# A gata que Nelson não largou

O médico falou baixo, quase sem emoção, como quem repete um dado técnico pela enésima vez: se ele tivesse soltado a gata, o corpo teria resistido mais tempo. Na água fria, cada movimento gasta calor que não volta. Segurar um bicho de cinco quilos contra o peito por quase três horas foi, tecnicamente, um erro.

Nelson escutou tudo isso deitado, com duas mantas térmicas por cima e um soro pingando devagar no braço. Esperou o médico terminar. Depois perguntou:

— E isso muda alguma coisa?

Ninguém no quarto do Hospital Regional de Angra dos Reis soube o que responder. Lá fora, o ventilador de teto girava sem pressa, e dava para ouvir o carrinho de café passando no corredor, batendo de leve nas portas.

Nelson tinha sessenta e um anos e pescava sozinho desde os vinte e dois. Na Vila do Abraão, todo mundo conhecia aquele barco branco descascado, o *Segunda Chance*, e sabia também que o dono não usava colete salva-vidas. Nunca tinha usado. Não por bravata — ele simplesmente achava o colete um estorvo para puxar rede, e vinha repetindo isso havia quase quarenta anos para quem quisesse ouvir. A vizinha Dulce, que vendia peixe na feira de sábado, vivia enchendo o saco dele: "um dia essa teimosia sua vai custar caro, seu Nelson." Ele ria, tomava o cafezinho dela e ia embora do mesmo jeito.

A gata se chamava Zeca — nome de macho posto sem cerimônia numa fêmea, porque Nelson só percebeu o engano depois que o nome já tinha pegado. Ele a encontrou encolhida debaixo do trapiche, ensopada, com uns dois meses de vida, numa noite de chuva de maio. Levou para dentro da cabine do barco, enrolou numa camisa velha, e ela nunca mais saiu dali. Dormia em cima do motor ainda morno, sentava no colo dele quando limpava as tarrafas, conhecia o barulho de cada corda sendo puxada. Em sete anos de barco, nunca tinha caído na água. Até aquela noite.

No dia 12 de julho, a previsão do Marinha do Brasil dava vento moderado, mar de categoria 2. Nada que justificasse ficar em terra. Nelson saiu por volta das dez da noite para pescar corvina na boca da baía, com Zeca deitada perto do console, como sempre. A água de inverno na Baía de Ilha Grande gira em torno de dezoito graus — não é o gelo do sul, mas é o suficiente para matar um homem em poucas horas se ele parar de se mexer.

Passava pouco da uma da madrugada quando uma onda cruzada, dessas que não avisam, pegou o barco de través. Não foi o balanço de sempre. Foi um golpe seco, lateral, e o *Segunda Chance* virou quase na hora. Nelson foi para dentro d'água junto com tudo: bota, calça encharcada puxando para baixo, o frio entrando pelo peito como se fosse fogo às avessas. Não havia luz de terra visível, só a escuridão fechada da baía e o som da própria respiração ficando curto.

Foi nesse instante que Zeca apareceu de novo na superfície, nadando com aquele jeito atrapalhado e desesperado que gato nenhum escolheria fazer se pudesse evitar. Nelson não pensou duas vezes. Segurou o bicho com as duas mãos e trouxe para cima do peito, os dois flutuando com a ajuda de um pedaço de isopor que se soltara do casco.

A partir dali, tudo virou repetição. Não afundar o corpo mais do que o necessário. Erguer Zeca acima da linha da onda sempre que a água tentava engolir os dois. Não soltar. De novo. De novo. Ele contaria depois que perdeu a noção do tempo — só existia aquele movimento dos braços, subir, segurar, subir.

A Capitania dos Portos só notou a falta de sinal do rádio às cinco e quarenta da manhã, quando outro pescador, o Ronaldo, avisou que o barco de Nelson não tinha voltado. A busca demorou quarenta e cinco minutos. Encontraram o casco virado perto dos rochedos da Ponta do Leste. Um pouco adiante, Nelson, de pé na água rasa, praticamente rígido — não porque estivesse bem, mas porque já não conseguia se dobrar.

Zeca ainda estava presa contra o peito dele.

Na lancha de resgate, tentaram separar o bicho primeiro, para virar Nelson e começar o aquecimento. Não deu. O frio tinha travado os músculos dos braços de um jeito que as mãos pareciam soldadas uma na outra. Precisaram erguer os dois juntos, homem e gata, como se fossem uma coisa só.

A temperatura corporal dele, quando chegou ao hospital, estava em trinta e dois graus. Hipotermia severa, princípio de congelamento nos dedos dos pés por causa da bota cheia d'água. E cento e cinquenta e oito minutos — o tempo exato que ele passou segurando Zeca acima da água, calculado depois pela própria equipe de resgate a partir do horário da queda e do resgate.

Zeca foi examinada na mesma manhã por um veterinário chamado a pedido da própria equipe do Corpo de Bombeiros. Hipotermia leve, mas respirando sozinha, sem água nos pulmões. A ponta das orelhas ficaria marcada — um friozinho de queimadura fria que nunca sumiu de vez, um desenho quase apagado que só quem conhecia a história sabia enxergar.

Nelson ficou internado nove dias. No sexto, ainda com o soro no braço, perguntou pela primeira vez como a gata estava. A enfermeira Solange, que cuidava do plantão da noite, contou que ele repetiu a pergunta três vezes naquela mesma tarde — como se não confiasse na resposta que já tinha recebido.

No dia da alta, ele desceu sozinho até o trapiche da Vila do Abraão, ainda com um leve arrasto na perna esquerda. Zeca estava lá, sentada exatamente no lugar de sempre, perto da caixa de isca vazia, como se soubesse que ele ia chegar naquele horário e não em outro.

O *Segunda Chance* ficou destruído — motor tomado de água salgada, casco rachado, sem conserto que valesse a pena. Nelson vendeu o que sobrou por três mil e duzentos reais para um sucateiro de Angra e usou o dinheiro, mais uma economia guardada havia anos, para comprar outro barco usado, menor, de fibra. O primeiro item que instalou dentro da cabine nova não foi rádio nem bússola. Foi uma caixa de madeira forrada com um cobertor velho, presa com parafuso no chão, exatamente na altura do console — o lugar de Zeca.

Dulce, a vizinha da feira, foi ver o barco novo assim que soube. Olhou para a caixinha pregada no chão e perguntou se ele não achava melhor deixar a gata em terra, pelo menos até esquecer o susto. Nelson só respondeu, enquanto testava a corda da âncora:

— Ela não ia ficar. E eu também não ia sair sem ela.

Não teve mais discussão. Dulce balançou a cabeça, comprou o resto do peixe que sobrara na caixa de isopor dele e foi embora resmungando que aquele homem não tinha jeito mesmo. Zeca, deitada em cima do cobertor novo, nem levantou a cabeça quando o motor pegou.

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Odissea
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