Felicidade pura
Cristiane trocou a fralda pela última vez às cinco da manhã e ficou olhando o relógio de parede da cozinha, aquele com o pêndulo que a sogra tinha comprado no Ceasa vinte anos atrás e nunca mais consertou direito. Fazia sete meses que ela morava naquele apartamento em Osasco, no bairro Rochdale, cuidando de Dona Zilá sozinha. Sem folga. Sem noite inteira de sono. E, principalmente, sem o marido.
Rogério só aparecia aos domingos. Chegava, sentava na cadeira ao lado da cama, perguntava "e aí, mãe, como é que tá", ficava vinte minutos e ia embora dizendo que tinha reunião. Nunca tinha reunião aos domingos. Cristiane sabia disso, mas engolia.
Naquela manhã ela arrumou a mala. Colocou na porta e foi até a cozinha pegar o café que já estava pronto na garrafa térmica, a mesma que usava desde que casaram, com a etiqueta do Magazine Luiza ainda meio grudada na tampa. Rogério apareceu de pijama, descabelado, e se plantou na frente da porta.
— Você vai pra onde com essa mala?
— Vou embora, Rogério.
— E quem cuida da minha mãe? Eu não tenho tempo pra isso, você sabe.
Ela colocou a garrafa em cima da mesa, devagar, só pra não deixar cair, porque a mão estava tremendo e ela não queria que ele visse.
— Sete meses, Rogério. Você trabalha a doze minutos daqui. Da nossa casa antiga eram vinte e cinco. Você trocou de vida por causa de treze minutos de trânsito.
— Isso não tem nada a ver.
— Tem tudo a ver.
Do quarto veio a voz fraca de Dona Zilá chamando por água. Cristiane foi até lá, sentou na beirada da cama, ergueu a cabeça da sogra com cuidado e deu de beber pelo canudinho. A senhora tinha emagrecido tanto que o pulso parecia de passarinho. Olhou pra mala que dava pra ver pela porta entreaberta.
— Você tá indo, minha filha?
— Amanhã de manhã chega o pessoal da assistência social, Dona Zilá. Vão organizar um cuidado profissional, com fisioterapia, tudo direitinho.
— Vão me botar num asilo.
— Numa clínica de reabilitação. Não é a mesma coisa.
A velha começou a chorar baixinho, aquele choro que não faz barulho, só escorre. Rogério entrou no quarto atrás delas.
— Mãe, não começa com isso.
Dona Zilá olhou pro filho um tempo comprido, como quem termina de somar uma conta que vinha fazendo havia meses.
— Abre a gaveta de cima da cômoda. Tem um envelope.
Rogério travou.
— Mãe, não precisa disso agora.
— Precisa sim. Vai lá, Cristiane.
Cristiane foi. Debaixo de um monte de guardanapos de crochê achou um envelope pardo, grosso, meio amassado nas beiradas. Rogério tentou tomar da mão dela.
— É documento particular da minha mãe.
— Então deixa ela decidir.
Dona Zilá estendeu a mão trêmula.
— Abre.
Dentro tinha extratos bancários, uma procuração e a cópia de um contrato de compra de um imóvel. O nome da compradora era Elisa. Cristiane sentiu o estômago revirar — Elisa era a mesma mulher das fotos que ela tinha, a mesma que Rogério jurou ter deixado três anos atrás, quando ela perdoou a primeira traição achando que aquilo ainda dava certo.
O sinal de entrada tinha saído da conta de Dona Zilá.
— Você pegou o dinheiro da sua mãe?
— Ela concordou com isso.
— Eu não concordei — sussurrou Dona Zilá, e a voz dela tremia mais de raiva do que de fraqueza. — Você trouxe aquele papel depois do hospital dizendo que era autorização pra pagar cuidadora.
Cristiane virou a página. Era uma procuração completa, dando a Rogério poder sobre as contas e os bens da mãe.
— Você enganou ela do mesmo jeito que me enganou.
— Era dinheiro de família!
— Não. Era o dinheiro que ela guardou a vida inteira trabalhando de balconista no Extra da Avenida dos Autonomistas. Trinta e um anos de carteira assinada, Rogério. Ela me contou isso enquanto eu trocava o curativo dela.
Dona Zilá fechou os olhos.
— Eu guardei aquilo pra tratamento. Pensei que ainda ia poder andar de novo.
— O médico já falou que a senhora não anda mais! — ele gritou, e o próprio som da própria voz pareceu assustá-lo, porque baixou o tom na hora seguinte, mas tarde demais.
O silêncio que ficou depois disso doeu mais que o grito.
Cristiane olhou pro marido sem nenhuma esperança sobrando, tipo aquela última gota que escorre e não volta pro copo.
— Sai daqui.
— Esse apartamento é da minha mãe!
— Por isso mesmo é ela quem decide quem fica.
Dona Zilá abriu os olhos.
— Rogério, deixa a chave em cima da mesa.
— Depois de tudo que eu fiz por você?
— Você roubou meu dinheiro, me largou pros cuidados da sua mulher e ficou esperando eu morrer.
— Isso não é verdade!
— Eu ouvi você falando com a Elisa.
Ele ficou branco. Cristiane sentiu um arrepio subir pela nuca, o mesmo tipo de frio que sente quando a geladeira abre sozinha de madrugada e ninguém foi mexer nela.
— Que conversa, mãe?
— Aquela em que entendi que meu filho não roubou só o dinheiro.
Ela apontou pro criado-mudo.
— Pega o celular. Procura nas gravações, tem um arquivo de quinta-feira passada.
Rogério avançou pro criado-mudo. Cristiane se meteu na frente dele.
— Sai da frente.
— Não se mete.
Ele segurou o braço dela com força — a marca ficaria roxa dois dias depois — e foi nesse instante que a campainha tocou. Uma vez. Duas. Três.
— A assistência social só vem amanhã — Cristiane disse baixinho, e sentiu o próprio pulso batendo no pescoço.
Do corredor veio uma voz de homem:
— Polícia Militar. Abram a porta.
Rogério recuou um passo.
— Mãe… o que a senhora fez?
— O que eu devia ter feito há muito tempo. Liguei pra eles ontem à noite, sozinha, com esse celular que você acha que eu nem sei mexer.
Bateram de novo, mais forte.
Cristiane pegou o celular no criado-mudo. Abriu a pasta de gravações. Achou o arquivo. Vinte e sete minutos de duração. Apertou o play.
A voz de Rogério saiu primeiro, meio abafada, como quem fala escondido no corredor:
— Só precisa esperar mais um pouco. Quando minha mãe morrer, o apartamento também fica pra mim.
Depois a de Elisa:
— E a Cristiane?
Rogério riu.
— Até lá ela já assinou o divórcio. Deixa ela pensar que só tá cuidando da velha. Na verdade ela tá ajudando a gente a esperar a herança.
Cristiane ergueu os olhos devagar. Mas foi a frase seguinte que fez até Rogério congelar no lugar — porque ali, na gravação, ele não falou só do apartamento e do dinheiro. Ele disse a data exata em que achava que a mãe ia morrer, como quem marca consulta no dentista.
A batida na porta virou soco.
— Última vez. Vamos arrombar.
Dona Zilá, com a voz mais firme do que tinha usado a manhã inteira, disse:
— Abre, Cristiane. Deixa eles entrarem.
Dois policiais entraram junto com uma assistente social que, por coincidência de plantão, já estava escalada pra visita do dia seguinte e adiantou o atendimento depois da ligação da própria Dona Zilá. Rogério tentou explicar, gaguejou alguma coisa sobre "mal-entendido em família", mas o áudio já tinha rodado até o fim e um dos policiais pediu pra ouvir de novo, com o gravador do próprio celular funcional apontado.
Enquanto isso, Cristiane sentou de novo na beira da cama e segurou a mão de Dona Zilá — a mesma mão que tremia desde que ela chegou naquele quarto, sete meses atrás, sem saber ainda que ia ficar tanto tempo.
— A senhora quer processar ele pela procuração?
— Quero recuperar meu dinheiro. E quero que você fique com uma coisa.
— Dona Zilá, eu não…
— Deixa eu falar. Fiquei pensando nisso a noite toda, antes de ligar pra polícia.
Três semanas depois, num cartório da Avenida Rangel Pestana, Cristiane assinou os papéis de divórcio numa sala com ar-condicionado zunindo alto demais e um calendário de banco pendurado torto na parede. Rogério não apareceu — mandou o advogado. A procuração tinha sido revogada por decisão judicial, o dinheiro do sinal do apartamento voltou pra conta de Dona Zilá em parcelas, e Elisa, segundo contaram depois, tinha desaparecido do mapa assim que soube que não tinha mais herança nenhuma esperando no fim da linha.
Dona Zilá foi transferida pra clínica de reabilitação da Vila Yara, onde fazia fisioterapia três vezes por semana. Cristiane visitava aos domingos, levava pão de queijo requentado numa marmita e ficava até o fim da visita, sem pressa de ir embora pra reunião nenhuma.
Numa dessas visitas, Dona Zilá pediu que trouxessem um envelope da gaveta do armário da clínica. Era um novo testamento, registrado, deixando o apartamento de Osasco pra Cristiane — não pro filho.
— A senhora não precisa fazer isso.
— Não é pra você. É contra o que ele fez.
Cristiane guardou o envelope na bolsa, ao lado da certidão de divórcio já averbada, e ficou olhando pela janela do quarto da clínica, onde dava pra ver o pátio com um cachorro vira-lata que os funcionários alimentavam escondido, apesar da placa dizendo que animais não eram permitidos ali dentro.
