Aos setenta e um anos, Zuleide Ferraz já tinha desistido de esperar telefonemas. Morava sozinha num apartamento de dois quartos num prédio antigo perto da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, onde o elevador rangia como se reclamasse de cada viagem e o cheiro de café requentado do vizinho do quarto andar subia pelo duto de ventilação todas as manhãs, pontual como um despertador. Os filhos moravam em São Paulo, ligavam no aniversário e no Natal, às vezes numa terça qualquer sem motivo — e ela já tinha aprendido a não contar os dias entre uma ligação e outra.
A rotina era simples: café da manhã com pão de queijo requentado no forninho elétrico, novela das seis, o programa de auditório que ela nem gostava mas deixava ligado só pelo barulho de gente, e a janela da sala que dava pro pátio interno do prédio, onde um cachorro vira-lata dos porteiros — o Bolinha — latia pra tudo que se mexia, inclusive pra pomba.
Foi nesse pátio que ela conheceu o Theo.
Oito anos, cabelo espetado, morador do apartamento 302, dois andares abaixo do dela. Os pais trabalhavam o dia inteiro — o pai em uma concessionária de carros na BR-040, a mãe numa clínica de fisioterapia — e quando estavam em casa juntos, discutiam tão alto que dava pra ouvir da escada. O menino passava as tardes sentado nos degraus com um caderno de desenho, ou riscando giz de cera no chão do pátio, debaixo do olhar entediado do Bolinha.
Zuleide não gostava de criança. Achava barulhenta, invasiva, de um jeito que perturbava sua paz cuidadosamente reconstruída. Mas um sábado de maio, com aquele frio seco de Minas que faz a pele da mão rachar, o menino bateu na porta dela com um desenho enrolado debaixo do braço.
— É pra senhora. Desenhei uma girafa. A senhora parece com ela.
Ela ficou sem saber se era elogio ou ofensa.
— E por que eu pareço com uma girafa?
— Porque a girafa é a mais alta e vê tudo de longe. E tem os olhos bondosos. Igual aos seus.
Alguma coisa remexeu por dentro dela — não bem carinho, mas uma curiosidade que fazia tempo não sentia. Convidou o menino pra entrar. Ele sentou na ponta do sofá, as pernas balançando sem alcançar o chão, e começou a falar: que tava entediado, que a mãe trabalhava até tarde, que já sabia tabuada até o sete.
Ela escutou sem interromper. E o Theo, provavelmente, sentiu que alguém finalmente prestava atenção nele de verdade.
A partir dali ele passou a aparecer quase todo dia depois da escola. Primeiro mostrava desenhos. Depois contava as fofocas da sala de aula. Depois ficava pro lanche — biscoito de polvilho com achocolatado — sentado na mesinha da cozinha enquanto o rádio tocava baixinho uma rádio AM que só tocava música antiga.
Zuleide percebeu que passou a prestar atenção nos passos no corredor, tentando adivinhar se eram os dele.
Contava histórias da infância no interior de Minas, do fogão a lenha da avó, do marido que tinha morrido fazia catorze anos. Ele escutava de boca aberta e fazia perguntas que apertavam o peito dela.
— A senhora tem medo de morrer?
— Antes eu tinha. Agora não tenho mais. Agora eu tenho você.
Jogavam dominó nas tardes de domingo. Ela mostrava fotos antigas, amareladas nas bordas, e ele dizia que ela tinha sido bonita "que nem uma atriz de filme antigo". Ela fazia pipoca de micro-ondas pra ele, ensinava ponto de cruz, e ele descia correndo pra padaria comprar pão francês quando ela pedia. Um dia chegou com um punhado de flores amassadas, arrancadas do canteiro do síndico.
— É pra senhora não ficar triste. Minha mãe disse que a gente dá flor pra quem a gente gosta.
Zuleide chorou. Pela primeira vez em anos — não de solidão, mas porque alguém tinha pensado nela sem nenhum motivo.
O menino a chamava de "vovó emprestada". Ela corrigia, dizia que não era avó de verdade, só uma amiga. E ele respondia sério:
— Amigo é quem a gente ama. Então eu amo a senhora.
Ela chorou de novo. Porque aquele menino tinha virado a única luz acesa do apartamento dela. Parou de contar os dias entre as ligações dos filhos. Passou a esperar era os passos dele na escada.
Até que tudo desabou numa quinta-feira de julho.
O Theo não apareceu. Zuleide esperou até escurecer, sentada perto da porta com o rádio desligado — coisa que nunca fazia —, e depois desceu até o 302. Quem abriu foi a mãe, Renata, com os olhos inchados e a voz cansada de quem tinha discutido a tarde inteira.
