# Oficina na Avenida Brasil que valia um milhão e duzentos mil reais

Ela Wróblewska não chorou no enterro do pai. Ficou parada perto do caixão com um casaco grande demais, emprestado da vizinha, porque o dela tinha ficado em Campinas, e contava de cabeça quantos dias de férias ainda tinha na distribuidora de material de construção onde trabalhava como contadora. Quatro. Tinha quatro dias para enterrar o pai e se conformar com o fato de que a oficina mecânica na Avenida Brasil, que ele construiu ao longo de trinta anos, tinha ficado toda para o meio-irmão dela, o Kaká.

Kaká tinha vinte e seis anos na época e nos últimos cinco não tinha trocado dez frases com o pai. Chegou ao velório de terno emprestado de um amigo que tinha casado havia pouco, vinte minutos atrasado porque não achava vaga para estacionar. Ficou de lado, com as mãos nos bolsos, encarando o caixão como quem espera alguém dizer o que deveria estar sentindo.

No cartório de registro, perto da Praça da Sé, souberam que a oficina, junto com o terreno e todo o equipamento, valia um milhão e duzentos mil reais. Tudo. Para o Kaká. Para Ela, o pai deixou uma única frase no testamento: desejo à minha filha Ela sucesso na vida.

— Isso só pode ser engano — ela disse na hora para a tabeliã, dona Regina Andrade, uma mulher de mais de sessenta anos com óculos na ponta do nariz. — Eu trabalhei lá quando era adolescente. Lavava roda por oito reais a hora porque meu pai não tinha dinheiro para contratar mais ninguém.

Dona Regina só empurrou a caixa de lenços na direção dela e disse que testamento é testamento, e que, se Ela quisesse contestar, podia entrar com ação, mas ia custar caro e levar anos.

Nos primeiros seis meses, Kaká nem aparecia na oficina. Deixava tudo com o Nelsinho, o mecânico antigo que trabalhava com o pai fazia quinze anos e que, aliás, ligou para Ela em março para avisar que o negócio estava afundando. Que as encomendas tinham parado, que dois clientes já tinham ido para a concorrência lá perto do Ibirapuera, porque ninguém atendia mais o telefone.

Ela, naquele momento, ainda não se metia. Tinha a vida dela em Campinas, um divórcio recente e um filho no segundo ano do ensino médio que precisava ser levado para aula particular de matemática. Mas alguma coisa lá dentro dizia: espera. O pai sempre repetia que tudo chega na hora certa, que não adianta brigar por coisa que, de um jeito ou de outro, volta pra gente.

Em setembro, Kaká ligou pela primeira vez desde o enterro.

— Preciso que você me empreste dinheiro — disse sem nem dar bom dia. — O contador tá em cima de mim, tô devendo encargo de funcionário. Doze mil.

— Eu não tenho doze mil, Kaká.

— Então de onde é que eu tiro?

— Vende a oficina — ela falou com calma, mesmo se revirando por dentro. — Vale um milhão e duzentos. Doze mil não é nem dez por cento disso.

Do outro lado da linha, o silêncio durou um pouco além do normal.

— Eu não vou vender o que o pai me deixou.

— Então toca o negócio — ela respondeu e desligou.

No ano seguinte, Ela ficou sabendo de tudo através do Nelsinho, que ligava cada vez mais, porque provavelmente não tinha mais ninguém a quem recorrer. Kaká vendeu dois elevadores para pagar dívida. Depois vendeu o compressor. Em janeiro, demitiu um dos três mecânicos porque não tinha como pagar o salário. Nelsinho, no fim de cada ligação, perguntava se Ela não podia ir lá dar uma olhada, só uma vez, porque ele já não sabia mais o que fazer e os clientes perguntavam se ainda valia a pena levar o carro naquele lugar.

Ela foi numa quarta-feira de julho, quando o calor em Campinas já anunciava o verão que se aproximava. A oficina parecia ter passado por uma doença lenta — o portão enferrujado pela metade, na janela da recepção um papel escrito à mão "Abre às 10h", mesmo sendo ainda de manhã. Kaká não estava. Nelsinho comia um pão com mortadela sozinho perto do fosso e, ao ver Ela, só balançou a cabeça, como quem diz: pois é, você tá vendo.

