O pequeno raposo que aprendeu a ser gato

Naquela manhã, eu ia perder o autocarro por causa de um raposinho.

E, se me perguntarem hoje, digo sem hesitar: ainda bem que perdi.

Era cedo, pouco depois das seis. O bairro em Setúbal ainda acordava devagar, com as primeiras carrinhas de pão a passar, os varredores da câmara a empurrarem carrinhos metálicos e meia dúzia de pessoas sonolentas à espera do autocarro. Eu trabalhava por turnos num armazém logístico, e já conhecia aquele percurso de olhos fechados: sair do prédio, atravessar a avenida, comprar um café rápido no quiosque e apanhar o 7h05.

Nesse dia, porém, quando eu já ia a subir para o autocarro, algo pequeno e cor de ferrugem atravessou o passeio à minha frente.

Parei.

Era um raposinho.

Não um cão. Não um gato ruivo. Um raposinho mesmo, pequeno, magro, com o focinho comprido, orelhas grandes demais para o corpo e uma cauda clara, peluda, que ele levava esticada para trás como se fosse o leme de um barco.

Passou por mim sem medo, mas com pressa. Esfregou-se quase contra a berma, atravessou a rua por baixo de um carro estacionado e entrou numa passagem estreita entre dois prédios.

O motorista do autocarro buzinou.

Eu olhei para a porta aberta. Depois olhei para o beco.

E fui atrás do raposinho.

— Ó homem, vai ou fica? — gritou o motorista.

Fiquei.

O animal entrou por baixo de uma vedação de obra, numa construção parada havia meses. Havia ali redes metálicas, paletes, sacos de cimento rasgados, tubos de plástico e tábuas empilhadas. Tentei segui-lo, mas ele desapareceu na sombra.

Cheguei ao trabalho de boleia com um colega e não me atrasei por pouco. Mas a imagem daquele bicho não me saiu da cabeça o dia inteiro. Um raposinho no meio da cidade. Tão pequeno. Tão sozinho. Ou talvez não.

Quando o turno terminou, voltei diretamente ao local. Levei uma lata de sardinhas, um pedaço de frango cozido que tinha em casa e uma lanterna pequena.

Demorei quase vinte minutos a encontrar uma abertura segura na vedação. Rasguei a camisola, sujei as calças e praguejei baixo duas ou três vezes. A obra cheirava a pó, humidade e ferro oxidado. No canto mais escondido, atrás de uma muralha de paletes e caixas partidas, ouvi um som miúdo.

Um ronronar.

Apontei a lanterna com cuidado.

Lá estava ela.

Uma gata cinzenta, magrinha, de olhos verdes e expressão desconfiada. À volta dela, quatro gatinhos já crescidinhos, redondos, desajeitados, todos de cores diferentes. E, encostado à barriga dela como se tivesse nascido ali, estava o raposinho.

A gata rosnou quando me viu. Não fugiu. Apenas pôs o corpo à frente dos pequenos.

— Calma, menina — murmurei. — Não venho fazer mal.

Deixei a comida a alguma distância e recuei.

O raposinho levantou a cabeça. Tinha molho seco no focinho e um olhar tão vivo que quase parecia perguntar se eu trazia mais. A gata deu-lhe uma leve patada na orelha, como quem ralha com um filho atrevido. Depois começou a lambê-lo, com a mesma paciência com que lambia os gatinhos.

Fiquei ali parado, sem saber se ria ou se chorava.

Nos dias seguintes comecei a passar por lá sempre que podia. Primeiro deixava comida à entrada. Depois, quando a gata percebeu que eu não era ameaça, deixava mais perto do ninho. Chamei-lhe Cinza. Aos gatinhos dei nomes ridículos: Meia, Pingo, Tico e Bolacha. Ao raposinho chamei Faísca, porque era impossível olhar para ele quieto. Mesmo quando dormia, parecia prestes a disparar.

Com o tempo, Faísca habituou-se a mim. Quando via a minha cabeça surgir por cima das paletes, emitia uns guinchos baixos, quase indignados, como se dissesse:

— Então? Demoraste.

Atirava-lhe pedacinhos de carne, e ele apanhava-os com uma rapidez cómica. Mastigava de boca cheia, todo satisfeito, enquanto os gatinhos olhavam para ele como se fosse uma espécie de irmão estrangeiro e ligeiramente maluco.

Cinza levava os filhotes a passear durante o dia, mas Faísca raramente saía com eles à luz. Era curioso. Parecia perceber que o mundo dos humanos não era lugar seguro para um raposo. Ficava escondido, dormia entre as tábuas e só se animava ao anoitecer.

Eu trabalhava muitas vezes à noite. Quando voltava de madrugada, passava pela obra e ficava algum tempo a observar. Àquela hora, o bairro era outro. Sem crianças, sem martelos, sem buzinas. Só a luz amarela dos candeeiros, o ruído distante de carros e aquela família improvável a brincar na sombra.

Os gatinhos saltavam, tropeçavam, rolavam uns por cima dos outros. Faísca corria em círculos. Era mais rápido, mais elástico, mais selvagem. Parecia um pequeno cometa ruivo a atravessar o pátio. Fazia duas voltas enquanto os irmãos ainda decidiam para que lado correr.

E eles admiravam-no.

