lado dele e escutava — sério, cabeça inclinada, as orelhas enormes tocando o chão.
O jornal — a Gazeta do Povo, que a Aparecida assinava havia trinta anos — agora tinha um leitor canino. O porteiro do prédio, seu Osmar, uma vez viu os dois saindo para o passeio das dez e comentou com a esposa que o doutor Jurandir estava até falando sozinho. “Vai ver é da idade”, ela respondeu. Mas ele não falava sozinho. Só tinha um interlocutor novo, que não interrompia mas prestava atenção de verdade.
À noite, o Amendoim subia no colo dele. Jurandir apagava a luz do abajur. O cachorro respirava ritmado, focinho gelado encostado na mão do velho. Ele ficava deitado, escutando. O silêncio da casa.
Mas não o silêncio de antes. O silêncio agora tinha respiração. Eles estavam ali — dois corações batendo na sala do apartamento, sob o lustre antigo do centro.
Era uma diferença enorme.
Uma semana depois, Beatriz mandou uma mensagem perguntando se o Amendoim estava dando muito trabalho. Jurandir respondeu com uma única palavra: “Nenhum”. E era verdade. O trabalho que dava — levantar para abrir a porta, encher a vasilha, lembrar do petisco das quatro da tarde — não era trabalho. Era o motivo.
No domingo seguinte, ele fez algo que não fazia desde que a esposa partiu. Foi até o armário do corredor, aquele que ninguém abria, e pegou a velha máquina fotográfica. Bateu uma foto do Amendoim dormindo no tapete da sala, com a luz da manhã entrando pela janela. Revelou numa loja do centro. Colocou a foto na estante, do lado do porta-retrato da Aparecida.
Ficou olhando para aquilo. Um cachorro e uma foto e uma companhia que chegou no pior momento possível — e era exatamente o que ele precisava.
A campainha tocou. Era Beatriz, de volta, com um bolo de fubá e um sorriso.
— Trouxe o café também, vô.
— A gente já tomou — disse Jurandir.
— “A gente”?
Ele olhou para o Amendoim, que abanava o rabo como se entendesse tudo.
— É. Nós dois.
A neta riu. Entrou. E a casa ficou cheia de novo.
