Trinta e uma ligações da recepção do hospital, e foi outra mulher quem atendeu

Eu tinha ligado trinta e uma vezes para o celular do meu marido enquanto a mãe dele morria numa maca do Hospital das Clínicas, em Recife. Na trigésima segunda tentativa, desisti de discar e mandei mensagem. Foi só aí que ele ligou de volta — cinco horas depois, com música ao fundo e a voz de uma mulher perguntando "quem é" antes de ele conseguir tapar o microfone.

Dona Neusa morreu às 23h40 de uma quinta-feira de julho, com o ar-condicionado do quarto pingando num balde de plástico porque a manutenção do hospital nunca ia lá. Eu segurava a mão dela quando o coração parou de bater no monitor. E segurava também uma correntinha de prata que ela tinha arrancado do pescoço três dias antes, num momento de lucidez, e enfiado na minha mão com uma força que eu não sabia que ainda tinha.

— Guarda isso, Marisa. Não deixa o Cláudio ver.

Eu tinha perguntado o que era a chave pendurada naquela corrente. Ela só balançou a cabeça e fechou os olhos, como se o esforço de ter falado aquilo já tivesse gastado o resto de energia que lhe restava.

Vinte minutos depois de o médico assinar o atestado de óbito, meu celular vibrou. Cláudio.

— Marisa, que porra aconteceu? Por que trinta ligações?

Ao fundo, dava pra ouvir o mar. Estava em Maceió havia quatro dias, numa "convenção de fornecedores" — foi o que ele me disse antes de embarcar.

— Sua mãe morreu.

Três segundos de silêncio. Contei.

— Como assim morreu? Ela tava estável.

— Não tava, Cláudio. Eu tentei te avisar a manhã inteira.

Ele suspirou. Não chorou. Não perguntou se ela tinha sofrido, se tinha sentido medo, se tinha pedido por ele. A primeira pergunta que fez foi:

— Ela falou alguma coisa antes de morrer?

Fechei a mão em volta da chave. A ponta dela cravou na palma.

— Falou. Se despediu de mim.

Não era mentira, tecnicamente.

— Eu pego o primeiro voo.

— Não precisa correr. Maceió não é tão longe assim.

Ele calou de um jeito estranho, e eu entendi na hora: a mulher do outro lado já tinha contado pra ele que eu tinha ouvido a voz dela. Não respondi mais nada. Desliguei.

Foi a primeira vez em vinte e seis anos de casamento que eu não senti aquele aperto no estômago de imaginar como ele ia reagir quando soubesse que eu tinha descoberto algo. Porque não tinha mais nada a salvar.

No dia seguinte, fui até a casa de Dona Neusa, um sobrado antigo em Casa Amarela, com aquelas grades de ferro trabalhado na varanda que ela nunca deixou ninguém pintar por cima. Passei anos cuidando daquela casa e daquela mulher enquanto Cláudio aparecia de mês em mês, ficava vinte minutos, sempre com pressa, sempre "reunião", sempre "cliente". Agora eu sabia que uma das "reuniões" tinha vinte anos a menos que eu e bebia caipirinha em resort de beira de praia.

Passei a tarde revirando gavetas atrás de algum lugar onde aquela chave pudesse encaixar. Nada. Até que achei, dentro de uma caixa de sapato, uma foto amarelada: Dona Neusa e o marido, Seu Osvaldo, em frente a uma agência bancária no Centro. Atrás, com caneta esferográfica desbotada: Banco do Brasil, agência Marco Zero — 1989.

Liguei pro advogado dela, Doutor Anselmo, um homem de escritório em cima de uma farmácia na Boa Vista, com ventilador de teto que rangia. Quando falei da chave, ele nem se surpreendeu.

— Dona Marisa, vem aqui amanhã de manhã. Não vai a lugar nenhum antes disso.

Ele tinha um envelope lacrado, meu nome escrito na frente com a letra tremida de Dona Neusa. Guardado havia oito meses.

Dentro, uma carta curta: "Se você está lendo isso, é porque eu não consegui te explicar a tempo. A chave abre o cofre 317. Não vá sozinha — leve o Doutor Anselmo. E o que quer que o Cláudio te diga, não entrega nada a ele."

O cofre não tinha joias nem dinheiro vivo. Tinha três pastas grossas: CLÁUDIO — CONTAS. EMPRESA. DEPOIS QUE EU MORRER.

