Meu nome é Bárbara Ferraz, administro uma lavanderia de bairro na Vila Mariana, na esquina da Rua Vergueiro com a Rua Domingos de Morais, há vinte e um anos. Vejo de tudo aqui — quem está se separando, quem faliu, quem voltou depois de anos com uma sacola de desculpas no lugar de presente. Essa história eu não vi do começo ao fim, mas estive presente na parte mais importante, porque dona Renata trazia as toalhas do restaurante dela duas vezes por mês, pontual como relógio, e numa dessas visitas o ex-marido dela estava sentado na minha sala de espera.
Renata Torres tem hoje quarenta e três anos e administra três estabelecimentos — duas cafeterias de café da manhã no Itaim Bibi e uma na Vila Madalena, num antigo galpão reformado na Rua Harmonia. Conheço ela desde quando trazia os primeiros aventais para tirar mancha, antes mesmo de abrir o primeiro negócio. Naquela época ainda era casada com Ricardo Torres e trabalhava como caixa de supermercado no extra da Avenida Ibirapuera, ganhando um salário mínimo e pouco mais.
Naquele dia a chuva caía sem parar, e eu já estava fechando, porque eram cinco e quarenta, e eu fecho às seis. Renata entrou com um embrulho de toalhas debaixo do braço, encharcada, de chinelo de dedo apesar de ser junho, porque, como ela dizia, "na cozinha o pé já molha mesmo, então pra que estragar o sapato no caminho." Atrás dela, literalmente três minutos depois, a sineta da porta tocou de novo e entrou um homem de jaqueta encharcada, com aquela cara de quem passou muito tempo ensaiando um discurso na cabeça.
— Renata — disse baixinho. — Você podia… podia me dar cinco minutos?
Ela o reconheceu na hora, embora não tenha mudado a expressão nem um milímetro. Colocou o embrulho sobre o balcão, perto da minha caixa registradora, onde costumo deixar os recibos, e falou pra mim num tom completamente tranquilo:
— Dona Bárbara, pode contar as toalhas, vou conversar rapidinho com ele aqui.
Sentaram nas duas cadeiras de plástico que mantenho perto da janela para os clientes que esperam limpeza expressa. Eu fingia contar a roupa de cama, porque na verdade não tinha muita escolha — numa loja tão pequena é impossível não escutar.
Ricardo começou dizendo que parecia que ela estava indo bem. Que a loja da Vila Madalena era um point da moda agora, porque um colega de trabalho dele tinha ido lá na festa de aniversário da filha. Renata não disse nada, só cruzou as mãos no colo e esperou. Ele se remexia na cadeira, como se a jaqueta estivesse apertada demais.
— Eu errei — disse por fim. — Naquela época, cinco anos atrás. Fui idiota. Pensei em você o tempo todo, Renata. Quero voltar. Recomeçar. Sou outra pessoa agora.
Fez-se uma pausa em que só se ouvia o barulho da minha máquina de lavar antiga nos fundos. Renata olhou pra ele um instante, depois disse algo que eu, administrando esse negócio há vinte e um anos e tendo visto centenas de cenas assim, jamais esqueço:
— Outra pessoa? E cinco anos atrás, quando eu peguei aquele empréstimo com o apartamento da minha mãe como garantia pra abrir a primeira loja, quem você era?
E foi aí que entendi que aquilo não era um encontro casual — que ela sabia que ele podia aparecer um dia, e tinha ensaiado aquilo centenas de vezes na cabeça, do mesmo jeito que eu ensaio o que vou dizer pro cliente que traz um paletó queimado de ferro.
Ela começou a falar, e eu, sem querer bisbilhotar, ouvi a história inteira, porque numa loja pequena a voz ecoa entre os cabides como numa igreja. Contou que quando decidiu abrir a primeira cafeteria na Rua Aspicuelta, ele bateu a porta do apartamento alugado deles na Vila Pompeia e disse que não ia viver com uma "falida com delírio de grandeza." Que levou as coisas dele em duas sacolas de supermercado, porque nem esperar uma mala arrumar ele quis. Que durante o primeiro ano ela ficou sozinha — cozinhando, limpando, fazendo compras no CEASA às cinco da manhã porque saía mais barato, e dormindo quatro horas num sofá velho nos fundos da loja, porque não tinha dinheiro pra táxi até em casa.
