Marisa não esperava o batom no cangote

Marisa tinha quarenta e três anos, trabalhava na farmácia da esquina em Vila Mariana havia doze e ficara noiva de Renato tinha dois anos – noiva, não casada, porque ele sempre dizia "esse ano ainda não dá, o financiamento da oficina está apertado". A oficina era dele, ficava no Ipiranga, especializada em suspensão. Uma quinta-feira, ela subiu para pegar o carregador do celular e ouviu a voz dele baixinha atrás da porta do quarto: "gatinha, para de fazer manha". Ela empurrou a porta. Ele desligou tão rápido que o celular quase escapou da mão.

– Quem era?

– Uma cliente. Reclamando do amortecedor.

– Cliente chamada gatinha?

– Você ouviu errado, Marisa.

E saiu para tomar banho, assobiando. Ela ficou parada olhando o batente da porta feito boba. Doze anos trabalhando com remédio, sabendo reconhecer sintoma – e não reconheceu o próprio. Só sentiu o estômago virar.

Marisa é do tipo que resolve as coisas com calculadora, não com escândalo. Sentou na cama, catálogo mental: nas últimas semanas Renato tinha comprado uma camisa nova, cortado o cabelo duas vezes num mês, e falava sem parar de uma tal Priscila, "a menina nova que entrou pra cuidar do financeiro da oficina, super organizada". Coincidência tem limite.

Ligou pra Sueli, que trabalhava na recepção da oficina havia mais tempo que o próprio Renato.

– Sueli, oi, é a Marisa. Será que você pode fazer um favorzinho pra mim, sem falar que fui eu que pedi?

– Fala.

– Aquela menina nova, a Priscila… você sabe se ela é casada?

– Casada, sim. Marido busca ela de moto de vez em quando, um cara alto, meio sisudo. Ela é bonitinha, mas enjoada – não fala com ninguém aqui, acha que é melhor que todo mundo.

Marisa desligou e foi direto pro Instagram. Achou o perfil em menos de dois minutos: Priscila Andrade Reghim, corretora de imóveis nas horas vagas, feed cheio de foto de pôr do sol e "gratidão". O marido também tinha perfil – Thiago Reghim, mecânico autônomo, foto de perfil segurando um peixe. Ela tirou print de tudo. Guardou.

No sábado seguinte, Marisa fingiu ir pro cinema com uma amiga e voltou mais cedo, de propósito, pra pegar um casaco. Ouviu Renato no banheiro, no telefone, a voz abafada pelo barulho do chuveiro que ainda nem tinha ligado.

– Pri, não dá hoje, prometi levar a Marisa pro cinema. Gatinha, não fica assim, eu compenso depois…

Ela ficou ali, encostada na parede do corredor, sentindo o cheiro de sabonete que vinha de dentro do banheiro – o mesmo sabonete de sempre, o mesmo apartamento de sempre, e a vida inteira dela virando de ponta-cabeça em quinze segundos. Compensar. A palavra ficou martelando.

Precisava de prova de verdade, não de suspeita. Bolou o plano na terça, tomando café.

– Renato, vou ter que passar uns dias na casa da minha irmã, ela tá reformando a cozinha e precisa de ajuda com o pedreiro.

– Vai, vai, sua irmã precisa de você mesmo! – os olhos dele brilharam de um jeito que ela nunca tinha visto antes, ou talvez sempre tivesse visto e nunca prestado atenção.

Fez a mala de verdade, se despediu, foi trabalhar normal. À noite foi pro apartamento da irmã, contou meia mentira – "brigamos, preciso respirar" – e dormiu lá. Na quarta à noite voltou pro seu próprio bairro, estacionou o Onix duas ruas antes do prédio e foi a pé, com a chave na mão, o coração batendo tanto que sentia no ouvido.

Luz acesa na janela do terceiro andar. A varanda tinha alguém fumando – Priscila, de blusa dele, aquela camisa xadrez que ela mesma tinha dado de presente de aniversário no ano passado. Marisa filmou trinta segundos com o celular, sem tremer a mão, surpresa com a própria frieza.

