O sol batia direto na laje da oficina desde as sete da manhã. Alzira Nascimento, 58 anos, jardineira aposentada da prefeitura, sentia isso na pele antes mesmo de sair de casa: bastava abrir a janela do quarto, no terceiro andar do prédio na Rua dos Timbiras, para o calor entrar como se alguém tivesse aberto um forno.
O bairro Barreiro, na zona oeste de Belo Horizonte, tinha virado uma ilha de cimento. Prédios colados uns nos outros, poucas árvores, o asfalto rachado de tanto sol. Em janeiro de 2019, um termômetro colocado pela associação de moradores na praça central marcou 41°C às três da tarde — três graus a mais que a média registrada pelo INMET para a região metropolitana naquele mesmo horário.
Foi a vizinha, dona Creusa, quem trouxe o panfleto da prefeitura. Um programa chamado "Corredores Verdes do Barreiro", inspirado em experiências de outras cidades latino-americanas, oferecia treinamento e uma bolsa de trezentos e oitenta reais por mês para moradores dispostos a cuidar de mudas plantadas em canteiros, encostas e ao longo do córrego que cortava o bairro.
Alzira se inscreveu no mesmo dia. Trinta anos cuidando das praças da Pampulha lhe davam algo que ninguém mais no grupo tinha: ela sabia, só de olhar a terra, se aquele solo aguentava um ipê-amarelo ou se era melhor plantar um pau-brasil mais resistente à seca.
O problema não era o trabalho. Era o síndico do prédio vizinho, seu Osvaldo Meireles, dono de três lojas de material de construção na região e figura de peso na associação comercial local. Ele via os canteiros como estorvo.
— Isso aqui vai virar esconderijo de bandido — falava seu Osvaldo nas reuniões de bairro, batendo a pasta de couro na mesa. — Árvore rachando calçada, raiz entupindo bueiro. Eu pago IPTU pra prefeitura cuidar de asfalto, não de mato.
Ele tinha um projeto próprio havia anos: ampliar o estacionamento da loja principal, cortando justamente a faixa de terra onde a prefeitura planejava o primeiro corredor. Duas árvores que Alzira já tinha plantado ali — um jatobá pequeno e uma muda de quaresmeira — ficavam bem no meio do terreno que ele queria.
Uma manhã de terça, no fim de fevereiro, Alzira chegou para regar as mudas e encontrou o jatobá cortado rente ao chão. A serra elétrica ainda tinha deixado serragem espalhada pela calçada. Ela ficou ali um tempo, olhando o toco, sem falar nada, só passando a mão na terra revirada ao redor, como se pudesse arrumar de volta.
Foi até a loja de seu Osvaldo com a foto do toco no celular.
— O senhor sabe alguma coisa sobre isso?
— Sei que essa árvore tava atrapalhando a entrada de caminhão. Reclamei três vezes com a associação e ninguém resolveu. Resolvi eu.
— Essa muda não era sua pra cortar. É bem público, tem placa da prefeitura.
— Placa não paga meu ICMS, dona Alzira.
Ela registrou boletim de ocorrência na delegacia do Barreiro — dano ao patrimônio público, artigo 163 do Código Penal — e levou cópia à administração regional. O guarda que atendeu, um rapaz que também morava no bairro, disse que já tinha visto casos assim não irem a lugar nenhum, dono de comércio com advogado, processo emperrando.
Alzira não esperou a resposta da prefeitura. Voltou à associação de moradores com o boletim, o relatório fotográfico e um documento que os jardineiros do programa tinham assinado juntos, reconhecendo cada muda plantada como patrimônio da comunidade, com matrícula própria registrada no cadastro verde municipal.
Na reunião seguinte, com o salão da igreja cheio, ela colocou a pasta em cima da mesa, ao lado da de seu Osvaldo.
— O senhor quer estacionamento maior, eu entendo, negócio precisa crescer. Mas essa faixa de terra tem uma escritura de uso comunitário assinada há dois anos, com o próprio nome do senhor entre as testemunhas, quando o corredor foi inaugurado. — Ela abriu a página, virou para que todos vissem a assinatura. — O senhor assinou apoiando o projeto na época em que precisava do apoio da associação pra liberar o alvará da terceira loja.
Um silêncio comprido tomou o salão. Seu Osvaldo folheou o próprio contrato de alvará, que alguém tinha trazido do arquivo da associação, e viu ali, preto no branco, a contrapartida que ele mesmo tinha negociado: manutenção da área verde por dez anos, em troca da licença ambiental simplificada.
A associação votou pela reposição da árvore, às custas dele, e por uma cerca de proteção ao redor dos canteiros restantes. Seu Osvaldo pagou a multa de mil e duzentos reais, mandou plantar outro jatobá — maior, já com quatro anos — e nunca mais apareceu nas reuniões de bairro.
Hoje o corredor verde do Barreiro tem oitocentas e dez árvores, plantadas ao longo de quatro anos por Alzira e mais onze jardineiros da comunidade. A temperatura média na praça central, medida pela associação no mesmo horário e no mesmo termômetro, caiu para 37°C nos dias mais quentes. Não é muito, dizem os técnicos da prefeitura que acompanham o projeto. Mas é o suficiente pra sentar na sombra da quaresmeira, agora com seis metros de altura, e não sentir o cimento embaixo dos pés como brasa.
