O husky que devolveram três vezes no canil de Suzano

Dona Marlene Aparecida trabalha há dezoito anos no abrigo municipal de Suzano, no interior de São Paulo, e diz que consegue prever, só pelo jeito como a pessoa olha para o cachorro, se ele vai voltar em menos de seis meses. Foi assim com o Thor.

A primeira vez que ele chegou ao canil, ainda filhote, tinha sido adotado por um casal jovem de Mogi das Cruzes, recém-casados, animados com a ideia de ter "o lobo de Game of Thrones" dentro de casa. Isso foi em 2019, quando a série ainda estava fresca na memória de todo mundo e o Instagram enchia de fotos de husky siberiano com legendas citando os Stark. Marlene lembra da cena: o rapaz segurando o filhote no colo, tirando foto, a namorada rindo. Ninguém perguntou nada sobre a raça. Ninguém perguntou quanto custava a ração, quanto tempo de caminhada o cão precisava por dia, se husky uiva à noite quando fica sozinho em apartamento no décimo andar.

Sete meses depois, Thor voltou. Coleira nova, latido rouco de tanto chorar dentro do elevador de serviço, e um bilhete dizendo que ele "destruía tudo" e "não parava quieto". Marlene não julgou — ela nunca julga na frente do dono, isso ela aprendeu com o tempo —, só anotou a devolução na ficha e levou o cachorro para o fundo do canil, onde ficam os boxes maiores.

A segunda adoção veio quatro meses depois. Uma senhora aposentada, sozinha, que tinha visto Thor numa campanha de adoção na feira de Suzano e achou ele "lindo, parecia lobo mesmo". Durou onze semanas. A senhora não aguentava a energia do cachorro, que puxava a guia, cavava o jardim, uivava quando ficava sozinho enquanto ela ia ao mercado. Ela devolveu chorando, dizendo que amava o Thor, mas que não tinha corpo para aquilo.

A terceira vez foi um jovem de vinte e dois anos, sozinho, morando de aluguel, que trabalhava doze horas por dia numa distribuidora em Itaquaquecetuba. Esse durou dezoito dias.

Foi aí que Marlene decidiu mudar a ficha do Thor. Não pela raça, mas pela história. Ela escreveu, com a letra dela mesma, num cartão de cartolina pendurado no box: "Este cão já foi devolvido três vezes. Ele precisa de espaço, de rotina e de alguém disposto a aprender sobre a raça antes de levar. Se você está aqui porque viu um lobo numa série, pense de novo."

Passaram-se sete meses sem ninguém se aproximar do box 14. Até que apareceu Renato, quarenta e três anos, motorista de aplicativo, que morava numa casa com quintal em Poá e tinha acabado de perder o próprio cão, um vira-lata de treze anos, para uma insuficiência renal. Renato não foi atrás de husky. Foi atrás de qualquer cachorro grande que pudesse correr com ele nas manhãs de domingo, antes do trânsito da Ayrton Senna engasgar tudo.

Ele leu o cartão inteiro, parado ali por uns bons dez minutos, enquanto Thor latia atrás da grade. Marlene se aproximou e contou a história: as três devoluções, o filhote fotografado por causa de uma série, o abandono repetido feito rotina.

— Ele não é fácil — ela avisou.

— Também não sou — Renato respondeu, e pediu para ver a ficha de saúde do cachorro, as vacinas, o histórico completo. Perguntou sobre castração, sobre alimentação, sobre quanto tempo levava para adaptar um husky a viver com outro animal, porque ele tinha uma gata idosa em casa. Perguntou tudo que ninguém tinha perguntado nas três vezes anteriores.

Levou Thor num sábado de manhã. Não tirou foto para postar. Simplesmente colocou o cachorro no banco de trás do Onix, com o cinto de segurança adaptado, e foi embora.

Passou-se um ano. Marlene reencontrou Renato numa campanha de castração gratuita da prefeitura, no ginásio do bairro Cerâmica. Ele estava lá para castrar a gata, mas trouxe o Thor também, só para mostrar. O cachorro estava mais pesado, o pelo mais brilhante, e quando viu Marlene atravessou o pátio puxando a guia com tanta força que Renato quase caiu.

— Ele lembra de você — disse Renato, rindo, tentando segurar a coleira.

Marlene se abaixou, pegou o focinho do cachorro com as duas mãos, sentiu o cheiro de protetor solar de animal que Renato passava nele antes das corridas de domingo, e não disse nada por um instante. Só ficou ali, com o cachorro puxando a cabeça pra lambê-la, enquanto ao fundo uma van tocava um jingle de campanha de vacinação antirrábica no alto-falante.

— Ele nunca mais vai voltar pra cá — falou Renato, meio pergunta, meio afirmação.

— Isso quem decide é você, todo santo dia — respondeu Marlene, e voltou para dentro do ginásio, porque tinha mais dez cachorros na fila esperando a vez.

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: