— Já está tudo combinado. A Catarina traz os miúdos amanhã ao fim da tarde, por isso prepara o quarto grande de cima.
Miguel atirou as chaves para a bancada da cozinha e abriu o frigorífico. Helena ficou parada junto à mesa, com um copo de chá frio na mão. A casa no Alentejo cheirava a frango assado, alecrim e descanso prometido.
Era o primeiro dia das férias dela.
Depois de um ano inteiro como auditora em Lisboa, entre relatórios, números, reuniões e noites mal dormidas, Helena só queria silêncio. A casa herdada da avó era simples, quente, com paredes brancas, uma figueira no quintal e uma varanda onde o tempo parecia andar mais devagar.
— Que miúdos? — perguntou.
— Os da Catarina. A Matilde, a Leonor e o Tiago. Ela e o Paulo conseguiram uma viagem incrível para a Tailândia. Quase metade do preço. Vão na terça.
Helena pousou o copo.
A irmã de Miguel era conhecida por viver sempre no limite da confusão. As gémeas tinham seis anos, o pequeno quatro, e juntos eram uma tempestade com mochilas.
— E decidiste que ficam aqui?
— Claro. Tu estás de férias. A casa é grande. Ar puro. Quintal. Que problema há?
— O problema é que eu não fui consultada.
Miguel revirou os olhos.
— Helena, não compliques. Família ajuda-se.
Depois vieram as instruções. Matilde sem leite. Leonor sem trigo. Tiago só comia legumes triturados. Nada de comida pronta. Tudo fresco. Uma hora de inglês por dia. Letras para o pequeno. Passeios. Horários. Banhos. Protetor solar. Pouca televisão.
— Quem paga as compras? — perguntou Helena.
— Não vais começar com dinheiro, pois não? Tens legumes no quintal.
— O meu quintal. A minha casa. As minhas férias.
Miguel riu sem graça.
— Estamos casados.
— E o casamento não te dá procuração sobre o meu descanso.
Ele irritou-se. Disse que já tinha prometido. Que Catarina contava com eles. Que Helena não podia estragar a viagem. Que ela não tinha nada de especial para fazer.
Foi essa frase que decidiu tudo.
Na manhã seguinte, Helena telefonou a Catarina.
— Os miúdos não ficam comigo.
— O Miguel disse que sim.
— O Miguel falou por si. Não por mim.
— Mas temos bilhetes!
— Então também deviam ter um plano para os vossos filhos.
Catarina chorou, acusou-a de egoísmo, disse que Helena não compreendia o cansaço de uma mãe. Helena ouviu e respondeu:
— Compreendo o cansaço. Por isso não vou deixar que me ofereçam o vosso.
No dia seguinte apareceram na mesma. Carro cheio, malas, sacos de farinha especial, brinquedos, três crianças inquietas e uma lista de cuidados.
Helena esperava-os à porta.
— Há um alojamento familiar a quinze minutos. Enviei o contacto. Também há serviço de ama à hora em Évora. Aqui não ficam.
Paulo ficou vermelho.
— Vais fazer isto às crianças?
— Não. Vocês fizeram isto quando planearam uma viagem sem resolver quem cuidaria delas.
Miguel murmurou:
— Abre a porta, Helena.
— Se queres ficar com eles, tira férias e fica tu.
Ele não teve resposta.
A viagem foi encurtada. Perderam algum dinheiro. Catarina deixou de ligar durante semanas. Miguel ficou ofendido, depois pensativo, depois envergonhado.
Helena passou o verão em paz.
Leu à sombra da figueira. Dormiu sestas. Comeu pão com queijo ao jantar quando lhe apeteceu. Não cozinhou três pratos diferentes. Não deu aulas. Não viveu presa à lista de outra mulher.
Um dia, Miguel sentou-se ao lado dela na varanda.
— Eu achei que, por estares de férias, estavas disponível.
— Férias não são disponibilidade. São recuperação.
Ele olhou para as mãos.
— Desculpa.
A partir daí, ficou uma regra naquela casa: ninguém oferece o tempo de Helena como se fosse uma toalha de mesa guardada para visitas.
Porque há mulheres que passam anos a servir todos.
Até ao dia em que percebem que também têm direito a sentar-se.
