A Pitangueira Que Meu Marido Plantou

Acordei com o cheiro de doce no ar, mas não era da minha cozinha. Era o cheiro de fruta esmagada, de seiva e terra revirada. Abri a janela do quarto e congelei. O chão do meu quintal estava forrado de pitangas vermelhas, espalhadas como confete de guerra. Centenas delas. Estavam por cima da grama, boiando na piscina de plástico dos gatos, esmagadas nos tijolos da calçada. Os galhos mais baixos da velha pitangueira, a árvore que Seu Miguel plantou na nossa primeira semana em Petrópolis, estavam quebrados e estilhaçados.

Meu primeiro impulso foi gritar. Mas eu não gritei. Respirei fundo, sentindo o cheiro doce demais que vinha lá de fora, e sorri baixinho. Peguei meu robe de cambraia, fui descalça até a cozinha, passei um café coado na hora e sentei na mesa de fórmica vermelha. Liguei o computador. Verônica, minha vizinha da casa geminada, achava que tinha ganhado a guerra. Ela não sabia que eu estava filmando tudo.

Seu Miguel partiu há oito anos. Na última primavera dele, ele chegou em casa com uma muda de pitangueira num saquinho preto de viveiro, segurando-a contra o peito como se fosse um filhote. Ele já estava magro, com as mãos manchadas pelo tratamento, mas os olhos brilhavam. “Dona Vera, essa aqui vai dar fruta até para os netos do bairro.” Eu briguei com ele, é claro. Disse que ele não podia ficar no sol, que não podia fazer força. Ele fez pouco caso. “Força? Só preciso da pá e do seu amor, meu bem.” Cavamos juntos o buraco perto do muro. Ele ditava as regras, sentado na cadeira de corda, enquanto eu suava a camisa. Quando a muda ficou de pé, ele bateu a terra com a sola do chinelo e deitou a mão no tronco fino. “Paciência, Verinha. Um dia ela vai te fazer uma surpresa.”

Ele se foi no outono.

A árvore foi minha companheira de luto. Nos primeiros três anos, ela não deu nada, e eu cheguei a pensar em arrancá-la, porque cada vez que olhava para aqueles galhos secos, doía. Mas no quarto ano, ela explodiu em florzinhas brancas, e no verão seguinte, me encheu de frutas ácidas e doces. Eu fazia geleia, compota, licor. Enchia saquinhos de papel pardo e distribuía para as crianças da Rua Teresa, que adoravam bater no portão para pedir “as pitangas da tia Vera”.

Era uma árvore que dava. Até a Verônica se mudar.

Ela chegou num janeiro abafado, com um carro importado prateado e um projeto de reforma que prometia “modernizar o bairro”. A primeira coisa que ela fez foi trocar o portão de ferro antigo por uma porta de alumínio blindada. Depois, arrancou todas as onze-horas do jardim da frente e colocou brita branca. Na terceira semana, bateu no meu portão. Eu estava estendendo uns panos de prato no varal.

— Bom dia, vizinha. — ela disse, sem olhar no meu olho. Ela olhava a árvore. — Eu sou a Verônica. Precisamos conversar sobre esse mato aí.

— Mato? — eu olhei para trás. — É uma pitangueira.

— Isso é um entulho. Os galhos sujam a minha calçada. As folhas voam para o meu quintal. Isso desvaloriza a minha propriedade.

Eu dei uma risada curta, achando que era brincadeira. Mas ela não piscou.

— Eu posso podar os galhos que passam para o seu lado — ofereci.

— Não quero que você pode. Quero que você arranque.

— Isso eu não vou fazer, dona Verônica.

Ela apertou os lábios finos, que estavam pintados de um batom muito rosa para aquela hora da manhã.

— Então você não vai gostar do que vai acontecer.

No dia seguinte, contratei um jardineiro para cortar qualquer galho que ultrapassasse o muro. Ficou perfeito, a copa parecia uma sombrinha verde. Achei que o problema estava resolvido. Mas a guerra só estava começando. Nas semanas seguintes, Verônica começou a me denunciar para a associação de moradores. Dizia que a árvore atraía mosquitos da dengue, que as raízes iam rachar a laje da garagem dela, que os pássaros faziam sujeira. Uma vez, ela me parou enquanto eu aguava as samambaias e disse, com a voz mais doce do mundo, que tinha sonhado que a árvore caía em cima do telhado dela durante uma chuva de verão.

— As raízes são traiçoeiras, Vera. Elas crescem por baixo da terra, no escuro, onde ninguém vê. E quando a gente menos espera, elas derrubam tudo. É melhor você ser civilizada.

