O Anel Ficou na Gaveta

A chave ainda não tinha terminado de girar na fechadura quando Fernanda ouviu a voz do outro lado da porta. Não era a de Rodrigo, seu noivo. Era a da mãe dele.

— Fi-lha! A porta do banheiro está com uma mancha de mofo do tamanho de um prato. Você precisa passar água sanitária aí todo dia, ué.

Fernanda fechou os olhos por dois segundos. A porta rangeu. O cheiro de fritura invadiu o corredor.

Dona Neide estava na cozinha, claro. A mulher tinha uma chave reserva desde a época em que ficou internada por causa da vesícula, três anos atrás, e achava que aquele privilégio era um passe vitalício. Fernanda pisou na sala e sentiu o carpete úmido cheirando a água sanitária. A sogra tinha limpado tudo. De novo. Sem pedir. Sem avisar.

— Oi, Neide. Aconteceu alguma coisa?

A mulher virou-se da pia com uma esponja na mão e sorriu. Um sorriso que era só lábios esticados, sem dentes.

— Aconteceu que eu passei aqui na rua e resolvi dar uma arrumadinha. O Rodrigo reclamou que o apartamento tava com cheiro de cachorro.

Fernanda largou a mochila no sofá. O tal cheiro de cachorro, se existia, era perfeitamente aceitável para quem trabalhava doze horas por dia numa clínica veterinária. Além disso, Fubá, o vira-lata resgatado, tomava banho toda semana e tinha uma cama mais limpa que muito travesseiro por aí.

— Levei o Fubá pra tomar banho na terça — disse, passando a mão pelo pelo do cachorro que a olhava com a cabeça inclinada. — Você viu o Rodrigo?

— Tá no quarto, descansando. O menino trabalhou demais essa semana, coitado.

Fernanda foi até o quarto. Rodrigo estava deitado na cama, de fone, assistindo a alguma coisa no celular, com um prato de bolo na mesinha de cabeceira. Levantou o queixo num cumprimento rápido. Atrás dela, do corredor, a voz da mãe voltou a cantarolar.

Restavam três meses para o casamento. O buffet estava pago — Fernanda tinha dado o sinal de R$ 4.500,00 com o dinheiro da rescisão do emprego anterior. O vestido estava no guarda-roupa da amiga Clara, num bairro do outro lado de Campinas. E Dona Neide vinha toda semana, às vezes duas, com um molho de chave na mão e uma nova orientação sobre como a futura nora deveria cuidar do patrimônio que, na cabeça dela, pertencia ao filho.

O apartamento, aliás, era da Fernanda. Herança da avó materna. Cada azulejo da cozinha tinha sido escolhido por ela numa loja do Centro velho. Rodrigo se mudara fazia um ano, com uma mochila e um PlayStation. A mãe viera junto, em espírito e, agora, em corpo.

No sábado seguinte, o plano era descansar. Fernanda tinha plantão dobrado na sexta, duas cesarianas numa cadela da raça buldogue francês, e mal conseguia sentir as costas. Chegou em casa às nove da noite com um pacote de pastel de feira na mão e uma vontade sincera de tomar banho, comer e dormir.

A sala estava iluminada. A mesa de jantar, forrada com uma toalha que ela nunca tinha visto, estava posta para seis pessoas. Duas delas eram rostos desconhecidos.

— Chegou a aniversariante! — anunciou Dona Neide, batendo palmas.

Fernanda parou no meio da sala. Não era aniversário de ninguém. Pelo menos não que ela soubesse.

— Neide, o que é isso?

— Ué, um jantarzinho. O seu Raimundo e a dona Fátima são amigos meus da igreja, vieram de Valinhos conhecer você. Fica tranquila, eu fiz tudo.

A mulher apontou para a mesa com orgulho. Travessas de maionese, frango assado, arroz com passas. O Fubá estava trancado na área de serviço, choramingando. Rodrigo já estava sentado, servindo-se, rindo de alguma coisa que o tal Raimundo contava.

Fernanda sentiu o sangue subir pelas orelhas. Não era raiva ainda. Era um tipo de cansaço muito específico, daqueles que se acumulam em camadas finas até virarem pedra.

Ela largou o pastel na bancada.

— Neide, precisamos conversar. Agora.

O riso na mesa congelou. A sogra ergueu uma sobrancelha e pegou a travessa de arroz, como se não tivesse ouvido.

— Conversa, filha. Mas senta, né? A comida vai esfriar.