Achou no histórico de conversas antigas o número de Thiago – ele tinha mandado mensagem pro grupo da rua sobre uma vaga de garagem, meses atrás. Discou.

– Alô.

– Thiago? Meu nome é Marisa. Você não me conhece, mas meu noivo conhece muito bem a sua esposa. E os dois estão juntos agora, no meu apartamento.

– Onde é o endereço?

Ele chegou em doze minutos, de moto, sem capacete direito, só encaixado na cabeça. Subiram juntos, calados. Ela abriu a porta sem barulho. Sala vazia, cheiro de vinho barato, música baixa vindo do quarto. Empurrou a porta.

– Então, gatinho e gatinha, ensaiando truque novo? – a voz saiu mais alta do que ela planejou.

Renato sentou na cama feito quem levou choque. Priscila puxou o lençol, olhando pra Thiago com uma cara que Marisa nunca ia esquecer – não era medo, era irritação, tipo quem foi pega fazendo hora extra.

– Marisa, o que você tá fazendo aqui?

– Aqui é meu apartamento, Renato. E você – Marisa apontou pra Priscila – pega suas coisas e sai com essa cara de choro depois, porque agora eu quero ver vocês dois se explicarem.

Thiago não gritou. Ficou parado no batente, olhando pra esposa, e depois virou de costas e foi pra cozinha sem dizer nada. Marisa foi atrás. Achou a garrafa de vinho tinto que tinha comprado semana passada pra um jantar que nunca rolou, serviu duas taças, entregou uma pra ele.

– Você vai fazer o quê agora? – Renato apareceu na porta da cozinha, abotoando a camisa.

– Vou procurar advogado amanhã. Sua parte na mudança sai daqui até domingo.

– Marisa, calma, todo mundo erra…

– Eu não perdoo erro desse tamanho. Isso não foi erro, foi escolha, repetida, semana após semana.

Priscila saiu do quarto com a bolsa na mão, rímel borrado descendo pelo rosto, e Thiago só falou uma frase, sem levantar a voz: "arruma suas coisas na casa, eu não vou estar lá quando você chegar." Os dois saíram – ela na frente, ele quatro passos atrás, sem se olharem.

Ficaram Marisa e Thiago na cozinha, com a garrafa pela metade.

– Nunca imaginei que ia parar numa situação dessas – ele girava a taça sem beber.

– Eu também não. Doze anos de farmácia, sei identificar toda reação alérgica que existe, e não vi isso vindo.

Riram, meio sem graça, e ficaram ali trocando histórias até quase duas da manhã – ela contou da vez que Renato esqueceu o aniversário dela duas vezes seguidas, ele contou que já desconfiava fazia tempo, mas não queria admitir. Marisa ofereceu o sofá, porque de moto, naquele estado, não dava.

De manhã fez ovos com café, ele comeu tudo, e ela reparou – só reparou, nada mais – que ele lavava a própria xícara sem ela pedir. Coisa boba. Mas ficou na cabeça.

O divórcio saiu rápido: sem filho, sem imóvel dividido, porque o apartamento era só dela, comprado antes de Renato entrar na vida dela. Ela trocou a fechadura na segunda-feira seguinte, chamou o chaveiro do próprio prédio, pagou noventa reais, guardou a chave velha numa gaveta que nunca mais abriu. As roupas dele foram pra dentro de duas malas, deixadas no corredor; ele veio buscar num domingo à tarde, calado, e ela nem abriu a porta – ficou olhando pelo olho mágico até ele sumir na escada.

Faz três meses agora. Marisa continua na farmácia, Thiago apareceu de novo por lá umas três vezes, sempre com desculpa esfarrapada – uma vez foi comprar Dipirona pra uma dor de cabeça que ele mesmo admitiu que não tinha. Da última vez ele perguntou se ela queria tomar um café depois do expediente, e ela disse que sim antes de terminar de pensar direito na resposta. Do lado de fora da farmácia, o cachorro do dono da padaria vizinha latiu pra ele feito sempre late pra qualquer estranho, e Marisa riu, e trancou a porta da loja com a chave de sempre, aquela com o chaveiro de plástico gasto que ela nunca trocou por nenhuma outra.

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Odissea
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