Os meus filhos diziam há anos que o apartamento era grande demais para mim.
— Mãe, três quartos para uma pessoa só não fazem sentido — dizia a minha filha Teresa.
— Vende, compra uma coisa pequena e ficas descansada — insistia o meu filho João, que vivia no Porto e organizava a minha vida por telefone.
Chamo-me Helena, tenho sessenta e quatro anos e vivi mais de trinta anos num apartamento em Coimbra. Três quartos, uma varanda estreita, uma cozinha onde o meu marido, António, fazia café forte demais. Depois da morte dele, a casa ficou cheia de silêncio. Mas continuava a ser minha.
Os meus filhos confundiam preocupação com comando.
— Devias sair mais.
— Devias simplificar.
— Devias vender.
— Devias pensar em nós se te acontecer alguma coisa.
Eu pensei.
E decidi.
Aluguei o apartamento a três estudantes universitários. Contrato, caução, regras claras. Depois fui para casa da minha amiga Lurdes, numa aldeia perto de Arganil. Ela tinha uma casa antiga, horta, figueiras e uma gargalhada que parecia abrir janelas.
— Quanto tempo ficas? — perguntou.
— Até deixar de me sentir uma viúva arrumada numa prateleira.
As primeiras semanas foram leves. Café no quintal, mãos na terra, idas ao mercado, compota de ameixa, noites a ver novelas e a comentar tudo como duas raparigas.
Lurdes dizia:
— Helena, estás outra.
Os meus filhos, porém, telefonavam com preocupações novas.
— Mãe, a vizinha diz que deixaram uma bicicleta no corredor.
— Já foi retirada.
— E se estragam o chão?
— O chão já sobreviveu a vocês em crianças.
Mas a pergunta verdadeira vinha sempre:
— Quando voltas?
Aos poucos entendi. O apartamento era grande demais para mim, mas muito útil para eles. Teresa ficava lá quando vinha a Coimbra. João guardava caixas na arrecadação. Os netos dormiam no quarto grande. A minha casa era a solução de todos.
Menos minha.
Em agosto apareceram na aldeia sem avisar. Teresa quase chorava. João estava irritado.
— Mãe, não podes viver assim, em casa de uma amiga.
Lurdes, que descascava pêssegos, respondeu antes de mim:
— Poder, pode. E até lhe fica bem.
Sentámo-nos no quintal. Ouvi medos, culpas e frases bonitas sobre segurança. Depois falei:
— Não vou vender o apartamento. A renda paga a minha vida. Os meus remédios, as minhas viagens, a minha parte aqui. Eu não fugi. Escolhi.
Teresa disse:
— Temos medo de te perder.
— Então não tentem prender-me.
João ficou calado.
— Pensei que estavas sozinha.
— Estava. Mas não por ter três quartos. Estava sozinha porque todos sabiam o que eu devia fazer e ninguém perguntava o que eu queria.
Depois disso, as chamadas mudaram. Devagar. Teresa começou a perguntar pela horta. João veio com os miúdos e ajudou Lurdes a arranjar a vedação.
No outono voltei ao apartamento por uns dias. Os estudantes tinham deixado flores e um bilhete:
“Obrigada por nos confiar a sua casa.”
Sentei-me na sala e percebi que não precisava escolher entre passado e futuro.
A casa guardava a minha história.
Mas eu ainda podia sair para escrever mais algumas páginas.