— Não, não vai sentar. Você trouxe gente que eu não conheço para dentro da minha casa, num sábado à noite, sem me avisar. E o Fubá tá trancado no tanque.

— Ah, mas aquele cachorro fica subindo no sofá…

— O sofá é meu, Neide. O apartamento é meu. E o sábado também era pra ser meu.

Dona Neide pousou a travessa. Os lábios se apertaram.

— Olha só, desde que o Rodrigo veio morar aqui, isso aqui é a casa do meu filho também. Eu não vou ficar pedindo licença pra entrar na casa do meu filho.

Fernanda respirou fundo. A ficha caiu. Não cair — desabou.

— Rodrigo.

O noivo finalmente largou o garfo e olhou para ela, mastigando.

— Ai, amor, deixa disso. A mamãe só quis fazer uma surpresa.

— Eu não pedi surpresa nenhuma. Eu pedi silêncio. Banho. Cama.

— Você tá fazendo escândalo por causa de um jantar?

Aí Dona Neide colocou a mão no ombro do filho e fez aquela expressão ensaiada de mártir, olhando para as visitas como quem pede desculpas por uma criança mal-educada.

— A gente já percebeu, desde o começo, que ela não gosta muito da minha presença. Mas tudo bem, viu, Raimundo? Ela é moça direita, só não teve mãe por perto pra ensinar certas coisas.

A frase aterrissou no estômago de Fernanda como uma pedra gelada. A mãe dela tinha morrido havia oito anos. Dona Neide sabia. Sabia muito bem.

Fernanda não gritou. Nem chorou. Ela foi até o quarto, abriu o guarda-roupa, pegou a pequena caixa de veludo e voltou.

Colocou o anel de noivado em cima da mesa, ao lado da travessa de maionese.

— Olha, Rodrigo. Isso aqui era um sim. Agora é um não. Você tem até domingo pra tirar suas coisas daqui.

O silêncio na sala foi absoluto. O tal Raimundo ficou olhando para o frango como se esperasse que ele saísse voando. Dona Fátima enrolava e desenrolava o guardanapo no colo.

Rodrigo levantou-se, o rosto entre o espanto e a indignação.

— Tá brincando? Por causa de um jantar?

— Não. Por causa de três anos de “minha casa, minhas regras” sendo ignorados. Por causa de chave que eu não dei. Por causa de mãe que se acha dona do que nunca construiu. E por causa de um homem que até agora não disse uma palavra pra me defender.

A sogra abriu a boca, mas alguma coisa na postura de Fernanda — talvez a ausência total de hesitação — a fez fechá-la de novo.

— A janta tá servida — disse Fernanda, pegando o pastel frio e indo para a área soltar o cachorro.

O resto foi burocrático. Rodrigo tentou argumentar no domingo, depois tentou culpar o estresse do trabalho, depois pediu à Clara que intercedesse. Mas Clara conhecia Fernanda desde o colégio e só respondeu ao ex-noivo com um áudio de catorze segundos que terminava com um “valeu, mas não”.

Na segunda, ele levou a televisão e o PlayStation. Na terça, um primo apareceu com uma caminhonete para buscar o restante. Na quarta, Fernanda trocou o segredo da fechadura.

Dona Neide mandou uma mensagem longa no WhatsApp, explicando que tudo não passava de um mal-entendido, que ela só queria o bem do casal, que o Raimundo tinha comentado como a Fernanda era uma moça nervosa. Fernanda não respondeu. Printou, mandou para Clara com uma figurinha de um cachorro revirando os olhos e bloqueou o contato.

No sábado seguinte, ela acordou às sete com o Fubá lambendo seu pé. Tomou café na varanda, olhando para a rua ainda vazia, o cheiro de terra molhada subindo do jardim do vizinho. Comprou dois pasteis na feira e dividiu o de queijo com o cachorro.

O anel continuava na gaveta da mesa de cabeceira. Não por saudade — por preguiça de ir ao centro penhorá-lo. Mas pensando bem, com o valor de um solitário e um buffet cancelado, dava para pagar as parcelas do novo ultrassom da clínica.

Ela pegou o celular e abriu o site do banco. Enquanto digitava a senha, Fubá apoiou a cabeça em seu joelho, e da cozinha chegava o som baixinho da cafeteira terminando de coar. Meia dúzia de tucanos passou em fila rente à janela. O café esfriou antes de ela tomar o primeiro gole, mas ninguém estava ali para reclamar que a esposa não servia direito o marido. E, para a Fernanda, aquele foi o melhor café da semana.

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Odissea
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