Naquele mesmo dia, Ela foi até um escritório de advocacia perto da Avenida Paulista, onde marcou uma consulta com uma advogada especializada em inventário, Marina Costa. Não para contestar o testamento — para isso já era tarde demais, o prazo tinha expirado. Ela queria descobrir outra coisa: se havia algum jeito de recuperar ao menos parte do que, por vinte anos, tinha investido naquele negócio sem contrato, sem salário, só na palavra do pai de que um dia tudo aquilo seria dos dois.

A advogada pediu os documentos. E foi aí que Ela se lembrou de uma caixa que, desde o enterro, ficava esquecida no depósito do apartamento dela em Campinas. A caixa com os papéis antigos do pai.

Encontrou ali algo que tinha esquecido que existia: um contrato de empréstimo de 2011, no valor de quatrocentos e cinquenta mil reais, que Ela tinha dado ao pai para reformar o galpão da oficina, na época em que vendeu o apartamento que herdara da avó. O contrato estava escrito à mão, numa folha de caderno pautado, mas assinado pelos dois e reconhecido em cartório — porque o pai, apesar de toda a desatenção com outras coisas, naquele ponto específico tinha sido cuidadoso. Prazo de pagamento: indeterminado, a critério do credor. Juros: os da lei.

— Isso é dívida do espólio — disse a advogada, olhando o papel duas vezes. — O Kaká herdou junto com o patrimônio. Com os juros acumulados em catorze anos, já passa de setecentos e cinquenta mil.

Ela ficou um instante olhando aquela folha pautada, a letra do pai, a assinatura que ele sempre fazia com aquele mesmo floreio na letra W do sobrenome. Não sentiu vitória. Sentiu algo mais parecido com alívio — como se durante todo aquele ano tivesse segurado o ar nos pulmões e agora finalmente pudesse soltar.

Mandaram a notificação de cobrança em março, por carta registrada, para o endereço da oficina.

Kaká apareceu na casa dela em Campinas uma semana depois, sem avisar, na frente do prédio, quando Ela voltava com o filho do mercado, sacolas cheias nas mãos. Ele estava parado perto do portão, com a mesma jaqueta do velório, agora surrada nos cotovelos.

— Você quer tirar de mim tudo que eu tenho.

— Eu quero receber o que é meu — ela disse, trocando as sacolas de mão. — Quatrocentos e cinquenta mil mais os juros. O resto da oficina continua seu.

— Eu não tenho esse dinheiro.

— Então vende o terreno do lado, aquele que o pai comprou pra fazer um depósito. Vocês nunca usaram. Vale uns quinhentos e oitenta mil.

Kaká ficou calado, olhando a sacola de batatas que o filho de Ela segurava, como se fosse ela quem devesse responder.

— Por que você não falou nada na hora, no cartório? Sobre esse empréstimo?

— Porque achei que o pai queria que eu contasse quando fosse a hora certa. Não de imediato. — Ela abriu o portão. — Você tem um mês, Kaká. Depois disso, o caso vai pra Justiça, e aí quem vai conversar não somos mais nós, e sim nossos advogados.

Ele vendeu o terreno em abril, para uma construtora de Valinhos, por seiscentos e dez mil reais. Repassou quinhentos e vinte mil para Ela — o resto, com os juros, ficou combinado em duas parcelas, a última paga em julho, bem na época em que o jornal não parava de mostrar as enchentes no Rio Grande do Sul, e o Nelsinho finalmente conseguiu comprar um compressor novo.

A oficina na Avenida Brasil continua funcionando até hoje. Kaká toca o negócio sozinho, com o Nelsinho e mais um rapaz novo que veio do curso técnico. Ela não voltou lá nem uma vez desde abril — não por mágoa, simplesmente não tinha motivo. Recebeu o que era dela, no papel, com assinatura e reconhecimento de firma, e isso foi suficiente.

Só uma vez, em agosto, recebeu uma mensagem dele: "Vendi dois carros essa semana. O pai ia ficar feliz." Não respondeu nada. Deixou o celular em cima da mesa, ao lado de uma xícara de café já frio, e ficou olhando pela janela a vizinha que voltava da feira com um maço de cebolinha na mão, do jeito que fazia toda quarta-feira, no mesmo horário, desde que Ela se entendia por gente.

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Odissea
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