Seguiam-no com os olhos. Tentavam imitá-lo. Quando ele saltava uma tábua, os gatinhos tentavam saltar também. Quando ele parava de repente e inclinava a cabeça, todos paravam. Era claro: Faísca era o aventureiro da ninhada.

E foi por isso que, naquela noite, tudo aconteceu como aconteceu.

Eram quase duas da manhã. Eu regressava do turno, cansado, com as botas a arrastar no passeio. O bairro estava vazio. Um nevoeiro leve subia do rio, e os candeeiros desenhavam círculos baços na estrada.

Parei atrás da paragem, como de costume, a uns trinta metros da obra. Cinza tinha trazido os pequenos para fora. Os gatinhos brincavam junto ao passeio, e Faísca corria à volta deles, fazendo pequenas arrancadas.

Então ouvi o motor.

Uma carrinha branca entrou na rua depressa demais.

Ao mesmo tempo, do outro lado da avenida, surgiu um cão grande, sem trela, atraído talvez pelo movimento dos animais. Não parecia mau. Mas vinha excitado, a ladrar, e os gatinhos assustaram-se. Em vez de correrem para o buraco da vedação, espalharam-se. Um deles, o Pingo, foi direto para a estrada.

O meu coração parou.

— Ei! — gritei, correndo.

Cinza miou de uma forma terrível, aguda, desesperada.

Mas antes que eu chegasse, Faísca disparou.

Nunca vi nada tão rápido.

Saiu da sombra como uma seta ruiva, atravessou à frente do cão e soltou um guincho forte. O cão mudou logo de direção, perseguindo-o. Faísca correu em ziguezague, afastando-o dos gatinhos e da estrada. A carrinha travou com um chiado. O condutor abriu a janela e começou a insultar o mundo inteiro, sem perceber que por poucos centímetros não tinha passado por cima de um gatinho.

Eu agarrei Pingo com as duas mãos e atirei-me para trás, quase caindo sentado no passeio.

Cinza correu para junto dos outros três. Faísca, entretanto, passou por baixo de um portão meio aberto, contornou uma pilha de tijolos e apareceu segundos depois no alto de um muro baixo. O cão ficou do lado de fora, confuso, a ladrar para o vazio.

— Tu viste isto? — perguntou uma voz atrás de mim.

Era o senhor Augusto, o guarda-noturno do prédio em frente. Tinha saído da guarita com uma lanterna.

— Vi — respondi, ainda com Pingo a tremer dentro do meu casaco. — Ele salvou-os.

O guarda aproximou-se, olhou para o raposinho no muro e abanou a cabeça.

— Um raposo criado por uma gata. Agora já vi tudo nesta vida.

Na manhã seguinte, percebi que a brincadeira tinha acabado. A obra ia recomeçar. Chegaram homens, máquinas, barulho. O canto onde Cinza escondia a família deixaria de existir em poucos dias.

Falei com uma associação local de proteção animal. Vieram duas voluntárias, a Teresa e a Joana, com transportadoras, luvas e muita paciência. Cinza não gostou da ideia. Os gatinhos protestaram. Faísca foi o mais difícil: não era gato, não era cão, não era animal para ficar em casa de ninguém.

— Ele precisa de um centro próprio — explicou Teresa. — É selvagem. Mesmo criado assim, continua a ser raposa.

Doeu-me ouvi-la dizer aquilo.

Durante meses, eu tinha pensado nele como parte daquela família. Mas talvez amar um bicho seja também aceitar a natureza dele.

Os gatinhos foram recolhidos e, semanas depois, adotados. Cinza acabou ficando com a própria Teresa, que jurou que era só até ela engordar um bocadinho. Todos sabíamos o que isso queria dizer.

Faísca foi levado para um centro de recuperação de fauna selvagem perto de Grândola. Eu fui visitá-lo uma vez, de longe. Ele estava num espaço amplo, com terra, troncos e esconderijos. Já não parecia tão pequeno. A cauda estava mais cheia, as patas mais firmes. Quando me viu, ficou imóvel por um instante.

Não correu para mim.

Ainda bem.

Apenas inclinou a cabeça daquele modo antigo, como fazia por cima das paletes.

— Está bem, rapaz — murmurei. — Eu percebo.

Meses depois, soube que o tinham libertado numa zona protegida. Não me disseram o local exato, e eu também não perguntei. Era melhor assim.

Ainda hoje passo por aquela rua. A obra terminou, o prédio ficou bonito, com varandas de vidro e vasos novos. Quem mora lá talvez nunca imagine que, naquele terreno, uma gata cinzenta criou quatro filhos e um raposo. Talvez ninguém saiba que, numa madrugada fria, um pequeno animal selvagem escolheu proteger a família que o acolheu.

Mas eu sei.

E, quando vejo um clarão ruivo desaparecer entre arbustos na beira de uma estrada, gosto de pensar que é ele. Maior, livre, inteiro. Talvez com crias suas, talvez ainda a correr em círculos como uma pequena máquina de fogo.

Faísca ensinou-me uma coisa simples: família nem sempre é sangue, espécie ou aparência.

Às vezes, família é quem te aquece quando és pequeno, quem te lambe as feridas, quem divide contigo o canto mais escondido do mundo.

E às vezes, quando chega o perigo, é também quem corre primeiro para o enfrentar.

 

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Odissea
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