A professora da cidade e o pastor da serra

 

Quando Clara chegou a São Martinho da Serra, no início de maio, trouxe duas malas, um portátil e tantas caixas de livros que o homem da carrinha perguntou se ela vinha abrir uma escola.

Ela sorriu.

Na verdade, vinha fechar uma parte da vida.

Em Lisboa deixara um apartamento arrendado, um casamento terminado sem gritos e uma carreira de professora que já não lhe dava alegria. Aos trinta e seis anos, Clara percebera que havia um tipo de cansaço que não se curava com férias. Era preciso mudar de chão.

Comprou uma casa antiga à saída da aldeia. Tinha telhado a precisar de obras, paredes grossas, quintal cheio de ervas e uma vista para os montes que, ao entardecer, parecia pedir silêncio.

Na aldeia comentaram:

— Gente da cidade gosta disto em maio. Em janeiro foge.

Clara ficou.

Aprendeu a acender o fogão a lenha, a distinguir couves de ervas daninhas, a limpar a água do poço e a aceitar ajuda sem sentir que falhava. As mãos ganharam calos. Os vestidos deram lugar a botas.

Foi assim que conheceu Manuel.

Ele guardava o rebanho da aldeia. Passava todas as manhãs diante da casa dela com as ovelhas, dois cães e um cajado antigo. Tinha cinquenta e seis anos, ombros largos, rosto queimado pelo sol e olhos claros, atentos, sem pressa.

A primeira conversa aconteceu junto à fonte.

— Se deixar o balde assim, cai.

— Está a avisar-me ou a ensinar-me?

— As duas coisas, se quiser ouvir.

Clara riu. Manuel não riu logo, mas o canto da boca denunciou-o.

Semanas depois, convidou-o para chá. Ele entrou desconfortável, olhou para as estantes e disse:

— Isto é livro que nunca mais acaba.

— Gosta de ler?

Manuel ficou sério.

— Não sei.

Clara pousou a chávena.

— Não sabe ler?

— Mal o meu nome. Em miúdo, a escola ficava longe e o trabalho perto. Ganhou o trabalho.

Ela sentiu uma ternura funda. Não pena. Pena seria insulto. Sentiu respeito por aquele homem que dizia a verdade sem se diminuir.

— Posso ensinar-lhe.

— A mim? Com esta idade?

— A idade não fecha livros.

Manuel apareceu uma semana depois com um caderno. Sentou-se à mesa como quem se senta perante um juiz.

— Se eu fizer figura triste, não conte a ninguém.

— Prometo.

As aulas começaram. Letras grandes, sílabas, palavras simples. Manuel irritava-se quando se enganava.

— A minha cabeça é dura.

— Não. Só esteve muito tempo sem porta.

A aldeia falou.

— A professora e o pastor.
— Ele nem lê.
— Ela deve estar carente.

Clara tentou ignorar. Manuel também. Até que um dia o ex-marido dela apareceu para resolver assuntos do divórcio e viu Manuel no quintal.

— Foi para isto que saiu de Lisboa? — perguntou com ironia. — Para viver com um homem sem estudos?

Manuel limpou as mãos às calças.

— Estudos não tenho. Mas sei quando um homem fala para se sentir maior.

O outro calou-se.

Nessa noite, Clara encontrou Manuel junto ao rebanho.

— Quero ficar contigo.

Ele demorou a responder.

— Sou velho. E simples.

— Eu vivi rodeada de gente complicada. Não fiquei mais feliz por isso.

— Vão rir-se.

— Então que riam do lado de fora.

Casaram-se em setembro. Na pequena igreja branca, com poucas flores e muitos olhares. Depois houve caldo verde, pão, queijo e vinho no quintal. A certa altura, Manuel levantou-se e leu, com esforço, a primeira frase que escrevera sozinho:

“Clara trouxe-me letras. Eu prometo dar-lhe casa.”

A aldeia ficou calada.

Depois bateu palmas.

Anos mais tarde, Clara ensinava crianças e adultos na antiga escola primária. Manuel ia às aulas, já lendo devagar pequenas histórias. Quando alguém dizia que tinha vergonha de aprender tarde, ele respondia:

— Vergonha é deixar a alma fechada.

Clara nunca voltou para Lisboa.

Porque descobriu que há pessoas que sabem ler todos os livros e não sabem ler um coração.

E há quem aprenda tarde as letras, mas desde sempre saiba reconhecer amor verdadeiro.

 

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Odissea
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