— E agora, que eu tenho três lojas e um carro na garagem, de repente eu volto a ser sua Renata — disse ela, e nesse momento levantou a voz pela primeira vez, a ponto de uma cliente que retirava a jaqueta perto da porta se virar pra olhar.
Ricardo começou a explicar que na época tinha medo, que não tinha experiência, que o pai dele também tinha perdido o próprio negócio por causa de dívida e ele tinha entrado em pânico de repetir o mesmo destino. Que agora trabalhava com logística, num galpão em Cotia, que alugava um quarto na casa de um amigo, porque o apartamento que tinham juntos ele vendeu pra pagar as dívidas de um investimento mal-sucedido em criptomoeda, no qual tinha entrado três anos atrás com um colega de trabalho.
Renata escutava tudo aquilo sem interromper, com uma expressão que me lembrava as clientes que vêm buscar o vestido de noiva pra limpar depois do divórcio — nem lágrima, nem sorriso, só aquela calma que parece mais cansaço do que perdão.
Foi quando o celular dela tocou. Atendeu, disse pra alguém "chego em dez minutos, façam o Marcos assumir o turno na Harmonia", e guardou o celular no bolso do avental.
— Sabe o que é mais engraçado, Ricardo? — disse, levantando. — Eu não estou brava com você. De verdade. Você estava apavorado, seu pai tinha falido, eu entendo isso. Mas durante cinco anos você nunca ligou pra perguntar se eu tinha conseguido pagar aquele empréstimo com a hipoteca da minha mãe. Só apareceu agora que viu o carro.
Pegou o celular de novo, dessa vez pra mostrar alguma coisa nele. Abriu o aplicativo do banco — eu vi, porque ela estava de lado pro balcão e a tela refletia no vidro da minha geladeira de bebidas. Passou o dedo até a aba de empréstimos.
— Esse é o empréstimo que peguei com o apartamento da minha mãe na Vila Clementino como garantia. Cento e oitenta mil reais. Paguei tudo ano passado, sozinha, sem sua ajuda. Minha mãe agora tem o apartamento limpo, transferido pra mim em escritura pública como quitação da dívida de gratidão, e essa é a única coisa que eu me orgulho de contar na sua frente, porque é a única coisa que importa.
Levantou, pegou o embrulho do balcão, pagou em dinheiro pelas toalhas — lembro que não tinha troco e disse "o resto eu deixo pra próxima vez, dona Bárbara" — e foi em direção à porta. Ricardo ficou sentado na cadeira, com as mãos apoiadas nos joelhos, como se esperasse que ela se virasse de novo.
Ela não se virou. Só parou na porta, com a mão na maçaneta, e disse, olhando pra vitrine com o anúncio de lavagem de edredom:
— Se você quiser tomar café da manhã no Itaim, pode ir. Você paga como qualquer cliente, dezoito reais pelos ovos mexidos. Mas essa é a última conversa sobre "recomeçar." Eu já recomecei. Sem mim — quer dizer, sem você, cinco anos atrás.
A sineta tocou, a porta se fechou, e pela vitrine dava pra ver Renata andando em direção ao ponto de ônibus na Vergueiro, sem olhar pra trás, com um guarda-chuva que nem chegou a abrir, apesar da chuva continuar caindo.
Ricardo ficou sentado ali mais uns cinco minutos, até eu avisar delicadamente que ia fechar. Levantou, agradeceu, perguntou se ela vinha aqui há muito tempo — respondi que sim, regularmente, que era uma mulher séria e uma boa cliente. Não acrescentei mais nada, porque não era da minha conta.
Tranquei a porta atrás dele, girei a fechadura e conferi de novo, como faço todas as noites. Apaguei o letreiro luminoso na entrada — deu um zumbido curto e a tela do vidro ficou preta. Recolhi do balcão a marca molhada do embrulho de Renata e limpei com um pano. Na caixa ficaram os dois reais de troco que ela não levou, ao lado do recibo número 214. Olhei mais uma vez pela vitrine para a esquina vazia e molhada da Vergueiro com a Domingos de Morais, onde já só ficava acesa uma luminária, e só então apaguei a luz de dentro.
