A Chave do Cofre Voltou com o Dinheiro Contado

Onze anos. Foi esse o tempo que eu passei esperando a dona Lourdes me tratar como gente. Onze anos levando bolo de fubá na casa dela todo domingo, aguentando falta de resposta quando eu falava, ouvindo ela elogiar a ex-nora na minha frente. E eu engolia. Porque no começo eu achava que era ciúme de mãe, depois achei que era o jeito dela, e no fim eu já nem sabia mais o que era. Só sabia que doía.

A história começou numa terça-feira de manhã, quando o médico do postinho da Vila Mariana me ligou para avisar que a pressão dela tinha disparado e que ela precisava de alguém para buscar os remédios. Eu estava no meio de uma reunião na imobiliária onde trabalho, com uma pilha de contratos para revisar, mas larguei tudo. Peguei o carro, atravessei a cidade debaixo daquela chuva fina de Curitiba, e fui até a farmácia popular da XV de Novembro. Comprei losartana, sinvastatina, dipirona. Paguei cento e quarenta e sete reais do meu bolso, sem pedir nada de volta.

Quando cheguei na casa dela — uma casa antiga no bairro Portão, com azulejos portugueses na varanda e cheiro de naftalina misturado com pó de café —, a empregada, uma senhora de cabelo preso num coque frouxo, me barrou no portão.

“A dona Lourdes está descansando. Pode deixar os remédios comigo.”

Eu estendi a sacola. A empregada pegou sem me encarar. E foi aí que eu vi.

Na mesinha da sala, através da cortina de renda, a chave do cofre. Aquele cofre verde-escuro que ficava embutido no armário do escritório, onde a dona Lourdes guardava joias, documentos e, segundo o Jair me contava, o dinheiro que ela juntava para “uma emergência”. A chave estava lá, em cima da mesinha, com um chaveiro de São Jorge pendurado. E do meu lado, no portão, a empregada esperava eu ir embora.

Fiquei ali parada, debaixo da garoa, com a mão no portão frio. Onze anos. Eu levava remédio, fazia companhia, cuidava do filho dela — o Jair, meu marido —, e não podia nem entrar para deixar a sacola. A empregada fechou o portão sem pressa. Ouvi o trinco encaixar. Voltei para o carro com a chuva escorrendo pelo vidro, o para-brisa embaçado, e fiquei uns cinco minutos parada com as mãos no volante, sem ligar o motor, contando os pingos que escorriam até o limpador.

Naquela noite, o Jair chegou em casa às onze e meia, cansado, jogou o sapato no canto da sala e esquentou a comida sem me perguntar se eu queria. Eu estava sentada no sofá, com a fatura do plano de saúde da dona Lourdes aberta no celular. Paguei essa fatura por anos, sem que ela nunca me dissesse obrigada.

“Sua mãe não me deixou entrar hoje”, eu falei.

O Jair continuou mexendo na panela. “Ela está estressada com o coração. Não é pessoal.”

“Jair, eu pago o plano dela há seis anos. Levo remédio, levo bolo, levo esforço que ninguém nota. E ela não me deixa entrar na casa dela.”

Ele desligou o fogão e se virou, com a escumadeira na mão, pingando molho no chão.

“Você quer que eu faça o quê? Que eu brigue com a minha mãe? Você sabe como ela é. Dá um tempo, Deise.”

Dá um tempo. A frase favorita do Jair. Ele usava para a mãe, para mim, para as contas, para os domingos em que eu queria visitar minha família em Ponta Grossa. Dá um tempo — e o tempo ia passando, e eu ia ficando.

Na sexta-feira, a dona Lourdes teve uma crise de arritmia e foi internada no Hospital Universitário. O Jair viajou a trabalho para Joinville e me ligou pedindo, veja você, para eu “dar uma passada no hospital para ver se ela está bem”. Eu fui. Claro que fui. Porque é isso que a gente faz quando ama: a gente vai onde não é querida, acha que a presença vai consertar alguma coisa, que a doença amolece coração duro.

No quarto do hospital, ela estava deitada, com o cabelo branco ralo espalhado no travesseiro, um soro na veia. Quando me viu, apertou os lábios.

“Você não precisava vir.”

“Eu vim porque o Jair pediu.”

Ela desviou o rosto para a janela. “O Jair precisa parar de te colocar no meio.”

Sentei na cadeira de plástico ao lado da cama, segurando a alça da bolsa. O monitor cardíaco apitava baixinho. O cheiro de álcool em gel impregnava o ar. E então, com a voz fraca, ela disse:

“Já que você está aqui… no escritório, na gaveta de baixo, tem uma pasta azul. O cofre. A chave está na gaveta de cima. Você pode trazer a pasta amanhã? Eu preciso ver umas escrituras.”

A chave. A mesma chave que eu tinha visto na mesinha. E agora ela me autorizava a pegar. Depois de onze anos, ela estava me dando acesso à casa dela — àquela casa onde eu não passava do portão.

“O seu Jair tem a chave da casa”, eu disse. “Pede para ele quando voltar.”

“Ele demora. E eu preciso ver as escrituras agora. A moça que trabalha lá em casa está de folga.”

Fiquei quieta um instante, só ouvindo o apito do monitor. Ela suspirou.

“Tá. Você é teimosa. Pega a chave que está debaixo do vaso de alamanda, na entrada. Tem outra no quadro de força, atrás da fiação. E a do cofre… ah, a do cofre fica no meu criado-mudo, numa caixinha de madeira que era da minha avó.”

Você entende? Onze anos. Onze anos de “não é pessoal”, de “dá um tempo”, de porta na cara. E agora, doente, sozinha, ela me dava a chave do cofre como quem me atira um osso. Não era confiança. Era conveniência. Eu era o último recurso.

Na manhã seguinte, fui. A casa estava quieta, com aquele cheiro de roupa guardada e pó de café velho. Abri a porta com a chave de baixo do vaso. Subi até o escritório. A mesinha estava vazia agora — a chave tinha voltado para o cofre ou para a caixinha. Abri a gaveta de cima. A pasta azul. Abri a gaveta de baixo. E lá estava o cofre verde, pequeno, pesado, com a porta entreaberta. Ela não tinha trancado.

Dentro do cofre: os documentos, as joias, e um maço de dinheiro preso com elástico de borracha. Contei por pura distração, sentada ali no tapete do escritório, com o pó subindo no ar. Quatrocentos e oitenta reais. Nada demais. E ao lado do dinheiro, um retrato: o Jair, a ex-nora, os dois netos. E uma frase escrita atrás, com a letra tremida da dona Lourdes: “A família de verdade”.

Passei o polegar na borda daquela foto antes de guardar tudo de volta, sem tirar nada, sem trocar de lugar nem uma joia. Peguei só a pasta azul. Fechei o cofre. Saí da casa trancando a porta. Levei a pasta até o hospital. Entreguei para a dona Lourdes. Ela pegou sem me agradecer.

“Pode ir.”

Eu fui.

No caminho para casa, parei no cartório da Rua Emiliano Perneta. Pedi uma certidão atualizada da escritura do apartamento onde eu moro com o Jair. Descobri o que eu já desconfiava: o apartamento está no nome da dona Lourdes. O Jair nunca quis mexer nisso. “Depois a gente vê”, ele dizia. Há onze anos, “depois a gente vê”.

Naquela noite, o Jair voltou de viagem. Eu estava na cozinha, com a certidão aberta na mesa, ao lado de uma conta de luz no meu nome e da fatura do plano de saúde da dona Lourdes. Ele largou a mala no chão.

“E a mãe?”

“Está bem. Pedi a pasta que ela queria.”

Ele começou a abrir a geladeira. “Que bom que você se entendeu com ela.”

Me entendido. Onze anos para ouvir “pode ir”.

“Jair”, eu falei, “o apartamento está no nome da sua mãe. E eu paguei a reforma do banheiro, o IPTU, o condomínio, e ainda pago o plano de saúde dela. E ela escreveu atrás de uma foto: ‘a família de verdade’. E você sabe quem está na foto? A ex-nora. Aquela que te deixou quando você ficou desempregado.”

Ele fechou a geladeira com força. Uma garrafa de suco de uva tremeu na prateleira.

“Você foi mexer no cofre? Você abriu o cofre da minha mãe?”

“Estava aberto.”

“Deise, isso é invasão. Você não podia.”

Peguei a certidão e a fatura. Coloquei as duas dentro da bolsa.

“Sabe o que é invasão, Jair? É você comer a minha lasanha de domingo e não me defender nunca. É a sua mãe me deixar no portão como se eu fosse uma estranha. É eu pagar quarenta e sete mil reais de reforma num apartamento que não é meu nem seu.”

Ele ficou parado no meio da cozinha, com o rosto vermelho. Eu vi a empada de palmito que ele tinha trazido de Joinville esquecida na bancada, o saquinho da padaria se abrindo. Aquela era a nossa vida: ele trazia empada de viagem, eu pagava as contas, a mãe dele me fechava a porta.

Na quarta-feira, fui ao banco. Cancelei o débito automático do plano de saúde da dona Lourdes. Fui até a imobiliária onde trabalho e pedi para atualizar meus dados — apartamento, outro endereço. Uma quitinete na Rua Itupava, perto do Água Verde, com luz natural e um cheiro de tinta fresca. Contrato de doze meses. Aluguel de novecentos e cinquenta reais.

Não disse ao Jair. Não precisei. No sábado, ele saiu para jogar futebol com os amigos do trabalho. Eu enchi o carro com o que era meu: roupas, livros, a batedeira que comprei com o décimo terceiro, a cafeteira italiana que ninguém nunca usou. Deixei em cima da mesa da cozinha um envelope. Dentro dele: a cópia do contrato de aluguel, a certidão do apartamento e um bilhete.

No bilhete, escrevi: “Quem quer estar, dá um jeito. Quem não quer, dá uma desculpa. Você deu onze anos de desculpa. Eu cancelei o plano da sua mãe hoje. O boleto vence dia quinze.”

Quando o Jair chegou, já era noite. Ele me ligou. Eu atendi do banco do carro, parada na frente da quitinete, com o motor desligado e uma pizza de calabresa no banco de trás esfriando.

“Deise, que porra é essa? Você cancelou o plano da minha mãe? Ela está internada, você não tem coração?”

“Tenho. Por isso estou saindo.”

“Você vai me deixar por causa de um cofre?”

“Não. Eu estou indo embora por causa de um portão.”

Ele ficou calado. Eu ouvi ele respirando do outro lado, com um barulho de panela batendo no fundo — provavelmente tinha ligado para a mãe antes de me ligar, ou para a ex, como quem espera que eu volte a resolver as coisas.

“A pizza é sua”, eu disse. “Está esfriando na mesa.”

Desliguei.

Na segunda-feira, a dona Lourdes me ligou do hospital. Eu atendi na sala da quitinete, com uma caixa de talheres aberta na bancada e a luz da tarde batendo no chão de taco.

“Você cancelou meu plano.”

“Cancelei.”

“Você não tem direito.”

“Dona Lourdes, eu não tenho direito a nada. Nunca tive. Mas também nunca mais pago o que não me pertence.”

Ela ficou muda por um segundo. Eu ouvi o monitor apitar do outro lado. Depois, com a voz mais fraca, ela gritou:

“Ingrata! Eu sempre soube que você era uma qualquer.”

“Dona Lourdes, manda a fatura para a ex-nora. Aquela da família de verdade. Só que ela sai caro. Vai ter que pagar para entrar na família.”

Desliguei antes que ela me xingasse mais. Sentei no chão da sala, entre as caixas, com o telefone na mão. Abri uma caixa marcada “batedeira” e fiquei passando o dedo na fita adesiva, descolando ela devagarinho. Não chorei. Onze anos tinham virado onze minutos ao telefone. A empada que o Jair trouxe ficou mofando na geladeira do apartamento vazio. A fatura do plano da dona Lourdes, eu nunca mais vi.

Semanas depois, uma colega da imobiliária me contou: o Jair tinha ido morar com a mãe. Dizem que ele pediu demissão do emprego para “cuidar da dona Lourdes”, e que a ex-nora não quis nem saber. E que, no hospital, a dona Lourdes chorava de raiva, dizendo que eu tinha roubado a chave do cofre.

Não roubei chave nenhuma. Só devolvi a minha. E, depois de tanto tempo esperando ser aceita, dormi a noite inteira com a porta destrancada. Porque a paz, quando é de verdade, não precisa de trinco.

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Odissea
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