— O Theo não vai mais subir aí, dona Zuleide. É melhor assim, pra todo mundo.
Disse que o menino tinha se apegado demais. Que ela era uma pessoa estranha à família. Que não queriam que ele sofresse quando ela morresse.
— Eu vou viver. Por causa dele — disse Zuleide, baixinho.
A porta fechou na cara dela.
No dia seguinte ela comprou giz de cera, um caderno de desenho novo e uma barra de chocolate Lacta, e escreveu um bilhete: "Eu te amo muito. Você é meu melhor amigo. Vou sempre esperar por você. É só bater na porta." Deixou o pacote pendurado na maçaneta do 302.
Passou uma semana. Ela ficava na cozinha olhando pra parede, contando os dias — coisa que jurara ter parado de fazer.
E então, numa terça à noite, bateram na porta. Era o Theo, com um caderno debaixo do braço, a capa escrita em letra de criança: "Pra minha vovó emprestada".
— Eu não vou te abandonar. A gente continua se vendo. Escondido.
Passaram a se encontrar às escondidas. Os pais achavam que o menino tinha esquecido a vizinha. Zuleide voltou a assar biscoito, a ouvir as histórias dele, a guardar o desenho em que ela aparecia de coroa, com a legenda: "Minha vovó".
Até que um sábado a filha dela, Patrícia, veio de São Paulo com os netos pra uma visita surpresa. Viu os desenhos espalhados na estante e perguntou quem tinha feito aquilo. Zuleide contou, animada, sobre o Theo — como ele era um menino bom, como ela tinha passado a amá-lo, como ele virara alguém da família pra ela.
Se soubesse no que aquela conversa ia dar.
Patrícia concluiu, sem perguntar mais nada, que os vizinhos estavam se aproveitando de uma velha sozinha através do filho, de olho no apartamento. Foi direto ao 302 armar confusão. Gritaria, ofensas, ameaças. Zuleide tentou apartar. O marido de Renata, nervoso, empurrou-a pra fora do apartamento com mais força do que devia. Ela perdeu o equilíbrio no tapete do corredor, bateu a cabeça na quina do batente e ficou desacordada no chão — enquanto lá embaixo, na Praça da Liberdade, já se ouvia a sirene do SAMU se aproximando.
Zuleide acordou dois dias depois, no Hospital Odilon Behrens, com um curativo na têmpora e a claridade de setembro entrando pela janela do quarto coletivo. A primeira coisa que viu foi Theo, sentado numa cadeira plástica ao lado da cama, os pés balançando sem alcançar o chão, um desenho novo apoiado no colo: ela de coroa outra vez, e do lado dele, segurando sua mão.
— Eles brigaram por sua causa — disse ele, baixinho. — Foi minha culpa.
— Não foi culpa sua. Foi culpa de gente grande que decide as coisas sem perguntar pra ninguém.
Patrícia estava no corredor, encostada na parede, com o rosto de quem não dormia havia dois dias. Quando entrou no quarto, não conseguiu olhar direito pra mãe.
— Eu errei. Achei que estava te protegendo e quase te matei.
Zuleide não respondeu logo. Pediu que trouxessem sua bolsa, ainda no armário do quarto. Tirou de dentro uma pasta plástica com a escritura do apartamento, que ela já vinha preparando havia meses num cartório da Rua Rio de Janeiro, no centro de Belo Horizonte — desde antes de qualquer confusão, desde a primeira vez que Theo bateu naquela porta com o desenho da girafa.
— Vou fazer uma doação em vida de trinta por cento do apartamento pro Theo, pra usar quando fizer dezoito anos. Não pra vocês brigarem por causa disso depois que eu morrer. E vou registrar em cartório essa semana, assim que sair daqui.
Patrícia abriu a boca pra argumentar e não disse nada.
Renata, que tinha vindo ao hospital pedir desculpas em nome do marido, ficou parada na porta do quarto, sem jeito, ouvindo tudo. Zuleide olhou pra ela.
— E você vai deixar seu filho subir pra tomar café comigo quando eu voltar pra casa. Isso não é negociável. Ele não vai sofrer por gostar de mim — ele já sofre mais ainda achando que fez alguma coisa errada.
Renata baixou a cabeça e disse que sim.
Três semanas depois, de volta ao apartamento perto da Praça da Liberdade, Zuleide destrancou a porta com uma chave nova — trocara a fechadura por segurança, depois do episódio — e encontrou, pendurado na maçaneta, um pacote embrulhado em papel de presente reaproveitado. Dentro, um caderno de desenho novo, e na primeira página, escrito em letra de criança:
"Pra minha vovó de verdade. Agora é oficial."