Eu não respondi. Apenas apertei a mangueira. Mas naquela noite, fiz duas coisas. A primeira, foi revisar o seguro do imóvel. A segunda, foi instalar uma câmera de segurança com visão noturna, daquelas que se compra em loja de eletrônicos do centro. Posicionei o suporte no beiral do telhado da lavanderia, mirando o pé da pitangueira e toda a extensão do muro que dividia os terrenos. Seu Miguel sempre dizia: “Se você sente que precisa checar a fechadura duas vezes, Vera, cheque. O máximo que você ganha é paz de espírito.”

Três meses se passaram assim: a cada nova denúncia infundada de Verônica na associação, eu juntava o protocolo da reclamação e uma foto da árvore impecável. E esperava. Até que a profecia dele se cumpriu. E eu não estou falando da árvore.

Na tela do computador, as imagens eram granuladas, banhadas no verde fantasmagórico do infravermelho. O relógio no canto inferior esquerdo marcava duas e quarenta e sete da madrugada. Uma silhueta surgiu no quintal de Verônica com um ponto de luz na testa — uma lanterna de cabeça. As luvas de jardinagem pareciam manchas mais claras contra o tronco do corpo. Ela carregava um podão de cabo longo. Dava para ver pelo modo como ela fincava o gancho na ponta do podão nos galhos carregados de fruta e puxava com violência, jogando o corpo para trás. As pitangas choviam no chão. Ela então pulou o muro baixo, pisando nas frutas do meu lado como se fossem baratas. Agarrou os galhos quebrados e começou a arrastá-los, jogando-os contra o pé da árvore, um por um, simulando uma queda natural. O microfone da câmera captou cada estalo de madeira verde partindo, até os grunhidos de esforço abafado.

Salvei o vídeo em três lugares diferentes. Depois, capturei as imagens que mostravam o conjunto: a silhueta inconfundível de Verônica com sua lanterna de cabeça, o podão erguido contra a noite, o gesto de invadir meu quintal.

De manhã, imprimi as capturas de tela numa folha A4 e colei num pedaço de madeira compensada. Escrevi embaixo com a minha melhor letra de caneta hidrográfica: “Quem destruiu a pitangueira que meu falecido marido plantou? Foi a Verônica.” Arrumei o cavalete na calçada, bem na divisa dos nossos terrenos, e sentei na cadeira de corda do Miguel para esperar.

Os vizinhos começaram a se aglomerar antes das oito. Seu Raimundo da padaria foi o primeiro a ler e balançar a cabeça. Dona Fátima, que sempre ganhava um vidro de geleia no Natal, fez o sinal da cruz. Quando o relógio bateu nove e meia, a porta blindada de Verônica se escancarou. Ela veio bufando, os olhos arregalados como os de um peixe.

— Tira isso daí! Isso é difamação! Você não tem provas!

Os vizinhos não diziam nada. Só olhavam. Eu tirei o celular do bolso do vestido, sem pressa, e coloquei o vídeo para rodar. O brilho da tela iluminou meu rosto enquanto, no alto-falante do aparelho, ouvia-se o som inconfundível de galhos sendo estraçalhados, entremeado pelos ruídos secos dos passos no meu quintal. Verônica congelou. O batom rosa parecia uma ferida no rosto pálido dela. Ela olhou para a tela, para mim, para os vizinhos. Ninguém desviou o olhar.

A viatura da polícia dobrou a esquina. Eu tinha ligado para o 190 antes mesmo de montar o cavalete.

O resto foi cartório, audiência de conciliação e tristeza burocrática. Verônica resistiu até a última hora, alegando montagem, dizendo que a imagem era fraca demais. Mas o laudo técnico confirmou os metadados, o horário e a posição. Ela acabou aceitando um acordo para evitar um processo criminal: prestação de serviços comunitários, uma indenização por danos morais e materiais, e a obrigação de plantar cinco mudas de pitangueira em praças públicas da cidade. No dia em que ela entregou a primeira muda, estava com a mesma expressão de furor dos fundos da garagem, mas com as unhas limpas de terra alheia.

A minha árvore sobreviveu. No verão seguinte, deu menos frutos, e os galhos novos cresceram finos e retorcidos. Uma tarde de outono, depois de uma chuva mansa, saí para o quintal e vi os brotos verdes despontando nas cicatrizes deixadas pelo podão. Abaixei ao pé da pitangueira, despejei um punhado de adubo e afofei a terra com as mãos. Depois, endireitei a velha cadeira de corda ao lado do tronco, passei um pano no assento e entrei para buscar a tesoura de poda.

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Odissea
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