Nos últimos seis anos, usando uma procuração que devia servir só pra pagar remédio e plano de saúde, Cláudio tinha transferido dinheiro da conta da própria mãe pra duas empresas de "consultoria". Começou em três mil reais. Depois oito mil. Depois vinte e cinco mil. No total, mais de quinhentos e oitenta mil reais.

Uma das empresas pertencia a um amigo de faculdade. A outra estava no nome de uma tal Fernanda Barreto Nogueira.

— É ela — falei baixo. — É a mulher de Maceió.

A terceira pasta tinha o testamento. Refeito sete meses antes da morte dela. A casa, as ações da empresa da família, tudo indo pra um fundo com duas beneficiárias: eu e minha filha Camila. Cláudio recebia um real, com uma cláusula anexa: "Meu filho não está sendo deserdado por engano. Esta é uma decisão consciente e definitiva."

Doutor Anselmo me entregou outro envelope. "Pra você." Dentro, Dona Neusa escreveu que me escolheu não por eu ser esposa do filho dela, mas por eu ter sido a filha que ele nunca soube enxergar em mim. Que amor, pra ela, tinha virado sinônimo de ficar — e eu tinha ficado, quando ninguém mais ficava.

Cláudio voltou dois dias depois, bronzeado, sem a Fernanda. Entrou em casa como se nada tivesse acontecido, com desculpas prontas: colega de trabalho, escala de viagem, um copo de vinho a mais.

— Quem é Fernanda Barreto Nogueira? — perguntei, sem rodeio.

Ele empalideceu.

— Mais de quinhentos e oitenta mil reais, Cláudio.

Derrubou a cadeira ao se levantar.

— Você mexeu nas coisas da minha mãe?

— Sua mãe me deu a chave.

Pedi que ele me entregasse as chaves de casa antes de sair pra dormir na casa da irmã naquela noite. No dia seguinte troquei a fechadura. Um chaveiro do bairro, quatrocentos reais, duas horas de trabalho — o barulho da furadeira ecoando na rua vazia enquanto o cachorro do vizinho latia sem parar pro nada.

O enterro foi numa sexta-feira de chuva fina, no Cemitério de Santo Amaro. Cláudio sentou na primeira fila. Eu, ao lado de Camila. Fernanda não apareceu. Depois da missa, as vizinhas, a enfermeira que cuidava de Dona Neusa, a farmacêutica da esquina — todas disseram a mesma coisa: "Ela falava de você o tempo todo, Marisa."

Três meses depois, o processo por fraude tinha avançado, a perícia grafotécnica confirmara assinaturas falsificadas em pelo menos quatro documentos, e a empresa da família tirou Cláudio da diretoria. Fernanda sumiu duas semanas depois de voltarem de Maceió — o romance ficava bem menos bonito sem hotel cinco estrelas pago e promessa de herança.

No dia da audiência final do divórcio, ele me esperou na porta do fórum, na Avenida Cruz Cabugá, parecendo dez anos mais velho.

— Você quer mesmo isso?

— Eu queria um marido que atendesse o telefone quando a mãe dele estava morrendo. Queria um homem que não roubasse a própria mãe. Isso aqui — levantei a pasta com os papéis assinados — é só o que sobrou.

Naquele verão, fui pra praia de Porto de Galinhas com Camila, coisa que eu vinha adiando fazia quase vinte anos. No último dia, sentadas na varanda do pousada com café da manhã esfriando na mesa, ela perguntou por que eu ainda guardava a chave, já que o cofre tinha sido esvaziado e fechado.

Abri a bolsa, mostrei a caixinha de madeira onde ela ficava.

— Porque foi ela que abriu uma porta pra mim.

Não a do banco.

Peguei o telefone, entrei no aplicativo do banco, mostrei pra Camila o saldo da conta que agora era só minha, o nome dela como cotitular do fundo que a avó tinha deixado. Fechei o aplicativo. Guardei o celular.

Da varanda, dava pra ver os catamarãs saindo pras piscinas naturais, o sol batendo forte demais pras nove da manhã. Terminei o café.

— Vou vender a casa de Casa Amarela — falei. — Já assinei com a imobiliária semana passada.

Camila não perguntou por quê. Só assentiu e serviu mais café pras duas.

Like this post? Please share to your friends:
Odissea
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: