O São Martinho em que todos chegaram de mãos vazias

Quando António disse que a mãe esperava quarenta pessoas para o São Martinho, Leonor perguntou apenas:

— E quem vai tratar de tudo?

Ele respondeu sem pensar:

— Nós.

Leonor conhecia aquele “nós”. Significava ela.

Viviam em Braga, mas a festa realizava-se todos os anos na casa antiga da família, numa aldeia perto de Ponte de Lima. Leonor assava carne, fazia caldo-verde, preparava arroz de forno, sobremesas e travessas de entradas. António comprava vinho, acendia a lareira e recebia elogios pela “bela organização”.

Nesse ano, Leonor tinha cinquenta e cinco anos e acabara de assumir a chefia da secção de atendimento numa cooperativa agrícola. Precisava de trabalhar no sábado de manhã.

— Cada família pode levar um prato — sugeriu.

António abanou a cabeça.

— A minha mãe não gosta dessas misturas.

— Já lhe perguntaste?

— Conheço a minha mãe.

Leonor enviou mensagens às cunhadas. Ambas responderam que podiam ajudar, mas que António lhes tinha dito para não levarem nada.

— Disse que tu preferes fazer tudo — explicou Teresa.

Leonor sentiu um calor subir-lhe ao rosto.

Em casa, confrontou o marido.

— Por que recusaste ajuda em meu nome?

— Porque da última vez reclamaste que o arroz estava cru.

— Estava mesmo cru.

— Estás a ver?

— Uma crítica a um arroz não é uma autorização para me deixares sozinha durante dez anos.

António afirmou que ela estava a transformar uma tradição familiar num conflito conjugal.

Leonor decidiu não discutir mais.

No dia da festa levou apenas uma panela de caldo-verde e um cesto de broa. Tinha avisado todos os familiares de que não prepararia o restante.

António, porém, voltou a dizer que ela mudaria de ideias.

Quando chegaram à casa, a cozinha estava vazia.

A mãe dele, Dona Emília, olhou para os armários.

— Onde estão as travessas?

— Pergunta ao teu filho — respondeu Leonor.

António tentou explicar que Leonor estava cansada e decidira “simplificar”.

— Simplificar? — repetiu ela. — Eu pedi ajuda. Tu recusaste por mim.

As cunhadas confirmaram.

Dona Emília sentou-se junto à lareira. Parecia mais magoada com o filho do que com a falta de comida.

— Pensei que ninguém se oferecia — disse.

— Toda a gente se oferecia — respondeu Leonor. — Só que António queria que parecesse que a nossa casa fazia tudo.

A festa poderia ter terminado num desastre. Em vez disso, transformou-se numa cozinha coletiva.

Os homens foram comprar frango assado. Teresa fez arroz. Um sobrinho preparou salada. Dona Emília ensinou os netos a assar castanhas. Até António descascou batatas, embora demorasse o dobro do tempo.

A comida chegou à mesa tarde e sem combinação perfeita. Havia demasiado pão, pouca sobremesa e três garrafas do mesmo vinho.

Ninguém se importou.

Dona Emília comeu junto à família em vez de ficar a vigiar a cozinha. Leonor também.

Ao fim da tarde, enquanto todos cantavam, Dona Emília puxou a nora para o lado.

— Eu fazia tudo quando era nova — confessou. — Achei que tu também gostavas.

— Gostava de cozinhar. Não gostava de desaparecer da festa.

Dona Emília apertou-lhe a mão.

António ouviu.

No regresso a Braga, disse:

— Queria que as pessoas pensassem que eu cuidava bem da minha mãe.

— Então devias ter cuidado dela.

— Eu pensei que pagar as compras era cuidar.

— Pagar é uma parte. O trabalho também conta.

No ano seguinte, Dona Emília criou um grupo chamado “São Martinho de todos”. Cada pessoa escolheu uma tarefa.

António ficou responsável pelo prato principal e pela limpeza final.

Na véspera, perguntou a Leonor como se temperava a carne.

— Procura a receita da tua mãe.

— Ela disse para te perguntar.

Leonor sorriu.

— Então comecem por conversar os dois.

No dia da festa, António serviu uma carne ligeiramente seca. Ninguém criticou.

Leonor levantou o copo.

— Está ótima.

— Estás a ser simpática?

— Não. Estou a aproveitar o facto de não a ter cozinhado.

Dona Emília riu tão alto que todos se viraram.

Era exatamente o som que faltara às festas dos anos anteriores.

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: