# Quinze anos sob o mesmo teto

Essa mulher apareceu na nossa casa quando eu tinha dez anos. Meu pai a trouxe de uma viagem a trabalho em Curitiba, deixou-a parada na sala como um móvel novo e disse:

— Essa é a Vera. A partir de agora ela vai morar com a gente.

Minha mãe estava perto da pia descascando batatas. A casca caía no balde, fina, uniforme, como se nada tivesse acontecido. Depois ela saiu para o quintal e ficou até de madrugada queimando papéis velhos num tambor de lata. Lembro do cheiro de fumaça e de que nenhum de nós perguntou o que ela estava fazendo lá fora por tanto tempo.

A Vera tinha quarenta e dois anos, cabelo pintado de ruivo e um sorriso que só aparecia quando meu pai entrava na cozinha. Para mim ela dizia "filhinha", mesmo eu já tendo minha própria chave de casa e minha bicicleta.

Minha mãe foi embora depois de dois anos. Em silêncio. Sem briga. Levou duas malas e a máquina de costura, deixou um bilhete em cima da mesa que ninguém leu em voz alta. Meu pai leu, amassou e jogou na lareira.

E a Vera se mudou para o quarto de cima. Para o nosso quarto. O que tinha janela para a jabuticabeira, que em outubro florescia e perfumava a casa inteira, como se fosse festa.

Não é que eu a odiasse. Ódio é palavra grande demais. Eu só ficava esperando. A infância toda, a adolescência toda — esperando meu pai perceber o que tinha feito. Esperando que alguém naquela casa dissesse a verdade em voz alta.

Ninguém disse.

Depois meu pai adoeceu.

Câncer de pâncreas. Três meses entre o diagnóstico e o enterro. Os médicos em Curitiba já não tinham mais o que fazer, e a Vera vivia correndo com marmitas, trocando lençóis, nos levando ao cemitério no Corolla preto dela. Eu sentava atrás e ficava olhando o pescoço dela. A correntinha de ouro fina com o crucifixo. O jeito delicado como batia o dedo no volante quando meu pai tossia.

Depois do velório todo mundo se reuniu: o tio Renato, que veio de Londrina, duas primas de São Paulo, um amigo antigo do meu pai da época do quartel. Estávamos na sala, tomando café bem forte, e eu olhava para ela. Sentada na poltrona do meu pai. A mesma onde ele lia o jornal havia vinte anos. E de repente ela falou:

— Bom, agora eu vou ter que cuidar dos bens.

Todo mundo congelou. O tio Renato pousou a xícara com um barulho tão seco que pareceu sino batendo.

— Que bens? — perguntei.

— Ora, a casa. O terreno. O carro. Seu pai ia querer que eu tivesse onde morar.

Foi aí que ela ergueu os olhos dos papéis pela primeira vez e viu que ninguém estava aplaudindo. A prima Camila pigarreou. O tio Renato se serviu de conhaque, mesmo sendo onze da manhã.

Peguei o celular e abri as anotações. Esperei quinze anos por esse momento.

— Vera — falei — essa casa está no meu nome.

Ela piscou.

— Como?

— Meu pai mudou o testamento há quatro anos. Escritura registrada no cartório do Batel, aqui em Curitiba. A casa, o sítio perto do Rio Iguaçu e o carro — tudo em meu nome. A senhora nem tem direito à herança legítima, porque ele deixou isso especificado no testamento.

A sala ficou tão quieta quanto igreja depois que a procissão sai.

— Você está mentindo — disse a Vera. — Seu pai nunca…

— Pois é. — Passei o dedo na tela, mostrei a foto do documento. — Número de registro quatro mil oitocentos e dezessete. A senhora pode conferir.

Ela se levantou. A xícara caiu do colo dela, se espatifou no piso. Ninguém se mexeu.

— Nesse caso — começou — eu vou embora. Mas preciso de um dinheiro. Seu pai me prometeu…

— Prometeu? — interrompeu o tio Renato. — Então bote isso no papel e leve pra Justiça.

A Vera ficou tão vermelha que o cabelo tingido, ao lado daquele rosto, parecia uma touca de algodão.

— Eu que cuidei dessa casa! Cozinhei, lavei roupa, fiquei indo no hospital quando ele já nem conseguia mais levantar! Vocês aqui…

— E a minha mãe não cozinhava? — perguntei baixinho.

Fez-se um silêncio tão fundo que dava para ouvir a mosca zunindo no parapeito da janela. O tio Renato abriu a janela. Um dos primos tirou um cigarro do bolso, mesmo ninguém nunca tendo fumado à mesa naquela casa.

A Vera foi até a janela, ficou de costas para nós.

— Você acha que é esperta. Acha que amava seu pai? Você nunca vinha visitar. Só aparecia no Natal, e olhe lá, com má vontade.

— Porque eu não tinha para onde voltar — falei.

E foi aí que ela fez uma coisa que eu jamais imaginaria dela. Começou a chorar. Sem escândalo. Baixinho. Do jeito que se chora dentro do ônibus, quando ninguém deve perceber. E, de costas, disse:

— Eu sabia.

— Sabia o quê? — perguntou a Camila.

— Sabia desse testamento. Sabia que ele tinha deixado tudo para você. Pensei que, se eu fosse boazinha, se ficasse quieta, talvez você me deixasse em paz. Mas você… você sempre foi assim. Dura.

Fui até a cômoda. Tirei da gaveta as chaves do porão e a caderneta de couro velha da minha mãe.

— Escuta aqui. Vou deixar para a senhora o valor que a senhora gastou. Contas de luz, de gás, os remédios dele — está tudo calculado. Trinta e sete mil reais. Pago em dinheiro, até o fim do mês. Pegue isso e não volte mais.

Ela se virou. Tinha os olhos de um bicho que finalmente entendeu que a jaula era mesmo uma jaula.

— E se eu não pegar?

— Aí eu recorro à Justiça e peço penhora.

Nesse momento o tio Renato se levantou, foi até ela, segurou-a pelo cotovelo e, muito calmo, como se fosse a coisa mais natural do mundo, disse:

— Vamos. Eu te levo até em casa.

E a tirou dali.

A casa ficou vazia o outono inteiro. Troquei as fechaduras, mandei raspar a tinta dos batentes, lixar o piso de madeira de novo. Queimei todas as coisas dela — não por raiva, só para que não sobrasse rastro. A caderneta da minha mãe eu guardei com carinho numa caixa de lembranças de família.

Depois fiz uma coisa que eu vinha planejando desde o dia em que meu pai chegou em casa com aquela mulher.

No mesmo Natal em que ele sempre fazia peru assado com farofa, convidei minha mãe para vir para casa. Simples assim. Liguei e falei: "vem passar o Natal aqui, em casa". E ela veio.

Ficamos sentadas na cozinha, na mesma mesa onde, quinze anos antes, ela tinha visto a Vera pela primeira vez. Lá fora chovia, chuva fina de dezembro, e o forno estava ligado, esquentando o ambiente. Minha mãe olhava para mim enquanto picava cebola em cubinhos, bem miudinhos, do mesmo jeito de sempre.

— E aí? — ela perguntou.

— E aí que deu tudo certo — falei. — A casa voltou para nós.

E foi só isso. Sem lágrima, sem pedido de desculpa, sem discurso grande. Só aquela casa cheirando de festa outra vez, como a jabuticabeira em outubro, como a infância que, enfim, tinha voltado para o endereço certo.

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